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sexta-feira, 27 de junho de 2014

O garoto que juntou dois mundos

Bilingue

O tão esperado nascimento de Ernesto foi motivo de festa na família.

O garotão chorou a plenos pulmões fazendo-se presente. Dos olhos do paizão, que acompanhara o parto, escorreram lágrimas de alegria.

Passados uns dois meses, com o bebezão crescendo firme e forte; algo estranho foi notado.

Ele dormia tranquilo no berço quando o vento fez com que a porta batesse com força. A mãe logo correu pois, com toda a certeza, aquilo iria assustar o bebê, fazendo-o acordar chorando.

O menino sequer se mexeu.

A mãe estranhou. Bateu palmas cada vez mais alto... nada.

Levaram ao médico que diagnosticou um grau de surdez do menino em mais de 90%.

Sem ouvir, o menino também não aprendeu a falar. Emitia sons ininteligíveis para a maioria das pessoas. Apenas os mais próximos, que conviviam o dia a dia com ele, o entendiam.

Passou a usar um aparelho, mas que não adiantava muita coisa. Ernesto estranhava aqueles sons misturados, os quais eram difíceis de identificar, e não o usava com frequência.

A comunicação era na base de ele tentar ler os lábios das pessoas, mas bastava um bigode um pouco mais comprido e a leitura labial era atrapalhada.

Ele desconhecia a Libras, Linguagem Brasileira de Sinais, e tinha dificuldade em comunicar-se também com outros deficientes auditivos.

Isso tudo fazia de Ernesto um menino sofrido, alguém que sentia o preconceito e vivia esforçando-se para fazer parte de um grupo.

Em silêncio, ele sofria ao ver os jovens da rua onde morava combinarem passeios ao shopping e, simplesmente, esquecerem-se de convidá-lo. Definitivamente aquilo não era bom.

Com o passar dos anos, uma novidade foi tentada: implante coclear.

Dirigiu-se a São Paulo e fez a operação, cara mas que valeria a pena - passaria a ouvir e, com isso, seria aceito normalmente no grupo de amigos.

Infelizmente Ernesto enfrentou algumas dificuldades no início e acabou deixando de lado o aparelho, fazendo com que a cirurgia não surtisse o efeito esperado.

Mais algum tempo e ele entra de cabeça na linguagem de sinais. Passa a frequentar os círculos dos deficientes auditivos, podendo comunicar-se com eles de igual para igual. Esquece o implante e vira parte do grupo.

Ao estar completamente engajado naquele meio, Ernesto percebe que algo não ia bem. Devia estar feliz pois era parte integrante de um grupo de amigos. Não entendia aquele sentimento.

Não entendeu até notar o mesmo preconceito sofrido diante das pessoas de audição perfeita, mas na ordem inversa - o grupo dos deficientes não se dava com os primeiros. Renegava-os.

Quem ouvia não era bem quisto naquele grupo e só o fato de ele um dia comentar que iria voltar a investir no implante coclear, para passar a ouvir e aprender a falar corretamente, foi motivo de desconfiança de alguns do grupo.

Ernesto não viu aquilo como um problema, mas sim como um mal que precisava ser mudado, e vencido, de ambos os lados.

Sem ligar para os comentários, voltou a usar o aparelho, frequentou fonoaudiólogos, aprendeu a distinguir os sons - acabou descobrindo que não era tão difícil quanto imaginara - e algum tempo depois já era dono de uma fala que todos entendiam sem maiores problemas.

Ele também aprendera a ouvir e passou a comunicar-se de forma fácil. Deu-se conta de que, antes de ser um deficiente auditivo, era bilíngue!

Em uma tarde de sábado, o shopping foi palco de um encontro marcado por Ernesto com os amigos, usando a desculpa de que iriam tomar um sorvete.

Lá estavam, sem que soubessem dos planos de Ernesto, os dois lados da moeda.

Primeiramente olhares desconfiados foram trocados, mas o valente menino soube se impor e mostrou a todos o valor de cada um e, principalmente, da possibilidade de uma convivência pacífica.

Claro que alguns problemas teriam de ser eliminados, mas o intuito daquela reunião era esse mesmo.

Ernesto, falando e gesticulando, explicou que todos poderiam conversar, era só eliminar as barreiras abstratas que cada um havia construído e tolhiam o bom relacionamento.

Claro, nem todos os surdos (assim identificados pelos “ouvintes”) poderiam passar a ouvir, mas todos aqueles que não eram deficientes auditivos (os ouvintes, como eram chamados pelos “surdos”) poderiam aprender Libras.

Aquele encontro foi um divisor de águas.

Com paciência, Ernesto foi dando dicas aos ouvintes, os quais logo se matricularam em cursos de Libras e em pouco tempo conversavam até entre si para praticar a nova língua.

