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domingo, 9 de agosto de 2015

Sou pai e tenho orgulho disso.

Sou pai 2Um momento feliz na Vila  Belmiro,
vendo Palmeiras meter um 3X1 no Santos

Posso dizer que sou pai, no sentido em que a palavra é entendida, desde nove meses antes do dia 11 de maio de 1988, quando li, naquele exame, a palavra “reagente”. Sim, estávamos grávidos novamente e, desta vez, haveria de dar certo.

Perdêramos o primeiro, a quem demos o nome de Juraci, um nome tupiniquim pois foi espontaneamente abortado aos três meses de gravidez; impossível saber se era menino ou menina - Juraci servia para os dois e assim é cultuado para receber Luz no Plano Espiritual.

Aquele aborto foi uma barra pesadíssima.

Por mais que o Dr. Natal (Natal Marques da Silva, obstetra) tenha parado todas as consultas e gasto um tempo enorme naquela sala no andar térreo da clínica explicando-nos o que acontecera e o porquê daquilo, foi um momento de muita dor.

Já tínhamos mais de oito anos de casados e era hora de aumentarmos a família. A ansiedade era grande e aquilo deitou por terra nossos sonhos.

A barra aumentou, pois todos pensavam na minha mulher, na Rita e pelo que ela passara e mandavam que eu segurasse a barra dela etc e tal, o que era natural. Mas... e eu?

Sofri tanto quanto ela e com um agravante: as pessoas não se aperceberam disso e eu fui guardando, minando aquele sentimento, remoendo-o dentro de mim.

O tempo passou, as marcas cicatrizaram e novamente defronto-me com a mesma palavra: reagente. A notícia da segunda gravidez veio exatamente no dia 30 de setembro de 1987, meu aniversário.

O tempo foi passando e havia um grande bloqueio entre mim e aquele serzinho dentro de uma barriga cada vez maior.

Na primeira vez, eu brincava, conversava, trocava confidências com nosso bebezinho ainda em formação, sem o menor problema ou constrangimento. Curtia cada momento.

Contudo, como diz o velho ditado, gato escaldado tem medo de água fria e agora existia o receio de repetição do fato.

Só aos cinco meses de gravidez, numa noite de janeiro, conversei a este respeito com a Rita e me abri.

Expliquei-lhe o que havia acontecido quando do aborto e o bloqueio advindo com aquela tristeza toda e só a partir daí comecei a me soltar, a confiar que tudo daria certo.

E deu!

Lá estávamos nós, na sala de cirurgia, para o parto. Sim, nós, afinal não haveria quem me fizesse ficar em uma sala de espera exatamente quando nossa família estava efetivamente formando-se. Ela na cama e eu a postos com a máquina fotográfica na mão.

Cinco minutos antes das nove da noite veio à luz aquele serzinho. Na hora nem identifiquei se era menino ou menina.

- É uma linda menina! Disse-nos o Dr. Natal.

Não ser um menino foi um pensamento que passou mais veloz que um raio pela minha mente. Ali mesmo comecei a curtir aquela bonequinha de 51 cm e 3,660 kg que Deus nos dera para amar e cuidar.

Um ano e nove meses depois do nascimento da Camila, nossa família era completada com outro presente de Deus.

Sempre disse a todos que gostaria de ter um casal. Primeiro um menino e depois uma menina, algo mudado com a experiência de ser pai de uma menina.

Alguns dias antes daquele 15 de fevereiro, eu havia comentado com a Rita:

- Bem poderia ser outra menininha, né? Muito legal!

Bingo! Uma e quinze da manhã - tinha de ser na madrugada... rrssss - e quase nascida durante o banho no quarto da maternidade, vinha a Natália com seus 49 cm e 3,420 kg

Foi tudo tão rápido que coloquei a roupa para entrar na sala de parto muito às pressas e o único chinelo que havia era um tamanho 33. Fui com ele mesmo no meu “pezinho” 43.

Agora era ser pai em sua plenitude.

De setembro de 1979 a maio de 1988 éramos só eu e a Rita, curtimos tudo o que havia para curtir. Agora era a hora e a vez das meninas.

A vida mudou totalmente.

Para mim, filho não é um troféu a ser exibido nas horas fáceis (só não dei peito por não ter leite, mas fraldas e tudo o mais era comigo mesmo).

Filho é para ter pai e mãe. É para ser educado, criado com amor para que se torne um ser humano de primeira linha.

Tenho orgulho, e creio nisso, de ter sido um pai amigo e educador.

Ciente de que aqueles primeiros anos seriam bastante importantes para a formação delas, aproveitei ao máximo todo o tempo. Sem bater, sem gritar, mas educando com respeito e sem dó - quem tem dó, não educa.

Se fosse preciso ser rígido, era. Mas sempre consciente, sem perder a razão para saber exatamente como agir. Medo de mim nunca tiveram ou precisaram ter.

Eu não as levava para passear, ir à praia ou sei lá onde. Eram elas que me levavam. Os passeios eram delas e sabiam que ali estava um pai pronto para topar qualquer brincadeira e jamais as deixaria na mão.

Pequenos detalhes me dão orgulho até hoje.

Pré-adolescentes, certa vez uma das amigas disse-lhes algo do tipo:

- Vocês são as únicas do grupo que quando começarem a namorar vão falar primeiro para o pai e não para a mãe.

A Camila, então, deu-me um presente inusitado - o melhor que ganhei em todos os tempos: convidou-me a fazer faculdade com ela. Fomos colegas de classe no curso de Jornalismo.

Eu sabia que um dia elas cresceriam, como cresceram - a mais velha já está casada com um homem que ama e a ama -, e parariam de me ouvir como ouviam antes, não por não me acreditarem, mas sim por terem suas opiniões formadas e serem donas de suas ideias e ideais.

Por isso, repito, aproveitei ao máximo toda aquela época em que me ouviam. Ensinei-lhes o máximo que pude e tenho orgulho de, por exemplo, poder sentar-me à mesa com elas, em qualquer restaurante, sem passar vergonha ao vê-las no simples uso dos talheres. Sabem se portar em qualquer ambiente.

Seguras de si, são educadas e respeitosas e, cá entre nós, é fácil gostar delas - sem corujice. rrsss

Continuo sendo um pai orgulhoso e continuo a fazer coisas por elas que elas sequer imaginam que faço e elas podem ter a certeza de sempre contar com este pai que as ama muito.

Se cometi erros? Claro. Não sou perfeito e nem o melhor pai do mundo, mas fiz o que sabia com a melhor das intenções e acredito que consegui incutir nelas o melhor, ajudando na formação do caráter de ambas para serem dignas como o são hoje.

Obrigado filhas por terem me ensinado muito, assim como sua mãe o faz.

Vale a pena ser pai de vocês, a quem amo vocês incondicionalmente e sempre amarei.

sábado, 27 de junho de 2015

Vidas secretas

Vidas secretas

Eram amigos de infância. Sempre foram vizinhos e estudaram na mesma escola, mas o tempo tratou de mudar aquele sentimento de simples amizade.

   Em uma tarde, quando ela voltava da aula particular de piano, bastou uma troca de olhares para que algo fluísse... e aconteceu. Aqueles coraçõezinhos começaram a bater mais forte.

   Ambos adolescentes, nenhum deles havia visto o outro ter ficado, namorado ou qualquer coisa do gênero. Era a primeira vez em tudo.

   Passados alguns dias daquele acelerar de corações, os dois ficavam cada vez mais retraídos quando próximos, era uma timidez que ainda não haviam experimentado. Sempre se relacionaram muito bem, trocando confidências e tudo o mais.

