segunda-feira, 17 de março de 2014

Uma fabulosa vida livre

Vida livre MAR14Arthur vivia uma vida rústica. Tão rústica que para comer ele precisava caçar.

Mas era esta a vida que ele levava e curtia. Não queria saber de outra.

Não tinha contas a pagar, não devia satisfações a ninguém e era feliz.

Os dias passavam sendo vividos um a um. O negócio de Arthur era ser livre e feliz - o resto era resto.

Uma moradia super simples com o tamanho suficiente para acomodar alguns poucos primos ou o irmão que, às vezes, o visitavam.

As visitas aconteciam, invariavelmente, do jeito que Arthur mais gostava: duravam dois dias, no máximo. Desta forma o dia a dia do jovem com anseios de liberdade total não era prejudicado.

Dois dias bastavam para matar a saudade e pôr a conversa em dia. Passado este período já virava rotina e aí era invasão de privacidade e liberdade tolhida.

Dono de um viver simples e descompromissado, o jovem saía de casa logo cedo, andava a esmo pelos arredores e se visse uma caça, tratava de tentar abatê-la para garantir o almoço, ou a janta.

Tão livre era que, por vezes e até por preguiça, não voltava para casa. Dava um jeito de passar a noite onde estivesse.

Isso era liberdade total. Algo almejado por muitos e ele tinha. E como!

- Sou livre! Esta é a vida que eu sempre quis ter! Assim falava, consigo mesmo, um todo alegre Arthur.

Para ele, um vidão.

Se rolasse um sexo, legal. Se não, paciência - a vida continuava.

Mas..., pois é, sempre tem um mas, para temperar qualquer história... bem, voltemos ao texto.

Mas, um dia Arthur conheceu aquela que seria sua cara metade. Amélia era uma coisa de louco.

Linda, simpática, charmosa, atributos certos nos lugares certos. Ela mexeu com aquele solteirão convicto.

E ele cedeu notando que, sem haver percebido, faltava algo para ser completamente feliz: uma esposa, uma cúmplice com a qual poderia rir, chorar, dividir a vida.

De repente começou a sonhar com filhos, família, um modo de vida nada a ver com aquele que levava, mas que chegara a hora de conquistar. Mesmo porque a idade vinha chegando.

Depois de um curtíssimo período de paquera, de ambos os lados, passaram a namorar e ela aderiu totalmente àquele estilo rústico de vida do namorado.

O relacionamento foi ficando cada vez mais sério e acabou tomando um destino tradicional: iriam casar-se.

Como os pais de Amélia eram ultraconservadores, optaram por seguir fielmente a tradição e não pular qualquer degrau. Namoravam, ia pedir a mão dela, ficariam noivos e só depois casariam.

Assim, marcaram o dia para uma cerimônia íntima, só com os pais de Amélia, o irmão e um primo de Arthur, cerimônia na qual ficariam noivos. Era o segundo passo.

Com os preparativos prontos, faltava garantir a comida para os convivas.

Para isso, Arthur saiu cedo para caçar, conforme as regras que adotara em sua vida.

Foi difícil. O tempo passava e... nada. Aquilo temido pelo jovem caçador ia acontecendo, afinal a caça andava escassa por aquelas bandas.

Depois de algum tempo, Arthur conseguiu abater uma primeira presa, mas uma só não seria suficiente.

Algum tempo depois, a segunda e, aos “49 do segundo tempo”, uma terceira

Pronto, finalmente podia retornar à casa, onde Amélia e os convidados já deviam estar esperando. E com fome.

Quando chegou, Arthur foi tomado por uma grande surpresa, levando um tremendo susto.

Além dos quatro convidados, também compareceram três irmãos e dois primos de Amélia e mais cinco primos de Arthur, todos com ares de quem estava de estômago vazio reclamando por comida.

De um estático Arthur saíram, com muito esforço, as palavras:

- Poxa pessoal, só três baratas não vão alimentar 16 lagartixas!

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

12a. Descida das Escadas de Santos

Neste ano, a Descida das Escadas de Santos aconteceu no dia 09 de fevereiro, com sempre, nas escadas do Monte Serrat.

