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sexta-feira, 10 de julho de 2015

Um peixe na nossa vida

Um PeixeNa ida...

Primeiro vemos, de repente, aquele peixão ao nosso lado, passamos por ele e novamente passamos, só que desta feita não passamos por ele como da primeira vez, mas sim passamos a vê-lo, pelo retrovisor, cada vez mais distante, cada vez menor... até sumir.

Sabemos que estamos, a caminho do planalto, deixando a cidade de Santos.

Santos não é uma cidade qualquer, ela foi eleita - e não por acaso - a melhor das grandes cidades brasileiras para se viver.

Com suas manias próprias, na qual se ouve um “tu vai” sem o menor constrangimento - é o tu sendo falado sem a preocupação em se conjugar o verbo - ; com pessoas morando neste ou naquele canal; que quando alguém vai ao centro da cidade diz apenas “vou à cidade”, como se nela não estivesse, assim como quem mora no bairro do Gonzaga “vai para o Gonzaga”; onde não há trilhos e sim linhas do trem; cidade em que se compra médias na padaria e não pão francês... além de várias outras coisas que só os santistas entendem.

Uma cidade que tem um jardim enorme na praia - sim, em Santos não é orla, é praia - tão grande que está no Guiness Book como o maior jardim de orla do mundo - até nosso cemitério está no livro dos recordes.

Santos do Santos, o time de futebol no qual surgiu o Rei Pelé, o atleta do século.

É esta a cidade que está sendo deixada para trás quando vemos, pelo retrovisor, o peixe ficando cada vez menor.

Na volta...

Ah... mas tem a volta.

A volta é quando descemos a Serra do Mar em direção à Baixada Santista e, já aqui embaixo, deixamos Cubatão para trás e nas proximidades do Jardim São Manoel começamos a ver o peixe, primeiro lá longe, pequenininho.

Ele vem num crescendo à nossa frente, dando a impressão de ficar cada vez maior à medida que nos aproximamos - ou seria ele quem se aproxima, trazendo-nos a cidade, aparentando uma ansiedade para que cheguemos logo em casa que nem mesmo ele consegue segurar?

O fato é que, avistar o peixe, indica que estamos chegando.

Passos semelhantes à ida ocorrem.

Primeiro vemos aquele peixão, depois passamos por ele... e as coincidências param por aí.

Ao passarmos por ele, a mágica acontece.

Se o víssemos pelo retrovisor, também o veríamos cada vez menor, mas, sabiamente, ele some rápido. Ele sabe que não é o protagonista nesta história.

Assim, ele sai de cena deixando apenas a cidade de Santos à nossa frente.

Viajar é legal, mas estar em casa não tem preço.

Querem saber? Santos vale a pena... e muito!

Santos praia

sexta-feira, 22 de abril de 2011

A Ponte Aérea era outra

Romantismo? Saudosismo? Sei lá, mas era bem diferente.

Lá se vai um bom número de anos (décadas seria melhor) quando pela primeira vez me vi sozinho em pleno Aeroporto de Congonhas para pegar um voo da Ponte Aérea com destino ao Rio de Janeiro a fim de fazer um trabalho por lá.

Lembro-me que, às vésperas do dia D, estava conversando com meu cunhado, Jorge Kiabo, sobre como pegar o avião, aonde ir, etc e tal, visto que o distinto cavalheiro tinha uma larga experiência no assunto e eu era um completo novato. Dicas importantes para não pagar um mico naquele, então, mundo desconhecido.

Dicas apreendidas, lá fui eu, ansioso por pegar logo o avião e desfrutar de uma rápida refeição a bordo e das paisagens que, com certeza - e se as nuvens deixassem - iriam abrir-se diante daquela pequena janela. Às vezes o voo passa em brancas nuvens - clique aqui e veja um exemplo disso, com o voo que fiz Rio/São Paulo no início de março passado.

O avião, grande objeto deste texto, era nada mais nada menos que o ELECTRA, o fusca dos ares, um bichão tremendamente confiável que poderia voar sem problemas caso um dos motores falhasse.

Por sinal, certa vez estava no escritório de meu pai em São Paulo e pude testemunhar isso. Um Electra estava sobrevoando a cidade há algum tempo, com um das hélices completamente parada. Estaria ele gastando combustível para um possível pouso de emergência? Sei lá, mas como eu gostaria de estar no aeroporto para ver aquele pouso bem de perto, testemunhá-lo ao vivo e em cores.

