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sábado, 13 de setembro de 2014

Amor platônico

Amor platônicoEmílio e os irmãos Ana Maria e Alfredo eram os amigos Super Bonder, viviam colados um no outro e, como diz o lema criado por Alexandre Dumas, era um por todos e todos por um.

Quando alguém queria achar um deles bastava saber onde estava qualquer outro. Viviam sempre juntos, para o que desse e viesse, e isso desde pirralhos.

A amizade surgiu quando ainda eram crianças, vizinhos.

Não havia, entre eles, essa diferença de homem e mulher. Eram amigos e brincavam de tudo, de cowboy a casinha; o que importava era estarem juntos, dividindo brincadeiras, lanches, peraltices, alegrias e tristezas.

Com o tempo passando e eles, óbvio, crescendo, dentro do coração de Emílio também crescia um novo sentimento.

Nunca deixaram de sentir amor, uns pelos outros, mas aquele sentimento era bem diferente de tudo aquilo que, o agora adolescente, experimentara. Não entendia bem o que acontecia, era algo mais forte, bem mais forte.

Mas, havia um problemão a ser resolvido: a forte timidez de Emílio.

Bastava querer falar, manifestar o sentimento e tudo travava. Não saía uma palavra da boca dele, não conseguia pronunciar nada senão murmúrios incompreensíveis.

Tentava em vão abrir-se com Ana Maria, mas era impossível. Precisava clamar por ajuda... nem isso conseguia.

Como fazer?

Passava o tempo e mantinha o mesmo sentimento, cada vez com mais intensidade e, junto, aumentava o temor de se pronunciar. Continuava tudo travando.

Bastava pensar no assunto e ficava perdido naquele mundo desconhecido, o mundo do amor, das juras, da cumplicidade entre dois, dividindo segredos que só eles conheceriam, um mundo diferente, feito só para os dois pombinhos.

O que ele não sabia é que Ana Maria começara a nutrir o mesmo sentimento.

Ela também era meio tímida, mas não tão retraída quanto Emílio e precisou de algum tempo apenas para criar coragem e conversar com ele.

Contou-lhe minuciosamente como tudo havia acontecido, como aquele sentimento maravilhoso de um amor intenso começara e como tudo aquilo mudara radicalmente a forma como ela o via.

Ela teve a coragem que faltou ao jovem rapaz. Como ela conseguiu? Perguntava-se, sem saber a resposta.

Sabia que ele também poderia ter se manifestado e só não o fizera pelo medo da recusa. Aquela maldita incerteza de ser ou não correspondido tolheu tudo. Medo bobo mas... invencível; uma barreira inquebrantável para ele.

Mas, Ana Maria deu o primeiro passo e tudo passou a ser diferente.

Começaram a namorar e, com certeza, algo naquela amizade de anos e anos mudou.

Doravante novos passos seriam dados, embora continuassem amigos, não era mais os três sempre juntos. Alfredo colocara-se em sua posição de cunhado e se recusava a ficar segurando vela para os dois.

E o tempo foi passando e, mesmo assim, Emílio continuava o mesmo tímido de sempre. Ana Maria até reclamava alguns beijos e, embora sempre atendida, ele ainda tinha dificuldades nesse campo.

E assim os foram levando a vida e ela, por puro amor, sempre com a maior paciência e entendendo a extrema e exacerbada timidez do, agora, noivo.

Casaram-se!

Para a viagem de lua-de-mel marcaram um cruzeiro que, partindo de Santos, percorreria alguns portos do Nordeste. Cabina espaçosa com tudo o que um jovem casal recém-casado precisava, além de outros itens que eles não precisariam, mas poderiam querer.

No dia do embarque, Alfredo os levou para Santos, ajudou-os com a bagagem e correu para a ponta da praia - queria ver o navio passando e dar um último aceno de boa viagem aos pombinhos.

Tudo havia sido combinado. O lugar em que Ana Maria e Emílio estariam e onde Emílio ficaria - não havia como Alfredo perder os dois de vista no meio daquela multidão de passageiros e eles também poderiam localizá-lo sem problemas.

Quando o navio chegou perto, Alfredo os viu de imediato e acenou.

Ana Maria foi a primeira a vê-lo e acenou com veemência apontando-o para Emílio.

Emílio, ao ver o cunhado sentiu um aperto no coração.

Em sua imaginação ele via os três de uma outra forma.

Via-se ali mesmo, naquela varanda da cabine, partindo para uma linda viagem de lua-de-mel com a pessoa amada e, lá embaixo na calçada, estaria Ana Maria acenando para eles.