Veja o percurso na imagem abaixo, extraída do Descida das Escadas de Santos:

Trajeto escadaria

Os 415 degraus, foram vencidos em cerca de 55,284 segundos pelo eslovaco Filip Polc que levou o título pela 4a. vez - Tetracampeão!

Menos de um minuto para um trajeto de 850 metros, em uma descida equivalente, em altura, a um prédio de 56 andares (147 metros).

O legal é que a partir desta edição, a Descida das Escadas de Santos passou a ser uma competição integrante da Copa do Mundo City Dowhill Series.

Esta parceria trouxe ao evento, além de mais projeção e grandes nomes do esporte, a mais alta premiação registrada no Brasil para a modalidade: 10 mil euros divididos entre os cinco primeiros colocados.

Que ganhar uma bolada? Ano que vem tem mais.

Por ora, fiquem com algumas imagens que fiz, cobrindo o evento:

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

A separação

A Separação

Beto e Helena eram bem casados, encabeçavam uma família linda que englobava duas filhas e o filhão que, apesar de ser o caçula, tomava conta das meninas.

A vida, como casal, havia iniciado em maio de 1985 quando começaram algumas ficadas, um namorico e tudo se ajeitou no dia 15 de junho quando efetivamente começaram a namorar de forma séria.

Ambos jovens, tinham uma vida inteira pela frente e, desde cedo, iam contabilizando planos para a vida em conjunto.

Sabiam que teriam de abrir mão disso ou daquilo em prol do outro. Tinham certeza de que tudo estaria muito bem harmonizado e que a vida seria uma maravilha, mesmo com os revéses que haveriam de acontecer.

Revéses? Ora, seriam os temperos para quebrar a rotina e provocar uma boa reconciliação do casal... nada como uma boa reconciliação.

E a vida foi passando. Três anos de namoro, veio o noivado no aniversário de Helena. Ela contava 19 anos de idade e ele, 21.

Alianças trocadas e tudo ficou ainda mais sério.

Outros planos começaram a surgir, em especial um que animava ambos: casamento.

Depois de 18 meses de noivado, casados.

Cartório, igreja, recepção e a Lua de Mel em Campos do Jordão.

Queriam ter filhos como qualquer casal, mas somente uns dois anos depois de casados. Iriam curtir a vida a dois primeiro.

Os planos foram concretizados. A primeira filha, Beatriz, nascida aos 18 de julho de 1992 viera mudar o panomara. Agora eram uma família de fato.

Mais dois anos e a família aumentou, nasceu Gabriela.

Tudo eram flores na vida daquela família, mas as duas pediam mais um filho, filho sim, queriam um irmãozinho.

Orlando nasceu quatro anos depois de Gabi. Família completa.

Os anos foram passando, os filhos cresceram, casaram-se. Viviam em suas próprias casas.

O casal mantinha sua vidinha, mas, agora, nem tudo eram flores.

A aparência era mantida, mas entre as quatro paredes daquele velho apartamento algo acontecia.

Beto tentava de tudo, mas Helena mostrava-se cansada daquela vida de esposa fiel. Muito secretamente nutria um sentimento que lhe causava certa ânsia por uma aventura.

Frequentemente recebia flores do marido, mas não eram mais vistas como antes.

-- Ele ainda está apaixonado por mim - pensava uma desiludida Helena - tenho pena dele, mas quero cuidar da minha vida.

Ela nutria uma vontade adquirida pelas más companhias que arranjara na academia. Suas amigas invariavelmente eram mulheres decepcionadas com o casamento e que traíam seus maridos abertamente.

Não, ela não seria assim. Embora não amasse mais o Beto, devia-lhe respeito.

Contudo, aconteceu.

Em um final de tarde, saindo da academia, ela deu carona a Rodolfo, o professor de pilates. Homem feito, uns 40 anos e corpo muito bem definido.

Conversa vai, conversa vem, pararam em uma lanchonete de produtos naturais para um suco e uma tijela de açaí.

Dali para um motel foi um pulo.

Ela chegou em casa ainda ofegante, preocupada se Beto já havia chegado. Não, Beto não estava.

Tomou um banho, recuperou as forças e preparou um bom jantar para o marido.

Beto chegou com um belo buquê de rosas champanhe - as preferidas dela.

Ela as recebeu. Cheirou-as imaginando que haviam sido enviadas pelo Rodolfo.