Os Electras marcaram época na Ponte Aérea Rio-São Paulo e o que era bem legal naqueles voos era a baixa altitude em que aconteciam, possibilitando-nos apreciar os detalhes das cidades, plantações, litoral e tudo o mais que se enquadrava naquelas janelas que até eram maiores que as atuais. Até hoje, sempre que posso, ocupo um lugar junto à janela.

E daí que davam uma chacoalhadas de vez em quando? Isso não era problema.

Também não sei se eram mais confortáveis porque as balanças eram mais generosas comigo e não apresentavam um valor tão alto como os de agora, e eu ocupava menos espaço, ou se porque eram mesmo confortáveis. Mas que eram, eram.

Positivamente é marcante a diferente para os dias de hoje, quando os poderosos jatos voam bem alto, cruzam o espaço em menor tempo e não nos deixam ver detalhes de nada, a não ser na decolagem e na aproximação para a aterrissagem.

Mas é isso mesmo. O romantismo cedeu seu lugar à praticidade e à rapidez e nós, para ganharmos, acabamos perdendo um pouco.


Aos saudosistas, eis a matéria do Jornal Nacional, de 24 de dezembro de 1991, acerca do último voo do Electra:


Jornal Nacional - despedida do Electra depois de 30 anos na Ponte Aérea Rio-São Paulo


=> Se você voou em um desses, deixe aqui um comentário, gostaria de saber se compartilha ou não de minha opinião.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

E a banda passou

Não, nada tem a ver com a música do velho Chico - também não falo aqui do Rio São Francisco, mas de outro Chico, hoje, também “velho”... Chico Buarque. E nem eu estava à toa na vida.

A banda que passou, ou melhor, as bandas que passaram deixaram uma grata saudade adormecida em algum ponto deste emaranhado que é meu encéfalo. Às vezes, sonambulando, ela passa pela memória viva e minha mente acorda para curti-la mais um pouco, evitando que se esvaia de vez.

Lembro-me perfeitamente dos ensaios noturnos pelas ruas de Jacareí, naquele tempo ainda a Terra dos Biscoutos (isso mesmo, biscoutos) por causa dos salgados e doces biscoitos feitos na outrora grande e famosa Fábrica de Biscoutos de Jacareí que tinha suas latinhas azuis e jacaré desenhado vendidas até na beira da Rodovia Dutra. Hoje, uma padaria de tamanho médio, mas isso é outra história.

O Gordo, nosso instrutor gritando aqui e ali com este ou aquele, andando, suando, falando, gesticulando e se esforçando para que tudo desse certo.

E eu lá com meu surdo - bumbo para os leigos - com baquetas feitas no torno da fábrica de caixões de defunto que havia perto da minha casa.

Parece que foi ontem em que fui a um dos ensaios com uma luva industrial - uma daquelas de couro que os soldadores usam. Meu par de luvas havia sumido e girar as baquetas sem luvas era machucado na certa (até hoje guardo, no vão dos dedos, algumas marcas daquela época.

E lá veio o Gordo... “Pô meu, no dia do desfile você não vai usar isso. Não é?”

Há muitas histórias de desfiles nos 7 de setembro, aniversários da cidade, concursos e tudo o mais.

Ah sim, esta fanfarra era do CENE, colégio estadual que tinha um nome bem curtinho: Colégio e Escola Normal Estadual Doutor Francisco Gomes da Silva Prado. Certa feita, em um concurso em Guarulhos, pegamos o segundo lugar como Banda Marcial (tivemos nossa patente promovida por um engano na inscrição e quase levamos. Seria o mesmo que um peso leve ganhar de um peso pesado no boxe. Boxe? Ah não, agora é UFC).

Depois, mudamo-nos para Campinas e fui estudar no CEPAF (Colégio Estadual Professor Anibal de Freitas) e, claro, tocar na fanfarra de lá.

Não tocava mais surdo. Agora era fuzileiro (a foto que ilustra este texto é dessa época).