Droga de timidez! Droga de medo!

Coração partido

segunda-feira, 17 de março de 2014

Uma fabulosa vida livre

Vida livre MAR14Arthur vivia uma vida rústica. Tão rústica que para comer ele precisava caçar.

Mas era esta a vida que ele levava e curtia. Não queria saber de outra.

Não tinha contas a pagar, não devia satisfações a ninguém e era feliz.

Os dias passavam sendo vividos um a um. O negócio de Arthur era ser livre e feliz - o resto era resto.

Uma moradia super simples com o tamanho suficiente para acomodar alguns poucos primos ou o irmão que, às vezes, o visitavam.

As visitas aconteciam, invariavelmente, do jeito que Arthur mais gostava: duravam dois dias, no máximo. Desta forma o dia a dia do jovem com anseios de liberdade total não era prejudicado.

Dois dias bastavam para matar a saudade e pôr a conversa em dia. Passado este período já virava rotina e aí era invasão de privacidade e liberdade tolhida.

Dono de um viver simples e descompromissado, o jovem saía de casa logo cedo, andava a esmo pelos arredores e se visse uma caça, tratava de tentar abatê-la para garantir o almoço, ou a janta.

Tão livre era que, por vezes e até por preguiça, não voltava para casa. Dava um jeito de passar a noite onde estivesse.

Isso era liberdade total. Algo almejado por muitos e ele tinha. E como!

- Sou livre! Esta é a vida que eu sempre quis ter! Assim falava, consigo mesmo, um todo alegre Arthur.

Para ele, um vidão.

Se rolasse um sexo, legal. Se não, paciência - a vida continuava.

Mas..., pois é, sempre tem um mas, para temperar qualquer história... bem, voltemos ao texto.

Mas, um dia Arthur conheceu aquela que seria sua cara metade. Amélia era uma coisa de louco.

Linda, simpática, charmosa, atributos certos nos lugares certos. Ela mexeu com aquele solteirão convicto.

E ele cedeu notando que, sem haver percebido, faltava algo para ser completamente feliz: uma esposa, uma cúmplice com a qual poderia rir, chorar, dividir a vida.

De repente começou a sonhar com filhos, família, um modo de vida nada a ver com aquele que levava, mas que chegara a hora de conquistar. Mesmo porque a idade vinha chegando.

Depois de um curtíssimo período de paquera, de ambos os lados, passaram a namorar e ela aderiu totalmente àquele estilo rústico de vida do namorado.

O relacionamento foi ficando cada vez mais sério e acabou tomando um destino tradicional: iriam casar-se.

Como os pais de Amélia eram ultraconservadores, optaram por seguir fielmente a tradição e não pular qualquer degrau. Namoravam, ia pedir a mão dela, ficariam noivos e só depois casariam.

Assim, marcaram o dia para uma cerimônia íntima, só com os pais de Amélia, o irmão e um primo de Arthur, cerimônia na qual ficariam noivos. Era o segundo passo.

Com os preparativos prontos, faltava garantir a comida para os convivas.

Para isso, Arthur saiu cedo para caçar, conforme as regras que adotara em sua vida.

Foi difícil. O tempo passava e... nada. Aquilo temido pelo jovem caçador ia acontecendo, afinal a caça andava escassa por aquelas bandas.

Depois de algum tempo, Arthur conseguiu abater uma primeira presa, mas uma só não seria suficiente.

Algum tempo depois, a segunda e, aos “49 do segundo tempo”, uma terceira

Pronto, finalmente podia retornar à casa, onde Amélia e os convidados já deviam estar esperando. E com fome.

Quando chegou, Arthur foi tomado por uma grande surpresa, levando um tremendo susto.

Além dos quatro convidados, também compareceram três irmãos e dois primos de Amélia e mais cinco primos de Arthur, todos com ares de quem estava de estômago vazio reclamando por comida.

De um estático Arthur saíram, com muito esforço, as palavras:

- Poxa pessoal, só três baratas não vão alimentar 16 lagartixas!

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

A separação

A Separação

Beto e Helena eram bem casados, encabeçavam uma família linda que englobava duas filhas e o filhão que, apesar de ser o caçula, tomava conta das meninas.

A vida, como casal, havia iniciado em maio de 1985 quando começaram algumas ficadas, um namorico e tudo se ajeitou no dia 15 de junho quando efetivamente começaram a namorar de forma séria.