Naquela noite ela praticamente não dormiu. Apenas ficara devaneando sobre a tarde nos braços viris daquele modelo de homem.

No dia seguinte repetiram a dose e assim foi durante algum tempo.

Rodolfo, apaixonado, insistia para que ela deixasse o marido. Ele não tinha grandes posses, mas havia o suficiente para os dois viverem tranquilos e amando-se cada vez mais.

A questão “grandes posses” não era problema, afinal a vida com Beto eram bem assim mesmo. Não tinham quase nada e, volta e meia, faziam contas no final do mês.

Talvez fossem exatamente essas contas no final do mês que estavam minando seu casamento. Ela não queria aquilo. Queria mais e Rodolfo proporcionaria esse algo mais.

Definitivamente estava cansada de Beto.

Dois meses se passaram com aquela angústia apertando-lhe o peito. Precisava dar um basta naquela situação.

Conversou com Rodolfo e, então, tomaram a decisão de morarem juntos.

Com Rodolfo havia o fator predominante do adeus às continhas no final do mês.

Naquele final de tarde, Beto, sem suspeitar de coisa alguma, entra em casa esbaforido. Aos gritos sequer nota a presença de Rodolfo e que ela, de mãos dadas com o namorado, o esperava com as malas prontas:

- Querida, ganhei na mega-sena! SOZINHO!

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Sonho de consumo

Sonho de Consumo JAN14Fausto sempre alimentou o sonho do carro próprio.

Claro, não poderia ser qualquer carro. Teria de ser “o carro”. Carro não, automóvel!

Imaginava-se sentado ao volante do bólido, naturalmente um de apenas duas portas. Quatro? Nem pensar.

Passara a vida juntando todo o dinheiro que pôde para, finalmente, sair em campo atrás da máquina dos sonhos.

Sequer se lembrava de quantas vezes deixara de sair. Quantos nãos foram falados aos amigos, à namorada; tudo para guardar e conseguir comprar o possante antes dos 21 anos.

Havia uma meta a ser alcançada desde aquele ido ano de 2001 quando foi ao cinema assistir à estréia de Velozes e Furiosos. Saiu encantado com as máquinas que apareceram no filme.

Dominic Toretto (Vin Diesel) e Brian O’Conner (Paul Walker) imediatamente foram postos no topo da galeria de heróis.

Passados poucos anos e o pai o leva a Interlagos para assistir a uma prova de Gran Turismo.

Ferraris, Lamborghinis, Porsches, Vipers e outras máquinas, passando a toda velocidade em frente àqueles olhos sonhadores, ao vivo e em cores, marcaram o objetivo de consumo como uma ideia fixa na cabeça do menino.

Era o objetivo. Um automóvel forte, veloz, de presença. Um que chamasse a atenção aonde quer que fosse.

Via-se passeando pelo litoral, andando devagar pela orla das praias, exibindo o carrão. Depois, pegando as estradas e dando uma abusada para sentir melhor o motorzão do bólido. A vida dos sonhos.

Finalmente, aos 21 anos, viu que não podia mais esperar. Chegara a hora.

Foi a São Paulo escolher, dentre as cinco marcas preferidas, aquele que seria a concretização do sonho antigo.

Viagem de pesquisa traçada, a primeira foi a Ferrari, na qual marcou um test drive para o dia seguinte.

A segunda visita foi na concessionária da Maserati. Ali teve o prazer, a honra, o privilégio, de já fazer o test drive com uma Gran Turismo V8.

Inenarrável a sensação de, pela primeira vez, andar num carrão desses. Ouvir o ronco do motor, sentir a direção. Pena que não podia acelerar. Uma voltinha no quarteirão que valeu a pena e aguçou ainda mais a vontade de ter seu próprio carro.

Por último, no primeiro dia, acabou a série de visitas em uma revenda da Porsche.

Não havia carro disponível para um test drive, mas sentar num Boxster, com a capota abaixada, fê-lo sentir-se meio dono do mundo.

À noite, deitado na cama, sonhava de olhos bem abertos, ouvindo cada ronco, sentindo cada cheiro, revendo as cores, os bancos de couro, os painéis... tudo era lindo.

Segundo dia e lá foi ele de volta a Sampa.