   Algo havia mudado naquele relacionamento de menino e menina. Não sabiam direito o que era aquilo. Será que não?

   Vencendo toda a timidez que a presença dela lhe causava, imbuído de muita coragem, um temeroso Alberto tocou nas mãos de Ana Maria que, ruborizada, não mexeu um músculo, deixando que se encostassem.

   Risinhos daqui e dali, a conversa foi tomando o rumo desejado pelos dois e começaram um namorico ali mesmo.

   Os dias foram passando... as semanas... os meses... e o namoro ficando cada vez mais sério; o amor cada vez mais forte.

   Passaram-se os anos, a maioridade chegara e eles continuavam naquela namoro de adolescentes, sem... sem... sem... sem que chegassem às vias de fato. É, vamos falar assim.

   Claro que o desejo sexual era latente, mas também era ardente, presente, permanente e persistente.

   Com pais ultraconservadores, pensar em sexo antes do casamento era surreal.. Simplesmente não poderia acontecer.

   Que fazer com todo aquele desejo?

   Estavam decididos. Apesar de os pais serem controladores, aquele desejo não poderia continua reprimido. Ambos compartilhavam da mesma opinião: tinha de acontecer

   Mas, tinha de ser especial. Muito especial - iam perder a virgindade juntos

   Alberto soube de um motel que havia sido inaugurado há pouco tempo em uma cidade vizinha e foi lá para conhecer o local. Saber se era digno e se estava à altura do grande momento com a amada.

   Voltou todo confiante a alegre com o que vira. Era ideal e ia fazer uma grande surpresa para a Ama, forma carinhosa como chamava Ana Maria - uma mistura de Ana Maria com amor.

   No sábado, saíram para passear como sempre faziam. Iam passar a tarde fora, indo ao cinema, parque etc. Iam a pé mesmo.

   Assim pensavam os pais.

   Tudo calculado, Alberto pegara um carro alugado, para não usar o do pai e partiram para a cidade vizinha.

   No quarto, ele não aguentando mais segurar aquela vontade de fazer amor com a amada, teve de esperar um pouco mais. Ela queria ir ao banheiro, aprontar-se para ele, pôr uma linda lingerie que havia comprado para a ocasião.

   Não houve jeito, mas ele adorou a ideia de vê-la de lingerie... aquilo seria demais.

   Deitado na cama, esperando por ela, pegou o celular para se distrair um pouco e assim afastar da cabeça aqueles pensamentos todos e acalmar as ideias.

   Quando foi buscar a senha do wi-fi estranhou - ela entrara direto, mostrando já estar cadastrada no aparelho.

   Como assim? Foi aí que notou que, por engano, havia pego o celular dela e não o dele...

- Amor...?

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

O fim da solidão

SolidãoFausto morava no interior, em uma pequena cidade no Vale do Paraíba. Para os poucos habitantes, o sentido da palavra amigo possuía um peso gigantesco, haja vista que entre os amigos havia confiança, cumplicidade e invariavelmente sempre podiam contar uns com os outros.

Contudo, o jovem tinha problemas de relacionamento devido à extrema timidez. Era muito retraído e isso causava uma grande dificuldade para fazer amigos.

Praça cheia de gente, bandinha tocando no coreto, pipoca, algodão-doce, churros, balões de gás, pessoas falando ou dançando ou falando e dançando, muita diversão em qualquer festividade no pequeno município e lá estava ele, em meio daquele mar de gente e sentindo uma solidão angustiante.

Tinha inveja das pessoas que se confraternizavam.

Sofria sozinho, sem a compreensão dos pais que, ao invés de compreender, repreendiam.

Tempo de faculdade, queria ser advogado ou delegado de polícia e mudou-se para uma cidade maior. Campinas era um mundo totalmente diferente, muito maior que a pequena Jacareí.

Novos lugares, gente nova, mundo novo e a mesma e velha solidão.

Mesma? Antes fosse. Com tanta novidade ela pesava ainda mais.

As noites eram bem tristes para ele. Queria desabafar, chorar em um ombro amigo, ou apenas jogar uma conversa fora mas... com quem? Estava ali, mais uma vez, sozinho com seus pensamentos.

Só podia conversar com seus próprios botões.

Enfiou-se nos estudos como uma fuga, algo bom por um lado; ia cada vez melhor na faculdade.

Outro problema: ser ótimo aluno era motivo de orgulho para os professores, mas causava inveja aos colegas que o tratavam como um nerd (geek nos dias de hoje), causando ainda mais afastamento.

Mesmo amadurecendo, não conseguia vencer a timidez e foi aprendendo a conviver com aquela solidão, porém a necessidade de um amigo era sempre presente.

Certo fim de tarde, passeando pela Praça Carlos Gomes, próxima à Prefeitura, encontrou-se com Billy.

Billy, jovem, molecão solto e brincalhão, nada tinha de tímido, era, para Fausto, o superlativo absoluto do antagonismo, mas havia simetria naquilo.

Houve uma empatia imediata, dava a entender que ele compreendera de imediato os problemas de Fausto e passaram a caminhar juntos.

Fausto sentiu-se tão livre e feliz que passou a falar pelos cotovelos. De Billy quase não se ouvia nada. O que seria uma conversa passou a ser um monólogo, com uma outra interrompida pelo atencioso ouvinte.

Sentaram-se em um banco, brincaram, relaxaram e se divertiram. Há muito tempo Fausto não tinha um período tão gostoso em sua vida.

Depois de umas duas horas, Fausto teve de se despedir e voltar para casa - havia prova no dia seguinte e tinha de rever algumas matérias - mas não foi sem enfatizar:

- Amanhã nos vemos por aqui. Está marcado.

Aquele encontro fortuito tinha sido bom demais, precisava ser repetido e o fato de Billy ser morador de rua teve peso zero no relacionamento entre eles, pois ele fizera muita diferença na vida daquele futuro advogado.

E assim passaram-se alguns dias e a amizade fortalecendo-se.

Porém, Billy deu uma sumida. E caiu a ficha: não sabia como achar o amigo. Onde ele passava as noites? Realmente não tinha família?

Depois de uns três dias, lá reaparece Billy. Desta vez, meio sujo, cansado e um tanto machucado.

Fausto sequer quis saber o que havia acontecido; o importante era mostrar que amizade verdadeira é pra valer. Abraçou o amigo e, condoído, levou-o para casa onde um bom banho esperava por Billy e teria os machucados tratados.

Depois disso, a amizade fortaleceu a tal ponto que Billy passou a morar com Fausto naquele pequeno apartamento, ou melhor, apertamento em que o jovem morava desde que chegara à cidade. Agora ele tinha um teto sob sua cabeça.

A solidão deu um tempo na vida de Fausto. Respirava um ar diferente, cheio de amor e alegria.

Arranjara um amigo, finalmente tinha alguém que o ouvia e o compreendia.

Passava horas desabafando e o novo amigo ali, quieto e só ouvindo, sem interromper e prestando a maior atenção. Ambos sabiam que era justamente disso que Fausto precisava. Desabafar.

Desde que passaram a morar juntos, a solidão perdeu de vez. Nunca mais houve um momento em que se sentisse sozinho, mesmo nas raras vezes em que estava só.

Sabia que Billy estava por ali, sempre pronto para o que desse e viesse.

“Eita vida boa. Por que não o encontrei antes?” Pensava, um todo feliz, Fausto.

Tudo aquilo, somado ao fato de ter a cama dividida com um amigo, era um tipo de vida novo para ele, mas... e daí? Era feliz e isso era o mais importante.