Meu melhor amigo lá era o Tôntoli - não Luiz Antonio como a maioria. Ele tinha de ser diferente, então, era Antonio Luiz - era não, é, afinal ele ainda vive entre nós. Cara amigo de verdade, de coração tão grande quanto seu tamanhão (nem ia falar, mas hoje ele está magrinho e eu, gordinho).

Não é que certa vez quiseram tirá-lo da fanfarra por ser muito gordo e “não ficava bem tocando fuzileiro”? Acho que ele nem ficou sabendo, mas a oposição foi imediata. Uma pessoa como ele era imprescindível para nosso bem viver e companheirismo. Amigo é amigo e ponto.

Era uma época bem legal. Quando trocamos nosso ridículo uniforme composto por calças vermelhas e camisetas azuis por uma farda digna de nossa banda foi como um feriadão. Uma grande festa.

As fotos que ilustram este texto trazem o novo uniforme. O cavalheiro de bigode na foto central, a meu lado, era o instrutor dessa banda - um dentista do qual, infelizmente, não me recordo o nome.

Acabou que, em Campinas, a banda do CEPAF era tida como uma das melhores dos colégios da região.

Era muito divertido tocar várias músicas - e era, às vezes, o “bonitão” aqui que, com um apito, comandava as trocas. Até no 7 de setembro, quando o colégio desfilava seguindo a banda era legal - podíamos apenas marcar o passo para o pessoal desfilar, uma música só e contínua, mas, mesmo assim era gostoso (adivinhem se já não levei uma bronca por mudar a música em pleno desfile, fazendo a galera se perder? Desculpei-me, era empolgação de quem gostava daquilo).

É, esta banda passou e, lamentavelmente, muitas outras bandas passaram também. Aonde foi parar o campeonato da Record em São Paulo? E o daqui de Santos, ali no final da Conselheiro Nébias, com o show da Banda do Ateneu?

Triste ver, no 7 de setembro, as escolas arrastando-se, tentando marchar ao som de um vazio silencioso em vez daquela passada viva antes ritmada pela cadência das fanfarras escolares.

Triste fim.

Se você tocou em uma fanfarra, gostava ou se identificou com o texto, deixe um comentário por aqui.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Pavor da figura do Papai Noel


Dezembro chegou e, com ele, o Natal.

As voltas que a vida dá são muito interessantes.

Lembro-me de certa vez, ainda criança (pirralho mesmo) e o farmacêutico foi lá em casa aplicar-me uma injeção - naquele tempo era assim, coisas que já não existem mais - e eu, apavorado pela proximidade da agulha, aquele coisa pontiaguda e gigantesca, tranquei-me no quarto.

Meu pai teve de me arrancar à força e foi a maior briga. Segura daqui, bronca dali, apertão acolá até que, enfim, aquele ser hediondo aplicou-me a injeção.

Foi tanta coisa, que nem me lembro se doeu, mas sei que chorei assim mesmo.

E hoje? Ah... é outra coisa. Só para terem uma ideia, doo sangue várias vezes ao ano (máximo de quatro, ok?), tanto que houve uma vez que a atendente foi verificar se eu poderia doar ou se já havia extrapolado os limites.

Agulhas? Nunca mais foram tão grandes como aquela. Trauma completamente vencido.

É, são as voltas que a vida dá.

Com a figura do Papai Noel não foi diferente. Eu, assim como muitas das criancinhas por este mundão afora, tinha um tremendo pavor de me aproximar de Papai Noel, quando o bom velhinho ia lá em casa então, era o maior sufoco. Onde me esconder?

Que presente que nada, aquele ser de outro mundo me apavorava. Muito estranho aquele velho todo de vermelho, longa barba branca, gorro na cabeça e no maior calorão. Chegar perto? Nem pensar.

Era o dito cujo aparecer lá em casa e estragar a festa. Meus pais, acho, acabaram desistindo, pois nunca mais vi aquela figura grotesca que só servia para assustar.

Nas lojas, na TV era outra coisa. Via-o como o bom velhinho e tudo o mais, mas, ao vivo e em cores.... JAMAIS!

Mas, são as voltas que a vida dá.

Há alguns anos, em todo Natal eu banco o Papai Noel em um determinado dia e o que vejo? Algumas criancinhas, assim como eu lá nos antigamente, chorando, esperneando e nada de querer se aproximar do velhinho aqui. E olha que sou um Papai Noel do tamanho certo, daqueles que nem precisa de enchimento na barriga.