Ambos jovens, tinham uma vida inteira pela frente e, desde cedo, iam contabilizando planos para a vida em conjunto.

Sabiam que teriam de abrir mão disso ou daquilo em prol do outro. Tinham certeza de que tudo estaria muito bem harmonizado e que a vida seria uma maravilha, mesmo com os revéses que haveriam de acontecer.

Revéses? Ora, seriam os temperos para quebrar a rotina e provocar uma boa reconciliação do casal... nada como uma boa reconciliação.

E a vida foi passando. Três anos de namoro, veio o noivado no aniversário de Helena. Ela contava 19 anos de idade e ele, 21.

Alianças trocadas e tudo ficou ainda mais sério.

Outros planos começaram a surgir, em especial um que animava ambos: casamento.

Depois de 18 meses de noivado, casados.

Cartório, igreja, recepção e a Lua de Mel em Campos do Jordão.

Queriam ter filhos como qualquer casal, mas somente uns dois anos depois de casados. Iriam curtir a vida a dois primeiro.

Os planos foram concretizados. A primeira filha, Beatriz, nascida aos 18 de julho de 1992 viera mudar o panomara. Agora eram uma família de fato.

Mais dois anos e a família aumentou, nasceu Gabriela.

Tudo eram flores na vida daquela família, mas as duas pediam mais um filho, filho sim, queriam um irmãozinho.

Orlando nasceu quatro anos depois de Gabi. Família completa.

Os anos foram passando, os filhos cresceram, casaram-se. Viviam em suas próprias casas.

O casal mantinha sua vidinha, mas, agora, nem tudo eram flores.

A aparência era mantida, mas entre as quatro paredes daquele velho apartamento algo acontecia.

Beto tentava de tudo, mas Helena mostrava-se cansada daquela vida de esposa fiel. Muito secretamente nutria um sentimento que lhe causava certa ânsia por uma aventura.

Frequentemente recebia flores do marido, mas não eram mais vistas como antes.

-- Ele ainda está apaixonado por mim - pensava uma desiludida Helena - tenho pena dele, mas quero cuidar da minha vida.

Ela nutria uma vontade adquirida pelas más companhias que arranjara na academia. Suas amigas invariavelmente eram mulheres decepcionadas com o casamento e que traíam seus maridos abertamente.

Não, ela não seria assim. Embora não amasse mais o Beto, devia-lhe respeito.

Contudo, aconteceu.

Em um final de tarde, saindo da academia, ela deu carona a Rodolfo, o professor de pilates. Homem feito, uns 40 anos e corpo muito bem definido.

Conversa vai, conversa vem, pararam em uma lanchonete de produtos naturais para um suco e uma tijela de açaí.

Dali para um motel foi um pulo.

Ela chegou em casa ainda ofegante, preocupada se Beto já havia chegado. Não, Beto não estava.

Tomou um banho, recuperou as forças e preparou um bom jantar para o marido.

Beto chegou com um belo buquê de rosas champanhe - as preferidas dela.

Ela as recebeu. Cheirou-as imaginando que haviam sido enviadas pelo Rodolfo.

Naquela noite ela praticamente não dormiu. Apenas ficara devaneando sobre a tarde nos braços viris daquele modelo de homem.

No dia seguinte repetiram a dose e assim foi durante algum tempo.

Rodolfo, apaixonado, insistia para que ela deixasse o marido. Ele não tinha grandes posses, mas havia o suficiente para os dois viverem tranquilos e amando-se cada vez mais.

A questão “grandes posses” não era problema, afinal a vida com Beto eram bem assim mesmo. Não tinham quase nada e, volta e meia, faziam contas no final do mês.

Talvez fossem exatamente essas contas no final do mês que estavam minando seu casamento. Ela não queria aquilo. Queria mais e Rodolfo proporcionaria esse algo mais.

Definitivamente estava cansada de Beto.

Dois meses se passaram com aquela angústia apertando-lhe o peito. Precisava dar um basta naquela situação.

Conversou com Rodolfo e, então, tomaram a decisão de morarem juntos.

Com Rodolfo havia o fator predominante do adeus às continhas no final do mês.

Naquele final de tarde, Beto, sem suspeitar de coisa alguma, entra em casa esbaforido. Aos gritos sequer nota a presença de Rodolfo e que ela, de mãos dadas com o namorado, o esperava com as malas prontas:

- Querida, ganhei na mega-sena! SOZINHO!

quinta-feira, 28 de março de 2013

A Sogra

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Ilustração feita pelo Luiz Rafael da Caricômicos,

um parceiro indicado por este Blog.

