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segunda-feira, 17 de março de 2014

Uma fabulosa vida livre

Vida livre MAR14Arthur vivia uma vida rústica. Tão rústica que para comer ele precisava caçar.

Mas era esta a vida que ele levava e curtia. Não queria saber de outra.

Não tinha contas a pagar, não devia satisfações a ninguém e era feliz.

Os dias passavam sendo vividos um a um. O negócio de Arthur era ser livre e feliz - o resto era resto.

Uma moradia super simples com o tamanho suficiente para acomodar alguns poucos primos ou o irmão que, às vezes, o visitavam.

As visitas aconteciam, invariavelmente, do jeito que Arthur mais gostava: duravam dois dias, no máximo. Desta forma o dia a dia do jovem com anseios de liberdade total não era prejudicado.

Dois dias bastavam para matar a saudade e pôr a conversa em dia. Passado este período já virava rotina e aí era invasão de privacidade e liberdade tolhida.

Dono de um viver simples e descompromissado, o jovem saía de casa logo cedo, andava a esmo pelos arredores e se visse uma caça, tratava de tentar abatê-la para garantir o almoço, ou a janta.

Tão livre era que, por vezes e até por preguiça, não voltava para casa. Dava um jeito de passar a noite onde estivesse.

Isso era liberdade total. Algo almejado por muitos e ele tinha. E como!

- Sou livre! Esta é a vida que eu sempre quis ter! Assim falava, consigo mesmo, um todo alegre Arthur.

Para ele, um vidão.

Se rolasse um sexo, legal. Se não, paciência - a vida continuava.

Mas..., pois é, sempre tem um mas, para temperar qualquer história... bem, voltemos ao texto.

Mas, um dia Arthur conheceu aquela que seria sua cara metade. Amélia era uma coisa de louco.

Linda, simpática, charmosa, atributos certos nos lugares certos. Ela mexeu com aquele solteirão convicto.

E ele cedeu notando que, sem haver percebido, faltava algo para ser completamente feliz: uma esposa, uma cúmplice com a qual poderia rir, chorar, dividir a vida.

De repente começou a sonhar com filhos, família, um modo de vida nada a ver com aquele que levava, mas que chegara a hora de conquistar. Mesmo porque a idade vinha chegando.

Depois de um curtíssimo período de paquera, de ambos os lados, passaram a namorar e ela aderiu totalmente àquele estilo rústico de vida do namorado.

O relacionamento foi ficando cada vez mais sério e acabou tomando um destino tradicional: iriam casar-se.

Como os pais de Amélia eram ultraconservadores, optaram por seguir fielmente a tradição e não pular qualquer degrau. Namoravam, ia pedir a mão dela, ficariam noivos e só depois casariam.

Assim, marcaram o dia para uma cerimônia íntima, só com os pais de Amélia, o irmão e um primo de Arthur, cerimônia na qual ficariam noivos. Era o segundo passo.

Com os preparativos prontos, faltava garantir a comida para os convivas.

Para isso, Arthur saiu cedo para caçar, conforme as regras que adotara em sua vida.

Foi difícil. O tempo passava e... nada. Aquilo temido pelo jovem caçador ia acontecendo, afinal a caça andava escassa por aquelas bandas.

Depois de algum tempo, Arthur conseguiu abater uma primeira presa, mas uma só não seria suficiente.

Algum tempo depois, a segunda e, aos “49 do segundo tempo”, uma terceira

Pronto, finalmente podia retornar à casa, onde Amélia e os convidados já deviam estar esperando. E com fome.

Quando chegou, Arthur foi tomado por uma grande surpresa, levando um tremendo susto.

Além dos quatro convidados, também compareceram três irmãos e dois primos de Amélia e mais cinco primos de Arthur, todos com ares de quem estava de estômago vazio reclamando por comida.

De um estático Arthur saíram, com muito esforço, as palavras:

- Poxa pessoal, só três baratas não vão alimentar 16 lagartixas!

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

O Mundo de cabeça para baixo

AvessasFred nasceu em uma noite quente de primavera. Não chorou, como normalmente fazem os bebês; apenas resmungou, mamou e dormiu aninhado no colo da mãe.

E assim levava sua vidinha de nenê mimado pela mãe sempre atenta.

Era ele se mexer e lá estava ela de prontidão, abraçando-o junto ao corpo como que para protegê-lo.

Mas Fred não era um bebê qualquer. Desde cedo mostrara-se bastante observador.

Curtia a mãe, o pai, a família cheia de primos. Reconhecia cada um deles embora ainda tivesse algum problema de comunicação, afinal, era uma época de aprendizado, o que incluía a comunicação.

Como observador ávido a aprender o máximo, Fred analisava, dentro de sua cabecinha, tudo o que via e era evidente que aconteciam coisas estranhas.

O mais estranho, para ele, era também o mais intrigante: quase todos de cabeça para baixo.

Os pais nunca comentavam nada e isso atiçava ainda mais a curiosidade de Fred que acreditava ter algum problema de visão. “Sei lá, será que meus globos oculares são invertidos?” pensava o jovem com seus botões.

Como podiam viver de ponta cabeça? O sangue não invadia o cérebro deles? Não dava para se equilibrar daquele jeito. Meninos jogando bola às avessas? Como conseguiam?