Primeira parada, volta à Ferrari. Resultado do test drive com um modelo California: NOOOSSSSAAAA!!!!!! Sem palavras.

Teste feito, foi para a Aston Martin.

Ali entrou a bordo de um conversível, modelo DB9 Volante. Que carro! Não pôde dirigi-lo, mas ligou o motor e ouviu o ronco bravo do bichão. Um ronco sedutor aos ouvidos de um fanático e encantado Fausto.

Terminou o dia testando uma Lamborghini Gallardo Spyder branca. Capota abaixada, vento no rosto e completa sensação de liberdade. O que mais poderia querer?

Voltou para casa, extasiado com toda a movimentação dos dois dias de verdadeiras aventuras com os carrões.

Sentou-se à mesa com todos os papéis que recolhera nas concessionárias.

Valores, formas de pagamentos, IPVA, seguros, licenciamento - foi lançando tudo na planilha Excel feita pelo seu irmão Flávio, verdadeiro “Rei da Planilhas”.

Pela planilha fez todas as comparações possíveis, examinando custos e benefícios de cada carrão.

Fez todos os cálculos, não se esquecendo de incluir os gastos com manutenção, e chegou a uma conclusão. O dia seguinte seria o grande dia.

Sabia bem o que tinha a fazer e, com o pé bem fincado no chão, faria. Doesse a quem doesse.

Entrou confiante na loja. Juntara dinheiro suficiente e pagaria à vista. Nada de dívidas. Carro quitado!

Sentou-se com o vendedor e fecharam o negócio e Fausto saiu dali dirigindo o eleito.

Ele sabia bem que sonho é sonho e realidade é outra coisa. Por isso a decisão com os pés no chão - nada de querer o mais caro ou o mais luxuoso. A dicotomia custo e benefício haveria de imperar.

E lá foi ele, todo satisfeito, pilotando aquele que se saiu melhor, e dentro de seu orçamento.

Ele e o pré-batizado Zezão, nome dado ao Celta branco comprado. Um modelo 2010, mas com direção hidráulica e ar condicionado.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Ano Novo

clip_image002Formavam uma família feliz. Fred, Carol e a pequena Bia, de quatro anos.

Passavam os dias, os meses, os anos e aquela família cada vez mais feliz. Tudo apontava para um futuro promissor.

Os 15 anos de Bia foram comemorados em grande estilo, em um dos melhores buffets da cidade.

Mais alguns anos se passam e Fred perde o emprego. A empresa falira, deixando todos os funcionários sem nada.

A família sofre uma inversão jamais imaginada. Antes tudo eram flores e, de repente, tudo vem abaixo.

Contas, cartões, dívidas, tudo acumulando e Fred entrando em desespero. Como garantiria a sobrevivência de sua amada família?

Certo dia, andando a esmo pela cidade, depara-se com um estranho que lhe oferece uma saída mágica para os problemas dele.

- Tome esta pedrinha, você parece estar precisando. Pegue, é de graça!

O bom sujeito ensinou-lhe a fazer uso daquilo e, minutos depois, Fred estava viajando, sentindo-se muito leve.

Saiu andando sem saber para onde ir. Com sede, parou em um bar para tomar água. Acabou querendo algo mais forte e optou por uma cachaça.

Voltou para casa tarde da noite, meio bêbado. Sem graça, prometeu à Carol que aquilo não mais se repetiria. Que fora apenas um momento de fraqueza.

Adormeceu cansado e com uma dor no peito, envergonhado.

No dia seguinte iria sair em busca de emprego. Saiu de casa resoluto, embora com a certeza de que a tarefa não seria nada fácil.

Infelizmente a premissa tornara-se verdadeira. Nada!

Nova pedra, outra e outra. Novas doses de cachaça ou conhaque e Fred não era mais o mesmo.

Muito mais tarde da noite, caiu em si. Mais do que envergonhado, decidiu que não poderia voltar a casa e encarar a esposa e a filha.

Mesmo nos piores momentos não poderia sequer imaginar ser um fardo que as duas fossem obrigadas a carregar.

Ele ficou por ali, sobrevivendo a cada dia.

Carol e Bia desesperavam-se sem notícias. Onde poderia estar?

Hospitais, IML, polícia, Prontos Socorros... tudo em vão. Não havia qualquer pista dele.