Falou do novo amigo aos pais. O pai rejeitou a ideia, não gostou, dando a desculpa de que o filho tinha de focar somente nos estudos.

A mãe foi mais compreensiva e acabou apoiando a novidade.

O jovem até melhorou na Faculdade de Direito. Passou a estudar mais e, feliz com o amigo por perto, tinha mais ânimo para enfrentar todos aqueles livros - o motivo não era mais para fugir à solidão, era outro e muito melhor.

Realmente era uma nova vida. Todas as vezes que chegava a casa, lá estava Billy esperando-o, fazendo-o rir, fazendo-o soltar-se, fazendo-o feliz.

Aquela era uma amizade baseada em um amor incondicional. Tinha ali um amigo que não se importava com sua timidez ou com o que fosse. Podia desabafar, dizer tudo a ele com confiança de que tudo morreria ali mesmo. Sua “tábua da salvação” era muito mais que um amigo.

Que mais esperar da vida?

O ânimo mudara totalmente. Só o fato de saber que ao chegar a casa seria muito bem recebido era o bastante para querer viver para sempre.

Tudo bem que o novo amigo não sorria, mas Fausto sabia que aquele abanar de cauda continha a maior das sinceridades, a maior demonstração de uma alegria verdadeira.

domingo, 19 de outubro de 2014

Viva a amizade

Viva a AmizadeAo descer a escadaria de sua casa, Amanda parou estática no patamar, olhou para a mãe e algumas lágrimas escorreram pelos lindos olhinhos azuis.

Mas, qual a razão disso? Por que teria Amanda chorado ao ver a mãe?

Voltemos um pouco no tempo...

Amanda era uma menina como outra qualquer. Bem... quase.

Na altura de seus 14 anos, tinha um grande futuro pela frente, mas antes de todo o futuro, haveria a festa dos 15 anos, a qual estava programada para acontecer junto com as das amigas Rita, Marisa e Léa. Elas formavam um quarteto inseparável.

Todas fariam 15 anos em uma distância muito curta de tempo e comemorariam com uma grande e única festa.

A diferença entre o nascimento delas não chegava a três semanas.

Conheceram-se no primeiro dia de aula, ainda na pré-escola, e nunca mais se largaram.

Faziam tudo juntas e a cada encontro era uma conversa sem fim.

Embora sempre uma ao lado das outras, os assuntos eram intermináveis e brotavam do nada. Quem as visse, sem as conhecer, cria que há muito não se viam e tinham muita conversa para pôr em dia.

Mesmo quando estavam longe, estavam conectadas.

Valia de tudo; desde o velho Skype, passando pelo SMS, pelo Instagram, pelo Facebook, até o Whatsapp e o que mais aparecesse. A ferramenta não importava, desde que se comunicassem.

A vida naquela cidadezinha do interior paulista, às margens do Rio Paraíba, era tranquila, cujo sossego somente era quebrado por algum apronto do quarteto junto com outros amigos.

Elas dominavam os adolescentes da cidade, chamados por eles próprios de a Gangue do Bem.

Claro, como jovens, sempre aprontavam das suas, mas em compensação, sempre estavam atentos para atender às necessidades de alguém.

Precisou? Logo aparecia um para ajudar.

Todavia, Amanda começou a perder peso, sentia-se mal com dores de cabeça além de uma estranha sensação de fraqueza.

Os pais a levaram para uma consulta ao médico que, ao olhar Amanda e uma rápida análise, sugeriu alguns exames específicos.

- Nada preocupante. Vamos fazer estes exames e verificar se minhas suspeitas têm fundamento. É muito no início e tudo fica mais fácil. Disse o doutor.

Como não se preocupar com um possível diagnóstico de leucemia?

Os pais, tentando parecer fortes perante a filha, estavam arrasados.

Os exames foram feitos e o doutor, algo que só acontece nas cidadezinhas do interior, foi à casa dos pais de Amanda com os resultados.

Dona Celeste chamou a filha, que estava no quarto, no andar de cima.

Bem, voltemos ao início...

Ao descer a escadaria de sua casa, Amanda parou estática no patamar, olhou para a mãe e algumas lágrimas escorreram pelos lindos olhinhos azuis.

Ao ver o médico e a expressão da mãe, teve a certeza de que, para tristeza de todos, os resultados comprovavam as suspeitas do médico. Leucemia!

Enxugou os olhos e desceu as escadas.

Não acreditava no que lia. Tinha apenas 14 anos e nada daquilo era justo.

Com a família reunida na sala, o médico explicou tudo o que podia sobre a doença, a importância de estar no começo e respondeu todas as perguntas feitas.

Indicou um Oncologista amigo dele que poderia cuidar da Amanda da melhor forma possível.

E assim começava uma nova etapa na vida daquela jovem. Iniciava-se ali uma caminha de trajetória difícil e não sabida.

Amanda reuniu todas as suas forças e disse em voz clara e firme:

- Vamos em frente. Vamos vencer esta droga de doença.

Os dias foram passando e por causa de um dos tratamentos aos quais ela se submetia, a quimioterapia, os cabelos foram caindo.

Ela ficou horrorizada com isso.

Como não havia jeito, a mãe a levou para São José dos Campos onde havia um especialista em perucas para pessoas com câncer.

Por algumas fotos enviadas previamente, foi confeccionada uma peruca bem parecida com o cabelo de Amanda.

Ao chegar, elas aprovaram a peruca, o pessoal da loja cortou os cabelos de Amanda, utilizando uma máquina número 3 e foram-lhes passadas todas as dicas de como usar, tratar e lavar os novos cabelos.

Ficara bem demais e Amanda voltou às ruas sem qualquer vergonha, algo que estava sentindo há algumas semanas. Ainda bem que eram férias escolares e não precisava ficar tão exposta, pensava ela.

As amigas acharam linda a peruca e até se divertiram bastante com Amanda, mas de forma alguma ela a tirava da cabeça, nem para as amigas, o que era respeitado.

A calvície forçada mexera muito com a cabeça da menina.

Chegara o grande dia. O dia mais esperado do ano, mas que correu um sério risco de não acontecer.

As amigas convenceram Amanda de que a vida continuava e tinha de ser bela como antes, e não haveria um porquê de não ser.

Com muita conversa, todas concordaram que nada, absolutamente nada, poderia estragar a festa delas - ou todas participariam ou não haveria festa.

Na hora combinada para irem ao salão do clube, as três amigas foram à casa de Amanda para buscá-la.

Dona Celeste chamou a filha, que estava acabando de se arrumar no quarto. Finalizou o acerto da peruca, prendendo-a bem para não correr o risco de cair ou mesmo sair do lugar e foi ao encontro da mãe.

Ao descer a escadaria de sua casa, Amanda parou estática no patamar, olhou para a mãe e, desta vez, muitas lágrimas escorreram pelos lindos olhinhos azuis.

A mãe, assim como o pai, também estava chorando.

As três amigas e todos os 15 casais formados pelos amigos mais chegados delas, estavam ali, aos pés da escada, esperando por Amanda.

Todos, homens e mulheres, de cabeça raspada.

sábado, 13 de setembro de 2014

Amor platônico

Amor platônicoEmílio e os irmãos Ana Maria e Alfredo eram os amigos Super Bonder, viviam colados um no outro e, como diz o lema criado por Alexandre Dumas, era um por todos e todos por um.

Quando alguém queria achar um deles bastava saber onde estava qualquer outro. Viviam sempre juntos, para o que desse e viesse, e isso desde pirralhos.