Em uma das mudanças da família, Roberval passou a ser vizinho de Helena e quando se encontraram pela primeira vez os corações bateram um pouco mais forte.

Esse início foi o começo de uma forte amizade que logo se transformou no que, na realidade há muito já era: amor. O namoro veio naturalmente.

Mas havia um grave problema. Talvez pela pouca idade da filha, a mãe de Helena era radicalmente contra o namoro deles e, decididamente, não gostava de Roberval.

Não gostava era pouco, ela praticamente odiava aquele rapaz. Motivo? Não precisava.

De todas as personae non gratae do planeta, para ela, ele era o campeão.

A simples presença já era um grande incômodo.

Com o sogro, Roberval não tinha qualquer problema, muito pelo contrário. Eles se davam muito bem.

Assim iam passando os anos e ele sempre driblando aquele sentimento malévolo da sogra. Para o coitado, as piadas sobre sogra tinham um verdadeiro sentido. Todas baseadas em fatos bem reais.

Helena por sua vez sempre ia tentando amenizar os sentimentos da mãe em relação ao namorado, sempre infrutiferamente. Ao menos até o dia em que ficaram noivos.

A jovem chamou a mãe em um canto, questionou-a, insistiu em que ele era o homem a fazê-la feliz pelo amor recíproco que sentiam. Parecia uma sofista da Grécia antiga utilizando-se de toda a oratória possível para convencer a irredutível dona Rosinha.

A mãe, vendo o estado da filha, acabou concordando, comprometendo-se a “pegar mais leve” e, quem sabe, até a aprender a gostar do rapaz.

Com isso a vida de Helena deu uma boa melhorada. Ela não mais ouvia a mãe reclamando quando Roberval tocava a campainha, recebia-o com cortesia e tudo estava melhorando a olhos nus.

Melhorando? Bem, superficialmente e na presença de Helena estava mesmo tudo muito bem, mas bastava ela se ausentar que a “velha bruxa da floresta do mal” incorporava na sogra e os reclames e falatórios corriam soltos aliados a caretas e lançamentos de pragas. Era a sogra das piadas reascendendo.

No maquiavelismo da velha cabia até mandar flores a si própria, com cartões “assinados” por Roberval.

Helena voltava e lá estava dona Rosinha toda sorridente, solícita.

Roberval, a sós com Helena, reclamava das atitudes da sogra. Algo que a incomodava já que havia conversado com a mãe e era notório a mudança de comportamento. Como poderia Roberval reclamar agora se até flores ele mandava para a pobre mãezinha.

Para Helena aquilo era cisma, algo que o namorado guardara do passado.

Aproveitando o aniversário de 19 anos de Helena, deram uma parada na festa, chamaram a atenção de todos os presentes e, em uma rápida cerimônia, ficaram noivos sob os aplausos e desejos de felicidades dos amigos.

O sogro o abraçou desejando que ambos fossem verdadeiramente felizes e tivessem um futuro glorioso. Já a sogra... bem a sogra...

Todos viram quando ela o abraçou emocionada, mas ninguém a ouviu dizendo nos ouvidos do pobre coitado que ele bem poderia morrer na lua de mel, deixando toda a herança para a filha poder ser feliz com alguém melhor, aliás, um alguém muito fácil de ser achado.

Ele encenou um sorriso amarelo de agradecimento e procurou apagar de sua mente mais aquela praga lançada pela megera.

E assim foi passando o tempo e como o tempo é um excelente remédio, Roberval aprendeu a lidar com a sogra e não reclamava mais de nada para Helena. Com isso garantia o sossego do noivado e não corria o risco de perdê-la por reclamar da “mãe maravilhosa” que ela tinha.

Helena estava tranquila. Em seu entender, os dois passaram a se dar bem, ao menos assim ela entendia.

Quando se casaram, mudaram-se para uma outra cidade na qual Roberval havia recebido uma ótima proposta de trabalho.

Enfim sós... e longe da sogra. Estava mesmo feliz.

Finalmente estavam casados, o sonho comum de ambos estava concretizado e, naquele lar de amor, pairava uma paz solene.

Quatro excelentes meses de puro êxtase para o casal quando veio uma má notícia:

O pai de Helena falecera. Um enfarto fulminante arrebatara-lhe a vida sem permitir qualquer possibilidade de salvamento.