Sim, havia várias perguntas e o pequeno Fred, sem respostas, era um mar de dúvidas e, ainda pequeno, não tinha como perguntar à sua mãe.

“Um dia saberei como falar com a mamãe e ela vai saber explicar tudinho” – pensava Fred.

Todos pareciam artistas saídos daquele circo maluco em que a mãe o levara certa vez.

A mãe, ensinando-lhe tudo o que podia, sempre dizia que a natureza era assim mesmo, às vezes meio esquisita, mas perfeita.

Como assim? Esquisita e perfeita?

A vida de um bebezinho curioso era mesmo sofrida. Que ânsia de aprender e haja paciência para esperar.

Fred não via a hora de ser independente e sair pelo mundão afora, ver tudo e, finalmente compreender.

As árvores cresciam para baixo e era impossível ser normal, muito menos, perfeito.

Não podia ser. Fred tinha de saber como tudo funcionava e o por quê de todos viverem de cabeça para baixo. Se a Natureza era perfeita - a mãe nunca mentia - o problema estava nele.

Angustiado, Fred tentava de toda maneira dizer à mãe o que se passava, o que via e sentia, mas não conseguia - era ainda muito pequeno.

Aquele nenê, esperto demais para a idade, sofria cada vez mais com aquela situação impossível de ser compreendida. Fred não via a hora de crescer, poder comunicar-se à vontade e, finalmente, compreender toda aquela bagunça.

Se fosse aquela questão do globo ocular virado alguém daria um jeito. Com certeza haveria algum doutor especializado no assunto e iria salvá-lo daquela situação incômoda.

Como a espera seria longa, Fred tinha de continuar vivendo e driblando as dúvidas que não conseguia, sozinho, compreender e dar-lhes um fim.

Assim, o pequeno fazia seu dia a dia transcorrer, distraindo-se ora com a mãe, ora com o pai ou com os primos ou com qualquer brinquedinho que lhe caía nas mãos.

Fred tinha apenas uma certeza: melhor mesmo viver em um mundo normal, com a família ao seu lado, tentando deixar aquele mundo exterior de cabeça para baixo não lhe esquentar os miolos.

Ah... - pensava Fred -... nada como ser morcego e viver normalmente.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

“TerraKai - Os Haikais da Terra”

Haikai

Os Haikais abaixo formam uma poesia sobre o nosso
planeta, com a qual participei de um concurso da
Academia Vicentina de Letras, Artes e Ofícios.

Claro que o iniciante aqui, bem cara de pau, não
ganhou nada, nem poderia – quem mandou competir
com quem
tem bagagem de verdade?

Mas, como lembrava o criador das olimpíadas modernas, o Barão de Coubertin, o importante é competir. rrsss

Chora a Terra
Vem chorar pelo Homem
Que a enterra

O Homem não pensa
Beleza? Natureza?
O lucro compensa

Mata a mata
Destrói o que se constrói
Alma ingrata

Árvores ao chão
Animal foge do mal
Pássaros se vão

Há de perceber
Cuidar e a vida ganhar
Para não morrer

Façamos a guerra
Do pior para o melhor
Salvemos a Terra

Flores nascerão
Ar puro a respirar
Bons tempos virão

Chora a Terra
Sem dor, mas com o amor
Que a encerra

Paraíso já
Humano não insano
Canta o sabiá

Vencida a dor
Festeja a natureza
Um mundo em flor

 

segunda-feira, 15 de março de 2010

O dia em que a barata perdeu

Nojento? Natureza? Hoje talvez eu até possa pensar assim, mas naquela manhã, na casa da minha tia em Moreira César (distrito de Pindamonhangaba), foi apenas diversão para aquele moleque sentado à mesa da cozinha, ao lado do fogão a lenha, vendo a cena enquanto tomava o famoso café com leite e pão com manteiga de toda manhã


Aquele foi um café da manhã que não tomei sozinho. A lagartixa me fez companhia, lá do alto, no teto de treliça. Para quem não sabe, as casas do interiorzão têm teto de treliça nas cozinhas (apenas ripas entrelaçadas através das quais dá para ver o telhado - assim a fumaça dispersa mais fácil).


Por que me lembrei disso? No domingo, 14/3/2010, à noite, na casa da Dona Lúcia, assisti à uma lagartixa dar um bote e devorar uma pequena mariposa que estava se debatendo no lado de fora do vidro da janela da sala, ao alcance daquela boca esfomeada. Não teve perdão - e nem tempo para a fuga. Que vacilo mariposinha!


Pois é, essa cena me remeteu anos atrás - e põe ano nisso, talvez, uns 44 deles - e me lembrei daquele café da manhã na divertida companhia da lagartixa.


Como perdão do trocadilho, era um barato ver aquela cena. A barata se debatia e a lagartixa ficava imóvel. A barata parava e a lagartixa “dava umas engolidas”, mandando a barata gradativamente para dentro - comparando, o bicho era grande e não dava para ser de um bocado só.


É, poderia dizer... é a mãe natureza agindo; o poder do mais forte; lei natural que o homem muitas vezes não entende... ou qualquer coisa bonita e ecologicamente correta, mas, que nada!


Era apenas um moleque, em toda a preadolescência, divertindo-se com a cena. Não sabia o que era ecologia e nem ligava para a tal da natureza.


Só sabia que não foi o dia da barata. Ela perdeu.