A amizade surgiu quando ainda eram crianças, vizinhos.

Não havia, entre eles, essa diferença de homem e mulher. Eram amigos e brincavam de tudo, de cowboy a casinha; o que importava era estarem juntos, dividindo brincadeiras, lanches, peraltices, alegrias e tristezas.

Com o tempo passando e eles, óbvio, crescendo, dentro do coração de Emílio também crescia um novo sentimento.

Nunca deixaram de sentir amor, uns pelos outros, mas aquele sentimento era bem diferente de tudo aquilo que, o agora adolescente, experimentara. Não entendia bem o que acontecia, era algo mais forte, bem mais forte.

Mas, havia um problemão a ser resolvido: a forte timidez de Emílio.

Bastava querer falar, manifestar o sentimento e tudo travava. Não saía uma palavra da boca dele, não conseguia pronunciar nada senão murmúrios incompreensíveis.

Tentava em vão abrir-se com Ana Maria, mas era impossível. Precisava clamar por ajuda... nem isso conseguia.

Como fazer?

Passava o tempo e mantinha o mesmo sentimento, cada vez com mais intensidade e, junto, aumentava o temor de se pronunciar. Continuava tudo travando.

Bastava pensar no assunto e ficava perdido naquele mundo desconhecido, o mundo do amor, das juras, da cumplicidade entre dois, dividindo segredos que só eles conheceriam, um mundo diferente, feito só para os dois pombinhos.

O que ele não sabia é que Ana Maria começara a nutrir o mesmo sentimento.

Ela também era meio tímida, mas não tão retraída quanto Emílio e precisou de algum tempo apenas para criar coragem e conversar com ele.

Contou-lhe minuciosamente como tudo havia acontecido, como aquele sentimento maravilhoso de um amor intenso começara e como tudo aquilo mudara radicalmente a forma como ela o via.

Ela teve a coragem que faltou ao jovem rapaz. Como ela conseguiu? Perguntava-se, sem saber a resposta.

Sabia que ele também poderia ter se manifestado e só não o fizera pelo medo da recusa. Aquela maldita incerteza de ser ou não correspondido tolheu tudo. Medo bobo mas... invencível; uma barreira inquebrantável para ele.

Mas, Ana Maria deu o primeiro passo e tudo passou a ser diferente.

Começaram a namorar e, com certeza, algo naquela amizade de anos e anos mudou.

Doravante novos passos seriam dados, embora continuassem amigos, não era mais os três sempre juntos. Alfredo colocara-se em sua posição de cunhado e se recusava a ficar segurando vela para os dois.

E o tempo foi passando e, mesmo assim, Emílio continuava o mesmo tímido de sempre. Ana Maria até reclamava alguns beijos e, embora sempre atendida, ele ainda tinha dificuldades nesse campo.

E assim os foram levando a vida e ela, por puro amor, sempre com a maior paciência e entendendo a extrema e exacerbada timidez do, agora, noivo.

Casaram-se!

Para a viagem de lua-de-mel marcaram um cruzeiro que, partindo de Santos, percorreria alguns portos do Nordeste. Cabina espaçosa com tudo o que um jovem casal recém-casado precisava, além de outros itens que eles não precisariam, mas poderiam querer.

No dia do embarque, Alfredo os levou para Santos, ajudou-os com a bagagem e correu para a ponta da praia - queria ver o navio passando e dar um último aceno de boa viagem aos pombinhos.

Tudo havia sido combinado. O lugar em que Ana Maria e Emílio estariam e onde Emílio ficaria - não havia como Alfredo perder os dois de vista no meio daquela multidão de passageiros e eles também poderiam localizá-lo sem problemas.

Quando o navio chegou perto, Alfredo os viu de imediato e acenou.

Ana Maria foi a primeira a vê-lo e acenou com veemência apontando-o para Emílio.

Emílio, ao ver o cunhado sentiu um aperto no coração.

Em sua imaginação ele via os três de uma outra forma.

Via-se ali mesmo, naquela varanda da cabine, partindo para uma linda viagem de lua-de-mel com a pessoa amada e, lá embaixo na calçada, estaria Ana Maria acenando para eles.

Droga de timidez! Droga de medo!

Coração partido

sábado, 16 de agosto de 2014

O manezinho e os gatos

Gatos

Manezinho, assim chamado por ter vindo de Florianópolis. Chegara àquela pequena cidade do interior paulista há alguns anos.

Vivia só, meio retraído, não era de muita conversa. Ajudava a todos, estava sempre pronto para isso, mas fazia o tipo calado.

Às vezes, no domingo, fazia um churrasco em casa, simplesmente pelo prazer de assar uma carne.

Invariavelmente eram ele e o Bob, o vira-lata que dividia a casa com ele e, acreditava-se, tomava conta do lugar. Quem conhecia o cachorro sabia que não era nada disso; um bicho simpaticão e pacato.

Nada de convidados nos churrascos.

O dia a dia dele era da casa para o pet shop - era o dono do único pet shop da cidade -, cinema seguido de pizza às quartas-feiras e, muito raramente, uma cerveja com alguns conhecidos.

Todo bichinho que aparecia abandonado em sua loja, o Manezinho recebia com todo o cuidado, tratava e saía à procura de alguém que pudesse adotá-lo.

Como ele gostava muito de gatos, estes não paravam muito na loja, os cachorros eram mais demorados pois, em casa, bastava-lhe o Bob.

Demorava, porém, cedo ou tarde, sempre aparecia alguém para levá-los. Difícil mesmo era conseguir adotar um gato - não ficavam muito tempo por lá e a razão era bem simples: a maioria ele levava para sua própria casa.

Um cara tranquilo que, depois de muito tempo e de forma bastante gradativa, passou a conviver melhor com os vizinhos.

Por ser sempre prestativo, e pela atenção que dispensava aos animais, ele conquistara o respeito dos moradores da pequena cidade, os quais acabaram por convencê-lo a terminar com aquela timidez e a derrubar o muro de Berlim que ele construíra, passando a viver a vida de uma maneira mais solta, mais alegre e participando da comunidade.

Manezinho,  considerado o super-herói dos animais, especialmente pelas crianças, foi tomando gosto pela nova vida.

Começou a ter vida social, a frequentar o clube local, ir a reuniões... já não se sentia mais tão só.

Sua vida passou a ser mais colorida e até a frequência na loja havia aumentado consideravelmente.

O pet shop passou a ser uma espécie de ponto de encontro. Quem não tinha o que fazer, aparecia por lá para jogar uma conversa fora. O que ficou vazio foi a barbearia do Seu João, ex-ponto de encontro.

Nunca mais comeu a pizza das quartas-feiras sozinho.

E a vida se desenrolava de forma diferente. Apenas sua paixão pelos gatos não mudara.

Qualquer bichano que desse entrada na loja tinha um tratamento especial . Principalmente as prenhas. Todos tinham de nascer saudáveis, grandes e gordinhos.

Este amor pelos bichos era o que mais chamava a atenção do povo.

Até o churrasco de domingo começou a receber algumas visitas

Em um desses domingos, o filho de Ernesto, o melhor amigo de Manezinho, inquiriu o anfitrião:

- Ô tio, eu achava que você tinha um monte de gatos aqui na sua casa.

- Por quê? Perguntou o Manezinho.

- Ora, o pai sempre fala que o senhor traz todos lá da loja.

- Ah sim, trago mesmo. Adoro gatos.

- Então, onde eles estão? Cadê eles?

- É o que eu lhe disse, adoro gatos. Eles são uma delícia!

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Paz!

PazBom de briga é aquele que cai fora”.