Quando acontecem os choros, lembro-me de meu tempo de criança e tenho ainda mais paciência para a criança ver naquele bom velhinho um ser amigável, que está ali para dar-lhe um presente de Natal.

Sabe o que é engraçado? Por mais voltas que a vida dê, a fala é praticamente a mesma: "Ele é bonzinho..."; "Ele vai lhe dar um presente de Natal...". E a criança também não mudou quase nada: continua olhando com um olhar de desespero, não escuta nada e chora a valer - chegar perto? Nem pensar.

Ao menos agora, eu não choro mais. Divirto-me muito e, empiricamente, compreendo o choro das criancinhas de agora.

Mas Papai Noel é assim mesmo. Tem de estar pronto para o que der e vier e dá-lhe paciência que o Natal está chegando.

segunda-feira, 15 de março de 2010

O dia em que a barata perdeu

Nojento? Natureza? Hoje talvez eu até possa pensar assim, mas naquela manhã, na casa da minha tia em Moreira César (distrito de Pindamonhangaba), foi apenas diversão para aquele moleque sentado à mesa da cozinha, ao lado do fogão a lenha, vendo a cena enquanto tomava o famoso café com leite e pão com manteiga de toda manhã


Aquele foi um café da manhã que não tomei sozinho. A lagartixa me fez companhia, lá do alto, no teto de treliça. Para quem não sabe, as casas do interiorzão têm teto de treliça nas cozinhas (apenas ripas entrelaçadas através das quais dá para ver o telhado - assim a fumaça dispersa mais fácil).


Por que me lembrei disso? No domingo, 14/3/2010, à noite, na casa da Dona Lúcia, assisti à uma lagartixa dar um bote e devorar uma pequena mariposa que estava se debatendo no lado de fora do vidro da janela da sala, ao alcance daquela boca esfomeada. Não teve perdão - e nem tempo para a fuga. Que vacilo mariposinha!


Pois é, essa cena me remeteu anos atrás - e põe ano nisso, talvez, uns 44 deles - e me lembrei daquele café da manhã na divertida companhia da lagartixa.


Como perdão do trocadilho, era um barato ver aquela cena. A barata se debatia e a lagartixa ficava imóvel. A barata parava e a lagartixa “dava umas engolidas”, mandando a barata gradativamente para dentro - comparando, o bicho era grande e não dava para ser de um bocado só.


É, poderia dizer... é a mãe natureza agindo; o poder do mais forte; lei natural que o homem muitas vezes não entende... ou qualquer coisa bonita e ecologicamente correta, mas, que nada!


Era apenas um moleque, em toda a preadolescência, divertindo-se com a cena. Não sabia o que era ecologia e nem ligava para a tal da natureza.


Só sabia que não foi o dia da barata. Ela perdeu.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Um jogo que ficou na minha história


Aquele longínquo 7 de maio marcou minha vida e faz parte de minhas lembranças do passado e uma cena não sai de minha visão: eu deitado no chão vazio, em frente ao radião, ainda de válvula, ligado à tomada, sozinho, ouvindo o segundo jogo das finais da Taça Libertadores da América daquele 1968. Só eu, o rádio e o amor pelo Palmeiras que não era Porco, era Periquito. Menino com 12 anos de idade, único palmeirense de uma família de sãopaulinos, estava sozinho naquela casa vazia - a família acabara de mudar-se para uma outra, na mesma rua, mas não pude acompanhar a mudança, não naquela hora. Impossível mexer-me de lá, afinal, não podia perder um segundo sequer daquele jogão de bola, esperança de ver meu amado time ser campeão das Américas. O Palmeiras não ganhara o primeiro jogo contra o Estudiantes, lá na Argentina, por 2 x 1 e tinha de ganhar o segundo... e estava ganhando. 2x0 para nós e estávamos já na metade do segundo tempo. Um terceiro gol aconteceu e eu vibrava ainda mais. Que show Dudu, Ademir e o Tupãzinho - que havia feito dois dos nossos três gols (o nosso segundo ficou por conta do Rinaldo) - deveriam estar dando em campo. Minha imaginação fervilhava. O rádio gritava junto com um Pacaembu onde 40 mil palmeirenses dançavam e comemoravam cada minuto que passava e eu lá, sozinho, imaginando e querendo estar no Pacaembu. Ai que vontade. Naquela época eu ouvia o Fiori Gigliotti com seu famoso "abrem-se as cortinas e começa o espetáculo" - e que espetáculo -. Ganhamos de 3X1 (maldito Verón) e o jogo foi para a terceira partida e íamos decidir em campo neutro: Montevidéu - melhor parar as lembranças por aqui, pois não é nada bom lembrar aquela partida em que perdemos de 2x0 e ficamos com o vice. Vice? No Brasil não vale nada, mas sim, o Palmeiras seria, pela segunda vez, vice-campeão da Libertadores. Mas realmente a cena ficou - eu, o rádio e a vitória do Palmeiras naquela casa vazia - puxa, como valeu a pena ter ficado lá e chegar na casa nova com um sorrisão de orelha a orelha, esnobando todos os sãopaulinos. Ah Ah Ah Ah Hoje, neste 26 de agosto de 2009, a Sociedade Esportiva Palmeiras completa 95 anos e continuo o mesmo apaixonado. Como é bom torcer para um time digno que me enche de orgulho. PARABÉNS VERDÃO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Dá-lhe Porco!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