Claro que a alegria do casal deu uma arrefecida, aquela notícia atingiu a ambos de forma lamentável. Para Helena era a perda do paizão querido e para Roberval a perda do único aliado que tinha, já que a sogra era cada vez mais sogra, claro que longe de Helena - perto da filha era um fingimento só.

Mas a vida tinha de ser tocada e isso eles fizeram. Voltaram a ser felizes por mais um mês quando outra notícia caiu no colo de Roberval, e dada pela própria esposinha querida:

- Benzinho, mamãe não está bem. Desde a morte de papai ela entrou em depressão e precisamos ajudá-la. Assim, conversando com ela e como vocês estão se dando bem, acertamos que ela virá morar conosco. Não vai ser ótimo?

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Ninguém perde a grande chance

clip_image002Ilustração feita pelo Luiz Rafael da Caricômicos,

um parceiro indicado por este Blog.

Beto sempre fora metódico. Fazia tudo de forma bem pensada, para que nada fugisse ao seu controle; tudo tinha de funcionar perfeitamente.

Só não, digamos, “funcionava direito” na presença de Ana Lúcia. Invariavelmente as pernas lhe faltavam e a lógica de seus pensamentos iam por água abaixo.

Nesses momentos a timidez falava mais alto e uma poderosa barreira o impedia de falar com ela, declarar-lhe todo o amor preso em seu coração.

Isso acontecia desde a adolescência, quando ela entrou pela primeira vez naquela sala de aulas e tornou-se mais uma colega de classe. Mais uma? Fala sério, era muito mais que isso.

Ela era a nora que a mãe dele sempre quis, mesmo sem saber.

Os anos se passaram, a paixão platônica ficou e ambos continuavam solteiros, o que era um alento para Beto... quem sabe um dia?

Ana Lúcia mudou-se de São Paulo para o Rio de Janeiro. Trocara a Lapa paulistana pela carioca.

Mesmo a distância não amainou o amor no coração de Beto. O problema é que a timidez também permaneceu forte. A distância apenas piorara o contato - como falar com ela?

Certa tarde ele recebe uma chamada pelo Skype e... falta-lhe o ar. Era Ana Lúcia chamando para uma conversa com vídeo.

Tremendo, ele clicou no ícone e aceitou a chamada.

Logo aparece aquele rostinho angelical na tela, mas um tanto triste.

- Beto, apenas ouça. Não diga nada, por favor. – Disse ela em tom preocupado.

- Amo você praticamente desde a primeira vez que o vi, lá atrás naquela sala de aulas, mas minha timidez nunca me permitiu falar algo a você.

E continuou:

- Meu maior desejo era que você também me amasse como o amo, que ficássemos juntos para sempre. Pena eu não ter tido a certeza de ser correspondida, afinal você nunca se abriu comigo.

- Beto, estou falando isso agora porque não quero casar-me com este peso na consciência. Tinha de declarar meu amor a você e, se por acaso você me amar, venha para cá e me impeça de casar-me. Apenas sua presença bastará. Não precisaremos falar nada um ao outro.

- Se você não vier, entenderei e parto para a Lua de Mel no Caribe e, de lá, já mudo para a França, onde morarei.

- Eu me caso às 20 horas na Igreja Nossa Senhora do Desterro, aqui na Lapa.

Declarou tudo isso e desligou, deixando um atônico Beto sem saber o que fazer.

O coitado não sabia se o mundo desabara ou se abrira uma enorme porta para a felicidade.

... nem vou precisar dizer nada? Basta aparecer? Pensou Beto já tomando a decisão.

Olhou no relógio: 16 horas. Se corresse, pegaria o voo das 17 ou 17h30 para o Rio e chegaria em frente a Ana Lúcia bem antes das 20 horas.

Era a última chance de ele ser feliz com a mulher que amava e não a perderia por nada. Pegou uma mochila, jogou lá dentro algumas coisas básicas e correu para o aeroporto.

Conseguiu um lugar no voo das 17 horas mas, ao passar para a área do portões o escâner acusou a presença de um canivete na bolsa. Não poderia embarcar com aquilo e a sugestão dada foi o descarte.

Não poderia descartá-lo. Fora presente de Ana Lúcia há vários anos e não largava dele.

Saiu em disparada, deixou o canivete no guarda-volumes e voltou correndo para não perder o voo.

Passou como um foguete e foi o último a entrar a bordo e, cansado, sentou-se na primeira poltrona vazia que encontrou.

O avião demorou um pouco a mais para sair, mas isso não o incomodou. Havia tempo de sobra até as 20 horas.