Mesmo com o passar dos anos, a dor do sumiço não amainava. Viver sem saber o que havia acontecido era terrível.

Com muito custo, por causa da burocracia, Carol conseguiu vender a casa, comprou um apartamento menor e pôs as contas em dia com o que sobrara.

Passaram a viver mais comodamente. Apenas a dor da perda persistia.

As duas trabalhavam, Bia fazia faculdade à noite e, nos tempos livres, sempre deixavam espaço para a procura por Fred, um ótimo marido e pai. Aquele amigo inquestionável e precioso fazia muita falta.

- Se tivesse morrido, ao menos saberíamos dele, mas, sumido? Reclamava uma Bia chorosa.

Ignoravam que ele, uns 30 quilos mais magro, virara um zumbi na cracolândia.

Álcool e todo tipo de droga minaram-lhe a existência e acabaram com suas forças.

Uma noite, algumas freiras, ligadas a São Francisco de Assis, aproximaram-se do grupo em que Fred estava.

Enquanto a maioria distribuía sopa e pão, uma outra começou a contar uma história.

Fred identificou-se com o protagonista da história contada e viu ali uma saída para aquela vida miserável - se é que alguém pudesse chamar aquilo de vida.

Levantou-se, dirigiu-se até a freira e disse que queria mudar de vida; que precisava de ajuda.

Os meses seguintes foram determinantes. Internado em uma clínica, comeu o pão que o diabo amassou até desintoxicar-se.

De volta ao convento, passou a cuidar do jardim e da horta e, à noite, saía com as freiras para ajudar os necessitados.

Havia ali um novo Fred. Envelhecido, magricela e acabado, mas um novo ser, alguém que já começava a ver um futuro mais risonho pela frente.

Só não procurava a esposa e a filha pelo temor que tinha de ser rejeitado, afinal abandonara-as quando mais precisaram. Fora fraco e tinha vergonha disso.

Logo após o Natal, uma jovem entra no convento com o marido e a pequena filha no colo.

Haviam ido comprar alguns artesanatos para presentear uns amigos que iam encontrar antes do Ano Novo.

Fred viu a cena e uma lágrima escorreu de seus olhos - via ali a si próprio com a Carol e a pequena Bia.

A moça, ao olhar para aquele velho franzino, todo cheio de marcas que um tempo ruim havia deixado, entregou a criança ao marido e foi em direção a ele.

Parados, sem se falar, ela o abraça forte. Bem forte.

Apenas uma palavra sai de seus lábios, com muito esforço e depois de uns dez minutos abraçando aquele senhor:

- Pai!

Aquele seria um réveillon diferente. Bem diferente.

domingo, 22 de dezembro de 2013

Contos Twitteranos [25]

Contos TwitteranosContos que, como no Twitter, devem conter
um máximo de 140 toques.
O mais legal é fazer com que fiquem
com exatos 140 toques.

481) Bichinho de estimação (140 toques)
Exigente, queria um cãozinho que não sujasse, banho só às vezes e veterinário nunca! Que não precisasse sair ou latisse. Comprou de pelúcia.

482) Jovem enxadrista (140 toques)
-Agora sei jogar xadrez! Alardeou desafiando o primo, que recusou. Perturbou. Desafio aceito! Um pastorzinho e a festa terminou em 4 lances.

483) Bola da Copa 1 (140 toques)
Reuniram o que tinham e mais um pouco. Brazuca comprada, estreia no campinho. No primeiro chutão ela cai na caçamba do caminhão que passava.

484) Bola da Copa 2 (140 toques)
Vaquinha feita, compram a Brazuca. Ela no centro do campinho. A garotada olha orgulhosa. Linda, novinha e cara. Guardam e jogam com a velha.

485) Briga na escola (140 toques)
Hematomas. O pai pergunta: - Como ficou o outro cara? - Vixi pai, dei várias queixadas no punho dele. Deve estar com a mão doendo até agora.

486) Bilheteiro folgado (140 toques)
Atrás da mulher ele vai gritando: - Olha a vaca! O marido vê a cena e pede o bilhete. – Tenho não moço, foi a resposta. Nunca apanhou tanto.