Grandes e sábias palavras do compositor de Trem das Onze (um trem do Jaçanã que nunca saiu às 11 horas e sim por volta das 08h40min).

Adoniran Barbosa soltou essa frase já faz muito tempo, mas continua bastante atual - talvez até mais que antes.

O que vemos hoje em dia é de tamanha violência que realmente o melhor é deixar para lá, não importando o tamanho do oponente.

É muito fácil, principalmente nesse nosso trânsito louco, para qualquer um puxar uma arma, pelos motivos mais banais, e dar alguns tiros, com balas perdidas acertando até quem não tem nada a ver com o ocorrido.

Então, ser “macho” para quê? Já não bastam  todos esses assaltos acontecendo? Saidinhas de banco, sequestros relâmpago e tudo o mais?

Temos uma vida enorme pela frente e, antes de nos preocuparmos se vamos ser rotulados de covardes ou afins, vamos usar a cabeça, lembrando sempre que o raciocínio inteligente sobrepuja a violência ignorante.

Seja no trânsito, em um passeio, em um jogo... não importa, partir para a violência sempre acaba estragando a festa, interrompendo, no mínimo, a alegria e trazendo transtornos com alguns possíveis danos irrecuperáveis.

Temos de fazer valer a chamada cabeça fria em qualquer situação, crendo que se alguém está muito nervoso é porque talvez não esteja tendo um bom dia e, se nos enervarmos também, estaremos apenas alimentando um sentimento de ódio.

Assim, já que palavras acabam morrendo ao vento, vamos preferir que o “nervosinho” se extravase um pouco, ajudando a diminuir sua ira, a comprar uma briga.

Viver em paz, principalmente consigo mesmo, é bem melhor. Melhor até do que estar certo.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

O garoto que juntou dois mundos

Bilingue

O tão esperado nascimento de Ernesto foi motivo de festa na família.

O garotão chorou a plenos pulmões fazendo-se presente. Dos olhos do paizão, que acompanhara o parto, escorreram lágrimas de alegria.

Passados uns dois meses, com o bebezão crescendo firme e forte; algo estranho foi notado.

Ele dormia tranquilo no berço quando o vento fez com que a porta batesse com força. A mãe logo correu pois, com toda a certeza, aquilo iria assustar o bebê, fazendo-o acordar chorando.

O menino sequer se mexeu.

A mãe estranhou. Bateu palmas cada vez mais alto... nada.

Levaram ao médico que diagnosticou um grau de surdez do menino em mais de 90%.

Sem ouvir, o menino também não aprendeu a falar. Emitia sons ininteligíveis para a maioria das pessoas. Apenas os mais próximos, que conviviam o dia a dia com ele, o entendiam.

Passou a usar um aparelho, mas que não adiantava muita coisa. Ernesto estranhava aqueles sons misturados, os quais eram difíceis de identificar, e não o usava com frequência.

A comunicação era na base de ele tentar ler os lábios das pessoas, mas bastava um bigode um pouco mais comprido e a leitura labial era atrapalhada.

Ele desconhecia a Libras, Linguagem Brasileira de Sinais, e tinha dificuldade em comunicar-se também com outros deficientes auditivos.

Isso tudo fazia de Ernesto um menino sofrido, alguém que sentia o preconceito e vivia esforçando-se para fazer parte de um grupo.

Em silêncio, ele sofria ao ver os jovens da rua onde morava combinarem passeios ao shopping e, simplesmente, esquecerem-se de convidá-lo. Definitivamente aquilo não era bom.

Com o passar dos anos, uma novidade foi tentada: implante coclear.

Dirigiu-se a São Paulo e fez a operação, cara mas que valeria a pena - passaria a ouvir e, com isso, seria aceito normalmente no grupo de amigos.

Infelizmente Ernesto enfrentou algumas dificuldades no início e acabou deixando de lado o aparelho, fazendo com que a cirurgia não surtisse o efeito esperado.

Mais algum tempo e ele entra de cabeça na linguagem de sinais. Passa a frequentar os círculos dos deficientes auditivos, podendo comunicar-se com eles de igual para igual. Esquece o implante e vira parte do grupo.

Ao estar completamente engajado naquele meio, Ernesto percebe que algo não ia bem. Devia estar feliz pois era parte integrante de um grupo de amigos. Não entendia aquele sentimento.

Não entendeu até notar o mesmo preconceito sofrido diante das pessoas de audição perfeita, mas na ordem inversa - o grupo dos deficientes não se dava com os primeiros. Renegava-os.

Quem ouvia não era bem quisto naquele grupo e só o fato de ele um dia comentar que iria voltar a investir no implante coclear, para passar a ouvir e aprender a falar corretamente, foi motivo de desconfiança de alguns do grupo.

Ernesto não viu aquilo como um problema, mas sim como um mal que precisava ser mudado, e vencido, de ambos os lados.

Sem ligar para os comentários, voltou a usar o aparelho, frequentou fonoaudiólogos, aprendeu a distinguir os sons - acabou descobrindo que não era tão difícil quanto imaginara - e algum tempo depois já era dono de uma fala que todos entendiam sem maiores problemas.

Ele também aprendera a ouvir e passou a comunicar-se de forma fácil. Deu-se conta de que, antes de ser um deficiente auditivo, era bilíngue!

Em uma tarde de sábado, o shopping foi palco de um encontro marcado por Ernesto com os amigos, usando a desculpa de que iriam tomar um sorvete.

Lá estavam, sem que soubessem dos planos de Ernesto, os dois lados da moeda.

Primeiramente olhares desconfiados foram trocados, mas o valente menino soube se impor e mostrou a todos o valor de cada um e, principalmente, da possibilidade de uma convivência pacífica.

Claro que alguns problemas teriam de ser eliminados, mas o intuito daquela reunião era esse mesmo.

Ernesto, falando e gesticulando, explicou que todos poderiam conversar, era só eliminar as barreiras abstratas que cada um havia construído e tolhiam o bom relacionamento.

Claro, nem todos os surdos (assim identificados pelos “ouvintes”) poderiam passar a ouvir, mas todos aqueles que não eram deficientes auditivos (os ouvintes, como eram chamados pelos “surdos”) poderiam aprender Libras.

Aquele encontro foi um divisor de águas.

Com paciência, Ernesto foi dando dicas aos ouvintes, os quais logo se matricularam em cursos de Libras e em pouco tempo conversavam até entre si para praticar a nova língua.

Pelo lado dos surdos, aqueles com chance de passar a ouvir investiram e aprenderam, melhorando também a fala.

Algum tempo depois não existiam mais ouvintes ou surdos, apenas jovens formando um grande grupo de amigos.

O preconceito caíra por terra e todos concordavam:

Eram muito mais felizes assim.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

A separação

A Separação

Beto e Helena eram bem casados, encabeçavam uma família linda que englobava duas filhas e o filhão que, apesar de ser o caçula, tomava conta das meninas.

A vida, como casal, havia iniciado em maio de 1985 quando começaram algumas ficadas, um namorico e tudo se ajeitou no dia 15 de junho quando efetivamente começaram a namorar de forma séria.

Ambos jovens, tinham uma vida inteira pela frente e, desde cedo, iam contabilizando planos para a vida em conjunto.

Sabiam que teriam de abrir mão disso ou daquilo em prol do outro. Tinham certeza de que tudo estaria muito bem harmonizado e que a vida seria uma maravilha, mesmo com os revéses que haveriam de acontecer.

Revéses? Ora, seriam os temperos para quebrar a rotina e provocar uma boa reconciliação do casal... nada como uma boa reconciliação.