Finalmente o avião partiu e ele, procurando relaxar, nem ouviu as palavras do comandante que explicava o por quê da demora e outros detalhes acerca da viagem.

Mas, no final, quando o comandante disse o tempo estimado de voo, ele ficou intrigado.

Chamou a comissária de bordo e perguntou:

- Duas horas de voo não é muito tempo? Normalmente leva uns 40 minutos.

- Desculpe-me senhor - disse uma educada comissária - mas o tempo de voo para Cuiabá é cerca de duas horas mesmo.

- Ah sim, respondeu Beto. Para Cuiabá é este mes.............CUIABÁ??????????????????

sábado, 7 de julho de 2012

Amor à primeira vista

Aliança partidaEncontraram-se em um bar. Os dois haviam acabado de fazer 18 anos e, em plena “pré-adultice”, viram-se, olhos nos olhos, amor à primeira vista.

No dia seguinte falaram-se por telefone durante mais de duas horas. Entendiam-se como se um conhecesse o outro há vários anos.

Marcaram um encontro, outro, outro e outro. Acabaram por estar juntos praticamente todos os dias, não importava a hora.

Era perfeito. Um completava o outro e aquela felicidade total de quando estavam juntos irradiava-se por todos os lados.

Nem com as sogras havia problema, pois os dois curtiam, cada um a sua e eram amados como se filhos fossem.

Passaram os anos e o amor cada vez mais enraizado. Claro que havia problemas, uma briguinha aqui e ali, ou uma discussão perdida no dia a dia, mas até esses dissabores eram legais, pois sempre terminavam em conciliação, o que era ótimo.

A paixão de cada lado era inequívoca. Não havia lugar para o ciúme já que a confiança era total e um não sabia viver sem o outro.

Com a idade amadurecendo, veio a conclusão mais que óbvia para qualquer casal que se ama, namora há tanto tempo e quer terminar seus dias embalado no colo um do outro: casamento.

Nada de pressa. Marcaram a data do noivado, o que aconteceu no mesmo bar em que se conheceram. A cerimônia ocorreu da melhor forma possível, com a presença de vários amigos, dos pais e oficiada pelo Zé Marco, o amigo que os apresentara oito anos atrás.

Aliança no quarto dedo de cada um, como manda a tradição e crendo na lenda chinesa, as idéias começaram a brotar de forma mais madura. Casamento era mesmo algo muito sério e deveria ser tratado com toda a pompa.

Ambos eram só felicidade.

Como Adalberto já morava sozinho, em um apartamento confortável e espaçoso para as crianças que viriam, optaram por morar lá mesmo, apenas adaptando-o para receber os nubentes depois do tão aguardado “sim”.

Móveis novos - do gosto dos dois -, cama king size na suíte principal, a que seria o ninho de amor do casal; sala aconchegante; cozinha toda equipada... tudo do melhor para acolher a família mais feliz do mundo.

Os dias iam passando, a data chegando e o tempo cada vez mais exíguo. Não sobrava muito para o que ainda estava por fazer, mas eles corriam e tudo ia bem.

Faltando menos de duas semanas para o grande evento, um problema inesperado atingiu os dois como uma bomba.

A briga foi feia e tudo estava por desmoronar.

Os amigos, sem saber do que se tratava, tentaram interceder... nada.

Os irmãos, também desconhecendo as razões, vieram na esperança de fazerem os dois cederem... nada.

Os pais, que também não faziam ideia do que havia acontecido, chamaram os dois para uma conversa franca... nada

As esperanças estavam perdidas. Ambos, com a cabeça mais dura que rocha, não queriam abrir mão daquele sentimento e continuavam a se estranhar.

Ninguém tinha certeza do que estava havendo. Apenas especulações e uma impotência absurda por não poder ajudar ou entender o que ocorria.

Todo o amor dos anos passados foi embora e tudo por causa de uma briga que somente eles sabiam e não queriam, por melindre talvez, contar a quem quer que fosse.

Nove anos de namoro e... Fim!

Terminaram o relacionamento às vésperas do casamento e cada um foi para o seu lado.

Eles entendiam que não dava para começar uma vida de casados quando um não queria abrir mão de um desejo para que o outro se sentisse feliz justamente na data máxima: o dia do casamento.

O motivo? Eles queriam a mesma coisa e não chegaram a um acordo e, por isso, terminou a história de amor entre Adalberto e Inácio... os dois queriam ser a noiva.