Pelo lado dos surdos, aqueles com chance de passar a ouvir investiram e aprenderam, melhorando também a fala.

Algum tempo depois não existiam mais ouvintes ou surdos, apenas jovens formando um grande grupo de amigos.

O preconceito caíra por terra e todos concordavam:

Eram muito mais felizes assim.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Passos do além

Passos do além

Felipe, surdo de nascença, aprendera desde cedo a falar por meio de sinais e comunicava-se sem problemas com seus familiares e com alguma dificuldade com os amigos, pela simples falta de prática já que nem sempre estava com eles.

Levava a vida sem problemas, mas tinha um grande empecilho - sendo surdo, não aprendera a falar, algo pelo qual ansiava.

Era de uma família sem recursos, mas certo dia o tão desejado aparelho chegou às mãos de Felipe por um padrinho, como presente de aniversário.

Começou então uma grande via crúcis com idas a médicos, fonoaudiólogos, grupos de tratamento para aprendizado em conjunto, tudo para aprender a ouvir com o aparelhinho instalado dentro do ouvido e, por conseguinte, começar a falar de uma maneira que todos o entendessem.

Que maravilha.

Felipe também gostava de livros e filmes de terror. Gostava de sentir, em segurança, aquela sensação de medo, preocupação, temor. Curtia especialmente quando tratavam do além.

Sabia que estava em segurança e aquilo era só filme. À noite dormia tranquilo; às vezes lembrava-se de alguma cena mais forte, mas nada que lhe tirasse o sono.

Assim transcorria até certa noite que, cansado, deitara-se com o aparelho de surdez. Noite adentro acordou com um barulho de passos dentro de seu quarto.

Abriu os olhos pensando em ver o pai ou a mãe, mas... nada!

Aquele silêncio que imperava somente era quebrado pelo som dos passos a esmo pelo quarto, mesmo não havendo mais ninguém por ali, eram ouvidos.

Bastou para Felipe. Agora era medo de verdade, de algo que não entendia. Quem poderia estar andando por ali? De onde teria vindo? Quais as intenções? Dúvidas, dúvidas e mais dúvidas e nenhuma pergunta respondida.

Tirou o aparelho. Silêncio. Os passos pararam.

Felipe entendia que não haviam parado. Era porque sem o aparelho não podia escutá-los. Virou-se para o canto, cerrou os olhos, rezou todas as orações que conhecia e acabou dormindo.

O dia transcorreu normal, sem sobressaltos, afinal, com todos os barulhos sendo ouvidos de uma vez só, sequer identificava se os tais passos o acompanhavam ou não.

À noite, hora de ir para a cama, o pobre coitado começou a preocupar-se. Havia recusado o convite de um amigo para irem assistir à Atividade Paranormal 2 no cinema, algo que normalmente iria, mas com os acontecimentos da noite passada, nem pensar.

Deitou-se e começou a imaginar se os passos continuariam ou não. Será que quem esteve ali teria voltado para assombrá-lo mais uma vez? Afinal, o que poderia querer com ele?

Dormiu. Acordou no meio da madrugada, perscrutou o quarto todo e não viu nada. Corajosamente, colocou o aparelho no ouvido e ficou estático, aguardando.

Não demorou nada e... plac plac plac... os passos voltaram.

O menino pensou em chorar. Se ouvir era isso, não queria mais saber, preferia permanecer surdo a sentir essa sensação de pânico perante o desconhecido.

Estava aprendendo a ouvir, já distinguia alguns sons, mas passos em mais uma madrugada era demais.

Felipe quase corre para o quarto dos pais. O que seria isso? Brincara demais com o mundo espiritual e agora havia alguém invertendo a brincadeira?

Lembrou-se do filme Sexto Sentido. Seria alguém precisando de ajuda? Mas ele não via nada, só ouvia os passos.

Depois de uma semana nesse sofrimento, indo à igreja como nunca, rezando como um beato, Felipe resolveu que era hora de buscar ajuda materna. Não suportava mais.

Dia seguinte contou à mãe. Ela o levou a um centro espírita de mesa branca para tentarem decifrar o ocorrido.

Na conversa não chegaram a acordo algum. Poderia ser isso ou aquilo, mas nada de uma conclusão a respeito.

Voltaram para casa. Felipe, cabisbaixo, pensava em mais uma noite na companhia de sabe-se lá quem.

Quase se esqueceram da consulta no otorrino para medirem a audição e uma verificação no aparelho.

Chegaram em cima da hora, já sendo chamados para a consulta.

O médico examinou daqui e dali e achou por bem mandar fazer uma verificação técnica no aparelho, o qual apresentava uns estalidos que não eram normais.

Felipe quase caiu da cadeira. Passos? Que nada.

- Maldito aparelhinho com defeito!