E a vida foi passando. Três anos de namoro, veio o noivado no aniversário de Helena. Ela contava 19 anos de idade e ele, 21.

Alianças trocadas e tudo ficou ainda mais sério.

Outros planos começaram a surgir, em especial um que animava ambos: casamento.

Depois de 18 meses de noivado, casados.

Cartório, igreja, recepção e a Lua de Mel em Campos do Jordão.

Queriam ter filhos como qualquer casal, mas somente uns dois anos depois de casados. Iriam curtir a vida a dois primeiro.

Os planos foram concretizados. A primeira filha, Beatriz, nascida aos 18 de julho de 1992 viera mudar o panomara. Agora eram uma família de fato.

Mais dois anos e a família aumentou, nasceu Gabriela.

Tudo eram flores na vida daquela família, mas as duas pediam mais um filho, filho sim, queriam um irmãozinho.

Orlando nasceu quatro anos depois de Gabi. Família completa.

Os anos foram passando, os filhos cresceram, casaram-se. Viviam em suas próprias casas.

O casal mantinha sua vidinha, mas, agora, nem tudo eram flores.

A aparência era mantida, mas entre as quatro paredes daquele velho apartamento algo acontecia.

Beto tentava de tudo, mas Helena mostrava-se cansada daquela vida de esposa fiel. Muito secretamente nutria um sentimento que lhe causava certa ânsia por uma aventura.

Frequentemente recebia flores do marido, mas não eram mais vistas como antes.

-- Ele ainda está apaixonado por mim - pensava uma desiludida Helena - tenho pena dele, mas quero cuidar da minha vida.

Ela nutria uma vontade adquirida pelas más companhias que arranjara na academia. Suas amigas invariavelmente eram mulheres decepcionadas com o casamento e que traíam seus maridos abertamente.

Não, ela não seria assim. Embora não amasse mais o Beto, devia-lhe respeito.

Contudo, aconteceu.

Em um final de tarde, saindo da academia, ela deu carona a Rodolfo, o professor de pilates. Homem feito, uns 40 anos e corpo muito bem definido.

Conversa vai, conversa vem, pararam em uma lanchonete de produtos naturais para um suco e uma tijela de açaí.

Dali para um motel foi um pulo.

Ela chegou em casa ainda ofegante, preocupada se Beto já havia chegado. Não, Beto não estava.

Tomou um banho, recuperou as forças e preparou um bom jantar para o marido.

Beto chegou com um belo buquê de rosas champanhe - as preferidas dela.

Ela as recebeu. Cheirou-as imaginando que haviam sido enviadas pelo Rodolfo.

Naquela noite ela praticamente não dormiu. Apenas ficara devaneando sobre a tarde nos braços viris daquele modelo de homem.

No dia seguinte repetiram a dose e assim foi durante algum tempo.

Rodolfo, apaixonado, insistia para que ela deixasse o marido. Ele não tinha grandes posses, mas havia o suficiente para os dois viverem tranquilos e amando-se cada vez mais.

A questão “grandes posses” não era problema, afinal a vida com Beto eram bem assim mesmo. Não tinham quase nada e, volta e meia, faziam contas no final do mês.

Talvez fossem exatamente essas contas no final do mês que estavam minando seu casamento. Ela não queria aquilo. Queria mais e Rodolfo proporcionaria esse algo mais.

Definitivamente estava cansada de Beto.

Dois meses se passaram com aquela angústia apertando-lhe o peito. Precisava dar um basta naquela situação.

Conversou com Rodolfo e, então, tomaram a decisão de morarem juntos.

Com Rodolfo havia o fator predominante do adeus às continhas no final do mês.

Naquele final de tarde, Beto, sem suspeitar de coisa alguma, entra em casa esbaforido. Aos gritos sequer nota a presença de Rodolfo e que ela, de mãos dadas com o namorado, o esperava com as malas prontas:

- Querida, ganhei na mega-sena! SOZINHO!

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Ano Novo

clip_image002Formavam uma família feliz. Fred, Carol e a pequena Bia, de quatro anos.

Passavam os dias, os meses, os anos e aquela família cada vez mais feliz. Tudo apontava para um futuro promissor.

Os 15 anos de Bia foram comemorados em grande estilo, em um dos melhores buffets da cidade.

Mais alguns anos se passam e Fred perde o emprego. A empresa falira, deixando todos os funcionários sem nada.

A família sofre uma inversão jamais imaginada. Antes tudo eram flores e, de repente, tudo vem abaixo.

Contas, cartões, dívidas, tudo acumulando e Fred entrando em desespero. Como garantiria a sobrevivência de sua amada família?

Certo dia, andando a esmo pela cidade, depara-se com um estranho que lhe oferece uma saída mágica para os problemas dele.

- Tome esta pedrinha, você parece estar precisando. Pegue, é de graça!

O bom sujeito ensinou-lhe a fazer uso daquilo e, minutos depois, Fred estava viajando, sentindo-se muito leve.

Saiu andando sem saber para onde ir. Com sede, parou em um bar para tomar água. Acabou querendo algo mais forte e optou por uma cachaça.

Voltou para casa tarde da noite, meio bêbado. Sem graça, prometeu à Carol que aquilo não mais se repetiria. Que fora apenas um momento de fraqueza.

Adormeceu cansado e com uma dor no peito, envergonhado.

No dia seguinte iria sair em busca de emprego. Saiu de casa resoluto, embora com a certeza de que a tarefa não seria nada fácil.

Infelizmente a premissa tornara-se verdadeira. Nada!

Nova pedra, outra e outra. Novas doses de cachaça ou conhaque e Fred não era mais o mesmo.

Muito mais tarde da noite, caiu em si. Mais do que envergonhado, decidiu que não poderia voltar a casa e encarar a esposa e a filha.

Mesmo nos piores momentos não poderia sequer imaginar ser um fardo que as duas fossem obrigadas a carregar.

Ele ficou por ali, sobrevivendo a cada dia.

Carol e Bia desesperavam-se sem notícias. Onde poderia estar?

Hospitais, IML, polícia, Prontos Socorros... tudo em vão. Não havia qualquer pista dele.

Mesmo com o passar dos anos, a dor do sumiço não amainava. Viver sem saber o que havia acontecido era terrível.

Com muito custo, por causa da burocracia, Carol conseguiu vender a casa, comprou um apartamento menor e pôs as contas em dia com o que sobrara.

Passaram a viver mais comodamente. Apenas a dor da perda persistia.

As duas trabalhavam, Bia fazia faculdade à noite e, nos tempos livres, sempre deixavam espaço para a procura por Fred, um ótimo marido e pai. Aquele amigo inquestionável e precioso fazia muita falta.

- Se tivesse morrido, ao menos saberíamos dele, mas, sumido? Reclamava uma Bia chorosa.

Ignoravam que ele, uns 30 quilos mais magro, virara um zumbi na cracolândia.

Álcool e todo tipo de droga minaram-lhe a existência e acabaram com suas forças.

Uma noite, algumas freiras, ligadas a São Francisco de Assis, aproximaram-se do grupo em que Fred estava.

Enquanto a maioria distribuía sopa e pão, uma outra começou a contar uma história.

Fred identificou-se com o protagonista da história contada e viu ali uma saída para aquela vida miserável - se é que alguém pudesse chamar aquilo de vida.

Levantou-se, dirigiu-se até a freira e disse que queria mudar de vida; que precisava de ajuda.

Os meses seguintes foram determinantes. Internado em uma clínica, comeu o pão que o diabo amassou até desintoxicar-se.