sábado, 15 de novembro de 2008

Minha primeira crônica


Antes que vocês leiam minha primeira crônica, um esclarecimento: Ela foi escrita no segundo ano do curso de jornalismo, na disciplina de Língua Portuguesa e, se querem saber, gostei de escrever crônicas. Aí vai:
Naquela noite de quarta-feira a professora de língua portuguesa do curso de jornalismo, após algumas explicações, deixou-nos com uma incumbência: teríamos de escrever uma crônica, objeto daquela aula.

No momento não me preocupei muito, afinal era somente mais um texto. Todavia, analisando as palavras ditas para a classe naquela noite, vi que havia, sim, algo diferente e não era um simples texto.

Aproveitei o domingo seguinte àquela quarta-feira, bem de manhãzinha com todos em casa ainda dormindo, até a Hanna, nossa cadelinha shi-tzu, estava em um sono só, e lá fui eu dar tratos à bola para escrever minha primeira crônica. Comecei então a lembrar das palavras da professora e determinei para mim mesmo que minha crônica teria um personagem de fora, não seria eu a protagonizá-la.

Bastou isso para que meus olhos e ouvidos começassem a ver e ouvir o que acontecia ao meu redor naquela manhã. Sentado na cadeira de praia, aproveitando o sol que batia na área de serviço do apartamento, notei um bem-te-vi na antena do prédio ao lado, soltando piados altos, talvez chamando uma namorada... sei lá.

De repente, não havia mais aquele silêncio de há pouco e instaurara-se uma barulheira danada. Eram algumas pombinhas arrulhando aqui e ali, um papagaio que latia, imitando os cachorros da vizinhança, o cachorrinho de outro vizinho que uivava, vizinhas conversando de suas janelas e um rádio que insistia em tocar músicas bregas. Parecia que todos haviam ouvido aquela conversa que eu tivera comigo mesmo e queriam protagonizar minha primeira crônica.

Barulho na cozinha... alguém acordou e deu bom dia. Compenetrado vi que eram minha mulher, as duas filhas e a Hanna. Respondi ao bom dia, expliquei meu problema e voltei aos meus devaneios sobre o que escrever. Era a primeira crônica e tinha de ser especial.

Novamente barulho na cozinha, agora de panelas. Já está perto da hora do almoço? Nossa, preciso correr... Quede a inspiração? E o protagonista? Minha filha caçula chama para o almoço. Caramba! Passei a manhã inteira aqui e não consegui escrever minha primeira crônica. Ou consegui?

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Uma crônica

Saudade do pé no chão Ao passar pela bancada de frutas de um supermercado da cidade, tomei um susto ao reparar em alguns dos preços, com o da ameixa amarela - uma caixinha com alguns desses frutos custava mais de seis reais -, ou mesmo no tamanho das jabuticabas, todas pequenas, coitadas. Pequenas e caras.

Na minha infância, junto com meus amigos, vivendo no interior e de pé no chão, comer frutas significava subir nas árvores para colhê-las. Lá estavam à nossa espera, grandes, suculentas e sem ter de pagar nada por isso. Nunca poderíamos imaginar que um dia pudéssemos encontrar aqueles mesmos tipos de frutas, agora pequenas e caríssimas, em pacotes nas bancadas de supermercados. Pagar por uma fruta cheia de produtos químicos era algo que não passava pela cabeça de ninguém.