487) Indulto de Natal (140 toques)
Saiu rindo do sistema. Roubou e divertiu-se com as caras das vítimas. Queimou tudo no crack. Voltou inocente. Ia aguardar o próximo indulto.

488) Bolsa família (140 toques)
Da rede ouviu a mulher reclamando que ele não fora buscar o dinheiro. – Ô mulher, a culpa é do Governo que nos obriga a pegar fila no banco!

489) O reclamão (140 toques)
Já acordava reclamando. Tudo era motivo para broncas. Certa noite, após um sonho, acordou de bom humor, sorrindo. O dia foi ótimo. Aprendeu.

490) O caçador (140 toques)
Saiu do acampamento para caçar. Viu uma anta, com filhotes. Um macaco, com filhotes. Um porco do mato, filhotes. Voltou carregado de frutas.

491) O garanhão (140 toques)
Profissional da paquera, escolhia as palavras e só dizia aquilo que elas queriam ouvir. Um dia apaixonou-se. Calou-se sem saber o que dizer.

492) Namoro terminado (140 toques)
Ela pegou o Betão aos amassos. Algo inadimissível. Chorando, correu para se desabafar com a melhor amiga. - Flagrei o Betão com o meu irmão!

493) Assaltos (140 toques)
Os assaltos corriam soltos. Vários acontecendo, o povo gritava e a polícia nada fazia. Só pararam quando terminou o Festival de Boxe Amador.

494) Árvore frutífera (140 toques)
Não conhecia plantas, mas plantou as sementes de laranjeira que ganhara. A semente brotou e cresceu. Só estranhou ao ver os frutos: goiabas.

495) Ovelha negra (140 toques)
Ovelha negra da família. Feio, pobre e azarado, ninguém queria saber dele. Todos o ignoravam. Tudo mudou quando ganhou na mega-sena sozinho.

496) Lua de mel (140 toques)
Maria guardara-se para a Lua de Mel. Após o casamento, rápida recepção na casa da tia. Partiram, Lua de Mel. Porcaria de maionese estragada.

497) Fim do mundo (140 toques)
O boato corria forte. Ele acreditou que o mundo ia mesmo acabar. Preocupado, pensou em matar-se para não sofrer. Mais uma vez, era só boato.

498) Os caranguejos (140 toques)
Parou na estrada pra comprar caranguejos. Estavam mortos. O caiçara disse serem frescos. Abatera pra não sofrerem. Comprou. Partiu diarréia.

499) O cassino (140 toques)
Foi ao cassino com um mil reais. Duas horas depois estava com 15 mil. A mulher pediu para saírem. –Tá louca? Mais 30 minutos, estava a zero.

500) No bingo (140 toques)
Pela primeira vez não acreditava no que via. Estava ganhando como nunca. Ao levantar-se pra sair, batida. A polícia entra e a festa termina.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

O presente de Natal

clip_image002Conto baseado em uma antiga parábola

Beto sempre foi muito amado pelos pais e, até por isso, mimado.

Os pais, posseiros, trabalhavam duro em uma gleba com cerca de um hectare - ou 10 mil metros quadrados, para quem não conhece as medidas do campo.

Dali tiravam o sustento da família composta pelos pais, o Beto e mais três irmãos mais jovens.

Plantavam de acordo com a temporada, sempre fazendo um rodízio para não cansar o solo e garantir uma maior produtividade. Sol a sol, sem descanso.

No terreno havia a casinha da família, um galinheiro, um chiqueiro e um celeiro não muito grande, mas suficiente para o pai guardar ali todas as ferramentas que possuíam.

Os pais haviam feito uma promessa a si próprios e a São José, padroeiro dos agricultores: os filhos estudariam e não teriam aquela vida sofrida que os fazia envelhecer precocemente. Os filhos seriam “doutores”.

Claro que, desde cedo, as crianças ajudavam nos tratos da roça, até porque não poderiam ficar sozinhas em casa sem quem delas cuidasse.

A vida era dura. Acordavam às 4 horas da manhã, tomavam um rápido café preto com pão e partiam para a lida. A mãe ainda ficava um pouco na casa para cuidar do almoço que era levado até eles com a ajuda dos pequenos. Afonso e os filhos mais velhos, Beto e Alaor, desde cedo cuidavam do cultivo. Os filhos só paravam para irem à escola.