De volta ao convento, passou a cuidar do jardim e da horta e, à noite, saía com as freiras para ajudar os necessitados.

Havia ali um novo Fred. Envelhecido, magricela e acabado, mas um novo ser, alguém que já começava a ver um futuro mais risonho pela frente.

Só não procurava a esposa e a filha pelo temor que tinha de ser rejeitado, afinal abandonara-as quando mais precisaram. Fora fraco e tinha vergonha disso.

Logo após o Natal, uma jovem entra no convento com o marido e a pequena filha no colo.

Haviam ido comprar alguns artesanatos para presentear uns amigos que iam encontrar antes do Ano Novo.

Fred viu a cena e uma lágrima escorreu de seus olhos - via ali a si próprio com a Carol e a pequena Bia.

A moça, ao olhar para aquele velho franzino, todo cheio de marcas que um tempo ruim havia deixado, entregou a criança ao marido e foi em direção a ele.

Parados, sem se falar, ela o abraça forte. Bem forte.

Apenas uma palavra sai de seus lábios, com muito esforço e depois de uns dez minutos abraçando aquele senhor:

- Pai!

Aquele seria um réveillon diferente. Bem diferente.

domingo, 13 de outubro de 2013

Eu queria ser...

C&REu queria ser as asas que a fazem voar...
O oxigênio que a deixa respirar...
A força motriz que faz seu coração bater...
A felicidade que faz sua lágrima escorrer...

Eu queria ser o amigo procurado...
O amor compartilhado...
O ombro amigo para você se apoiar...
O ouvido sincero para seu desabafar...

Eu queria ser a mais linda paisagem que seus olhos avistem...
A canção mais bonita que seus ouvidos escutem...
O mais doce sabor para acariciar seu paladar...
A mais macia das relvas para seu corpo se deitar...

Eu queria ser importante para você...
Seu namorado enquanto viver...
Seu amor sem nunca esmorecer...
Seu marido apaixonado para com você conviver...

Mas, o que eu queria ser não importa
Importa é o que sou e o que tenho
Sou seu marido namorado
E tenho você ao meu lado.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Felicidade não tem preço

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Felicidade para ele era ter de tudo. Desistiu da vida para trabalhar, enriquecer e poder comprar tudo o que precisasse ou, melhor ainda, quisesse.

Automóveis, só os de luxo, e do ano. Apartamento? Cobertura à beira da praia e no melhor bairro da cidade.

Amigos? Bastava estalar os dedos que choviam de todos os lados. Nunca estava sozinho. Assim também não lhe faltavam belas mulheres.

Então, sofreu um acidente tarde da noite. Bateu o carro em um poste e não conseguia ligá-lo para sair daquele bairro suspeito. Bairro pobre, longe do centro, longe de tudo.

Queria era sair logo dali. Ligou para vários amigos, mas, por motivos diversos, nenhum deles poderia ir ajudá-lo. Também, quem iria até aquele fim de mundo? Pensou com seus botões.

Viu-se só... e com uma ponta de medo.

Passou um ônibus e notou que alguém gritou para o motorista para que parasse. Um pouco longe, viu um vulto descendo e indo em direção a ele. Preocupou-se.

Pronto, o cara viu minha situação e agora, tenho certeza, “dancei”. Pensou preocupadíssimo. A ponta de medo agora era medo mesmo.

Quando o indivíduo chegou perto, notou que era o Pedrinho, um rapaz lá do escritório que sempre ouvia as brincadeiras dele. Ele sempre curtia, menosprezando o Pedrinho, dizendo que pegar ônibus era coisa para pobre etc e tal.

E agora? O que ia acontecer? Continuava pensando com seus botões.

- Olá, seu Márcio. Quando o vi aqui nesta situação, desci e vim ver se precisa de ajuda. Posso fazer algo pelo senhor?

Aquilo foi um tremendo balde de água gelada. Gelada? Congelada!

Por razões que o próprio destino desconhece, o socorro demoraria a chegar até aquele lugar longe de tudo e perdido neste mundão de Deus.

O Pedrinho então o convida para irem à sua casa. Lá poderiam jantar e esperar o socorro pois, de fato, ali não era um bom lugar para permanecerem.

E assim foram.

Apesar da hora e da surpresa de um convidado para o jantar, Júlia o recebeu com um sorriso nos lábios.

- Entre seu Márcio, a casa é de pobre, mas é aconchegante.

Ela pôs a mesa usando seu melhor jogo de jantar, chamou os filhos mandando-os lavarem as mãos e indicou o assento ao lado do marido para que Márcio o usasse.

Fizeram uma oração antes de iniciar o jantar na qual agradeceram a presença de Márcio pedindo que Deus o protegesse e o iluminasse e, para espanto dele, agradeceram também pelo acidente. Um acidente que ele tanto maldizia.

Agradeceu a oração, mas ficou sem entender. Como agradecer por uma desgraça?

Aquela família, unida em torno da mesa, dividiu o que tinha com ele. Naquela noite, isso ele percebera, todos comeram menos que o normal. Havia um convidado à mesa, uma inesperada boca a mais, mas muito bem-vinda.

Quantas vezes ele havia criticado amigos por aparecerem na hora da refeição? Essa conta ele perdera havia muito tempo. Fora tantas outras reclamações que fazia no dia a dia. Era só não estar do agrado dele e lá vinha a chiadeira.

Aquele era um outro mundo, um mundo cuja existência era sabida, mas desconhecido.

Só quando estava sozinho em casa e sentindo, pela primeira vez, uma solidão esquisita é que entendeu o por quê daquele agradecimento. Deu um belo sorriso ao notar que aprendera que o mal acontece para nos recolocarmos - o mal era um bem necessário.

Entendendo isso, também agradeceu pelo acidente que possibilitou aprender uma das maiores lições de sua vida. Devia ao Pedrinho muito mais do que ele e sua família imaginavam.

Quando precisou, a ajuda veio de quem menos esperava. E os “amigos”? Onde estavam?

É, tinha mesmo de rever seus conceitos. Agora ele seria feliz de verdade.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Traição não!

Traição não provisórioCasado há mais de 20 anos, Gerson jamais traíra a mulher. Para ele o casamento era sagrado. Formavam um par perfeito; não poderia ser melhor.

Os amigos sempre o perturbavam querendo levá-lo para as grandes noitadas que promoviam e, invariavelmente, acabavam em um quarto de hotel ou motel com garotas, várias garotas.

Ele se mantinha firme em seu propósito de completa fidelidade. Dorinha não merecia ser traída e o casamento dele não poderia ser comprometido com uma mancha dessas.

Aqueles que não o conheciam duvidavam de sua fidelidade. Achavam que era um engodo ou piada. Simplesmente não acreditavam ser possível, nos tempos hodiernos, alguém ser fiel.

Gerson não queria saber. Não se importava com o que pensavam, pois era assim que encontrava a felicidade.

Se olhava para belas mulheres que passavam? Claro que sim, afinal apreciar o belo é um direito de todos, mas o fazia sem cobiça.

Seus sonhos, sua libido e tudo o mais eram todos direcionados à Dorinha. Era ela quem importava. Se ela estava feliz, ele estava feliz.

Sentia orgulho de si mesmo quando chegava a casa e olhava a esposa, bem fundo nos olhos, sem qualquer constrangimento ou arrependimento por qualquer ato que pudesse ter praticado contra o seu santo matrimônio, contra a pessoa que mais amava neste mundão de Deus.

Mas, tão duro quanto a vontade ferrenha de Gerson era o empenho dos amigos para que ele cedesse. Rolavam até apostas se conseguiriam ou não.