Naqueles bons tempos em que não havia celulares, preocupações com os colesteróis da vida e outros itens que tanta dor de cabeça proporcionam hoje em dia, vivíamos com muito mais liberdade e tranqüilidade. Sequer havia crianças gordas, afinal as brincadeiras envolviam, sempre, um corre-corre sem fim - queimávamos as calorias brincando e não malhando em academias.

Saíamos de casa cedo e nossas mães não se preocupavam sobre onde estávamos. O compromisso era estar em casa na hora do almoço e da janta, que eram, invariavelmente, realizados com a família toda reunida à mesa. Comíamos todos juntos, era o peso do valor família que, infelizmente, hoje não vemos mais, ou muito pouco.

Sim, o viver com o pé no chão, literalmente e não como a figura como o termo é usado hoje, era um viver com saúde e liberdade que deixou uma saudade gostosa.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Saudade de um velho amigo


Nos áureos tempos, antes que a rodovia dominasse os modais de transporte Brasil afora, recorríamos aos velhos trens para as viagens, especialmente as de longa distância - que eram comuns, afinal, uma ida de Jacareí a São Paulo levava horas.

Este saudosismo veio à tona por ter acabado de ler um livro sobre o assunto: Nos Trilhos da História”, de José Carlos Daltozo. Um livro comemorativo aos 90 anos da Estrada de Ferro Sorocabana, que conta a história de como a ferrovia fez brotar vários municípios na região da alta sorocabana e, principalmente - foco do livro - José Teodoro, hoje Martinópolis.

Ler esse livro é sentir uma saudade gostosa de um bom tempo que não voltará nunca e a saudade aperta mais ainda quando ele toca naquilo em que eu vivi: os trens em Jacareí, no Vale do Paraíba.

O autor incluiu vários trechos de outros autores que falaram de trens, trilhos, bilhetes, passageiros, cargas e afins; falaram de uma época romântica em que até para ir a uma pescaria os homens vestiam terno e gravata e o chegar ou o partir de um trem era um espetáculo à parte. Dentre eles, na página 37, cita Benedicto Sérgio Lencioni, historiador, professor e ex-prefeito de Jacareí, cidade do interior paulista na qual passei maior parte de minha infância.

Lencioni fala sobre a estação ferroviária de Jacareí: “a estação está sem emoções. sem o alarido das vozes, sem chegadas ou partidas de trens e viajantes. Sem o riso dos que chegavam e o choro dos que partiam. Não se vendem os famosos biscoitos nem anda mais na plataforma ou percorre os vagões o jornaleiro apregoando as manchetes do dia”. Como não lembrar do trem passando, cortando a cidade, dos biscoitos da Fábrica de Biscoutos de Jacareí.

O caso dos biscoitos merece uma nota: no livro original de Lencioni, não há a palavra “famosos” que, creio, foi incorporada por Daltozo em seu livro já que eram realmente famosos e sucesso em todo o Vale, com as latinhas azuis sendo também vendidas à beira da Rodovia Dutra. Todavia, hoje, infelizmente, a fábrica de outrora está transformada em uma padaria, mas que ainda faz biscoitos.

Como esquecer da reluzente Litorina, que passava rápido fazendo sua viagem São Paulo - Rio e vice-versa, sem escalas? Era um só vagão que não parava para os acenos. Como esquecer dos trens de carga que passavam pesados, com seu barulho ritmado levando de tudo e mais um pouco? E os vagões de passageiros que traziam e levavam nossos entes queridos? Não dá para esquecer, é algo totalmente diferente que se for comparado com as estações rodoviárias, as transformam em algo frio, sem emoção.

Bom ler um livro desses que nos trazem muitas e gostosas recordações. Quem teve o privilégio de viajar de trem, mesmo com as demoras - a última vez que fui de trem de Santos a São Paulo, em 1973 ou 1974, a viagem levou cerca de quatro horas - sabe do que está se falando aqui.

Bons e românticos tempos que, parece, não voltam mais, já que o Brasil transformou-se em uma imensa rodovia.

Carlos Freire