Os mais jovens, enquanto a mãe preparava o almoço, iam dando milho às galinhas, completavam a água dos porcos e jogavam, nos comedouros do chiqueiro, tudo que era resto de comida e o que mais fosse comível.

Durante a tarde, invariavelmente, o filho do vizinho passava com a charrete e lá iam, Beto ou Alaor, acompanhando-o até a cidade para buscarem restos de comida para dar aos porcos das duas propriedades. Assim complementavam a alimentação dos bichos.

Mimado, Beto era meio rebelde no trato com os pais, mas isso, para os pais, era compensado pelos estudos. Ele não queria aquela vida para si e assim estudava sempre que podia e tirava ótimas notas.

Garantiria seu futuro.

Ao completar 19 anos, Beto, já formado nos ensino médio, partiu em busca de um futuro melhor. Conseguiu uma bolsa na faculdade e foi morar na cidade grande.

Trabalho de dia e estudos à noite. Não tinha descanso, mas sabia que era a melhor aposta para garantir um bom futuro.

No final do ano, férias, voltou para a casa dos pais duas semanas antes do Natal.

E chegou reclamando da vida, afinal todos os amigos iam de carro para a faculdade e ele, de bicicleta. Era vexatório.

Os pais pediam-lhe calma, pois tudo aquilo, um dia, se ajustaria.

- Como? Bradava ele. - Vocês vivem esta vidinha aqui, sem qualquer perspectiva de futuro. Parem de sonhar. – Eu queria é ter um pai rico que gostasse mesmo de mim e me desse um carro no Natal. Isso sim é sonho!

O pai, cabisbaixo e sem ter o que falar, retirou-se para o quarto.

A mãe foi chorar na cozinha, desabafando no fogão à lenha.

Os irmãos olhavam para Beto com muita raiva. Logo ele, o mais privilegiado de todos reclamava daquele jeito, sem reconhecer tudo o que os pais fizeram e faziam por ele e por todos.

Noite de 25 de dezembro, reunidos em torno da árvore de Natal, os pais entregam os presentes aos filhos.

Ao Beto coube a chave do celeiro com um pequeno cartão de natal que dizia:

-- Amado Beto, a você entregamos nosso celeiro e é seu tudo o que há dentro dele. Esperamos que você possa aproveitar muito. Amamos você. Afonso, Marlene e seus irmãos. FELIZ NATAL!

Beto foi tomado por um acesso de raiva. Não acreditava que os pais estavam fazendo aquilo - dar-lhe o celeiro e todas as ferramentas? Para quê se tudo o que ele queria era estar longe daquela vida?

Dia seguinte, ainda com raiva, partiu logo cedo de volta para a cidade. Queria esquecer aquele Natal em família. Família? Pois sim.

Definitivamente o Natal de 1993 seria apagado da mente dele.

Transcorridos 10 anos, Beto, já formado e trabalhando como um dos melhores advogados daquele escritório de advocacia, recebe uma ligação inesperada.

Era Alaor informando que Afonso estava nas últimas e pedia para ver o filho mais velho que, desde aquele Natal, não vira mais.

Toda aquela lembrança veio à mente de Beto e sentiu um certo remorso pelo que havia feito - na época não entendera o gesto dos pais e tudo, de repente, caiu como um balde de água gelada.

Como pudera fazer aquilo? Tinha de reconhecer e respeitar os limites dos pais, afinal eles não tinham estudo e sacrificaram-se pelos filhos.

Beto voltou ao sítio dos pais com um aperto no coração.

Não chegou a tempo de ver o pai vivo. Afonso, antes de morrer e prevendo que não iria ver Beto, deixou-lhe um bilhete.

-- Meu filho, o celeiro ainda é seu. Faça ao menos um favor ao seu velho, entre nele, veja o que há por lá, se alguma coisa ainda lhe servir, use. Se não, dê aos seus irmãos – só você poder fazer isso, pois tudo lá é seu.

Com o coração apertado, Beto entrou no celeiro e viu, ainda com os laços azuis, um gol prata, ano 1993, 0km. Junto um carnê de consórcio com 60 prestações pagas, a maioria com atraso.

Beto chorou ao entender o por quê de os pais nunca terem dinheiro.

Sentiu que era tarde demais.Como poderia agradecer por aquilo?