Até então haviam tentado de tudo e o Gersão continuava insuscetível. “Bravo herói de um tipo de homem em extinção”, brincavam os amigos.

Certo dia, para comemorar o aniversário do Chefe, marcaram de comer um churrasco e tomar umas cervejas. Iam na Churrascaria Leitão, em Praia Grande.

Gerson topou ir, afinal eram só umas cervejas na churrascaria e jogar conversa fora.

Ligou, como sempre, para Dorinha avisando-a do que ia acontecer e o por quê de chegar em casa só após as onze da noite.

Foram em dois carros e Gerson, de carona, não teve chance de dizer não, mesmo quando se tocou de qual era o destino.

Os carros entraram pelo portão de uma grande casa perto do Forte, na qual algumas meninas devidamente contratadas estavam à espera do grupo.

Arrastaram o pobre do Gerson e a mais bela das garotas, já avisada e muito bem instruída, jogou-se toda fogosa pra cima dele.

Gerson foi, de cara, praticamente arrastado para um dos quartos, sem fala e sem saber o que fazer, ele ficou sem ação, apenas como observador de tudo aquilo que ia acontecendo.

Quando deu por si, estava de cueca e a moça nua na cama, chamando-o.

- Pare! Isso não pode acontecer. Eu amo minha mulher e não vou estragar meu casamento!

Dito isso, Gerson vestiu-se e saiu rápido, chamou um táxi e foi para casa.

Sentado no banco de trás, ele foi tentando recuperar-se e uma dúvida insistia em perturbá-lo: contaria ou não, aquela passagem, à esposa?

Decidiu-se por não contar. Apagaria aquilo da memória - nada acontecera.

Pediu ao motorista que parasse em frente a uma floricultura e comprou umas flores.

Chegou em silêncio, ia fazer uma boa surpresa à amada Dorinha.

Procurou-a e, ouvindo o barulho do chuveiro, subiu a escada e foi em direção à suíte do casal.

Abriu a porta gritando: - SURPRESA!!!

Entrou no box com as flores, de roupa e tudo e trocaram um beijo ardente, cheio de paixão e, no caso dele, com um certo sentimento de culpa por quase tê-la traído.

O beijo foi tão ardente e cheio de paixão que ele nem notou, Nestor, o limpador de piscinas, que deu uma olhada rápida no casal, da porta, recolheu sua roupa e saiu de fininho...

quinta-feira, 28 de março de 2013

A Sogra

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Ilustração feita pelo Luiz Rafael da Caricômicos,

um parceiro indicado por este Blog.

Em uma das mudanças da família, Roberval passou a ser vizinho de Helena e quando se encontraram pela primeira vez os corações bateram um pouco mais forte.

Esse início foi o começo de uma forte amizade que logo se transformou no que, na realidade há muito já era: amor. O namoro veio naturalmente.

Mas havia um grave problema. Talvez pela pouca idade da filha, a mãe de Helena era radicalmente contra o namoro deles e, decididamente, não gostava de Roberval.

Não gostava era pouco, ela praticamente odiava aquele rapaz. Motivo? Não precisava.

De todas as personae non gratae do planeta, para ela, ele era o campeão.

A simples presença já era um grande incômodo.

Com o sogro, Roberval não tinha qualquer problema, muito pelo contrário. Eles se davam muito bem.

Assim iam passando os anos e ele sempre driblando aquele sentimento malévolo da sogra. Para o coitado, as piadas sobre sogra tinham um verdadeiro sentido. Todas baseadas em fatos bem reais.

Helena por sua vez sempre ia tentando amenizar os sentimentos da mãe em relação ao namorado, sempre infrutiferamente. Ao menos até o dia em que ficaram noivos.

A jovem chamou a mãe em um canto, questionou-a, insistiu em que ele era o homem a fazê-la feliz pelo amor recíproco que sentiam. Parecia uma sofista da Grécia antiga utilizando-se de toda a oratória possível para convencer a irredutível dona Rosinha.

A mãe, vendo o estado da filha, acabou concordando, comprometendo-se a “pegar mais leve” e, quem sabe, até a aprender a gostar do rapaz.

Com isso a vida de Helena deu uma boa melhorada. Ela não mais ouvia a mãe reclamando quando Roberval tocava a campainha, recebia-o com cortesia e tudo estava melhorando a olhos nus.

Melhorando? Bem, superficialmente e na presença de Helena estava mesmo tudo muito bem, mas bastava ela se ausentar que a “velha bruxa da floresta do mal” incorporava na sogra e os reclames e falatórios corriam soltos aliados a caretas e lançamentos de pragas. Era a sogra das piadas reascendendo.

No maquiavelismo da velha cabia até mandar flores a si própria, com cartões “assinados” por Roberval.

Helena voltava e lá estava dona Rosinha toda sorridente, solícita.

Roberval, a sós com Helena, reclamava das atitudes da sogra. Algo que a incomodava já que havia conversado com a mãe e era notório a mudança de comportamento. Como poderia Roberval reclamar agora se até flores ele mandava para a pobre mãezinha.

Para Helena aquilo era cisma, algo que o namorado guardara do passado.

Aproveitando o aniversário de 19 anos de Helena, deram uma parada na festa, chamaram a atenção de todos os presentes e, em uma rápida cerimônia, ficaram noivos sob os aplausos e desejos de felicidades dos amigos.

O sogro o abraçou desejando que ambos fossem verdadeiramente felizes e tivessem um futuro glorioso. Já a sogra... bem a sogra...

Todos viram quando ela o abraçou emocionada, mas ninguém a ouviu dizendo nos ouvidos do pobre coitado que ele bem poderia morrer na lua de mel, deixando toda a herança para a filha poder ser feliz com alguém melhor, aliás, um alguém muito fácil de ser achado.

Ele encenou um sorriso amarelo de agradecimento e procurou apagar de sua mente mais aquela praga lançada pela megera.

E assim foi passando o tempo e como o tempo é um excelente remédio, Roberval aprendeu a lidar com a sogra e não reclamava mais de nada para Helena. Com isso garantia o sossego do noivado e não corria o risco de perdê-la por reclamar da “mãe maravilhosa” que ela tinha.

Helena estava tranquila. Em seu entender, os dois passaram a se dar bem, ao menos assim ela entendia.

Quando se casaram, mudaram-se para uma outra cidade na qual Roberval havia recebido uma ótima proposta de trabalho.

Enfim sós... e longe da sogra. Estava mesmo feliz.

Finalmente estavam casados, o sonho comum de ambos estava concretizado e, naquele lar de amor, pairava uma paz solene.

Quatro excelentes meses de puro êxtase para o casal quando veio uma má notícia:

O pai de Helena falecera. Um enfarto fulminante arrebatara-lhe a vida sem permitir qualquer possibilidade de salvamento.

Claro que a alegria do casal deu uma arrefecida, aquela notícia atingiu a ambos de forma lamentável. Para Helena era a perda do paizão querido e para Roberval a perda do único aliado que tinha, já que a sogra era cada vez mais sogra, claro que longe de Helena - perto da filha era um fingimento só.

Mas a vida tinha de ser tocada e isso eles fizeram. Voltaram a ser felizes por mais um mês quando outra notícia caiu no colo de Roberval, e dada pela própria esposinha querida:

- Benzinho, mamãe não está bem. Desde a morte de papai ela entrou em depressão e precisamos ajudá-la. Assim, conversando com ela e como vocês estão se dando bem, acertamos que ela virá morar conosco. Não vai ser ótimo?