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domingo, 9 de agosto de 2015

Sou pai e tenho orgulho disso.

Sou pai 2Um momento feliz na Vila  Belmiro,
vendo Palmeiras meter um 3X1 no Santos

Posso dizer que sou pai, no sentido em que a palavra é entendida, desde nove meses antes do dia 11 de maio de 1988, quando li, naquele exame, a palavra “reagente”. Sim, estávamos grávidos novamente e, desta vez, haveria de dar certo.

Perdêramos o primeiro, a quem demos o nome de Juraci, um nome tupiniquim pois foi espontaneamente abortado aos três meses de gravidez; impossível saber se era menino ou menina - Juraci servia para os dois e assim é cultuado para receber Luz no Plano Espiritual.

Aquele aborto foi uma barra pesadíssima.

Por mais que o Dr. Natal (Natal Marques da Silva, obstetra) tenha parado todas as consultas e gasto um tempo enorme naquela sala no andar térreo da clínica explicando-nos o que acontecera e o porquê daquilo, foi um momento de muita dor.

Já tínhamos mais de oito anos de casados e era hora de aumentarmos a família. A ansiedade era grande e aquilo deitou por terra nossos sonhos.

A barra aumentou, pois todos pensavam na minha mulher, na Rita e pelo que ela passara e mandavam que eu segurasse a barra dela etc e tal, o que era natural. Mas... e eu?

Sofri tanto quanto ela e com um agravante: as pessoas não se aperceberam disso e eu fui guardando, minando aquele sentimento, remoendo-o dentro de mim.

O tempo passou, as marcas cicatrizaram e novamente defronto-me com a mesma palavra: reagente. A notícia da segunda gravidez veio exatamente no dia 30 de setembro de 1987, meu aniversário.

O tempo foi passando e havia um grande bloqueio entre mim e aquele serzinho dentro de uma barriga cada vez maior.

Na primeira vez, eu brincava, conversava, trocava confidências com nosso bebezinho ainda em formação, sem o menor problema ou constrangimento. Curtia cada momento.

Contudo, como diz o velho ditado, gato escaldado tem medo de água fria e agora existia o receio de repetição do fato.

Só aos cinco meses de gravidez, numa noite de janeiro, conversei a este respeito com a Rita e me abri.

Expliquei-lhe o que havia acontecido quando do aborto e o bloqueio advindo com aquela tristeza toda e só a partir daí comecei a me soltar, a confiar que tudo daria certo.

E deu!

Lá estávamos nós, na sala de cirurgia, para o parto. Sim, nós, afinal não haveria quem me fizesse ficar em uma sala de espera exatamente quando nossa família estava efetivamente formando-se. Ela na cama e eu a postos com a máquina fotográfica na mão.

Cinco minutos antes das nove da noite veio à luz aquele serzinho. Na hora nem identifiquei se era menino ou menina.

- É uma linda menina! Disse-nos o Dr. Natal.

Não ser um menino foi um pensamento que passou mais veloz que um raio pela minha mente. Ali mesmo comecei a curtir aquela bonequinha de 51 cm e 3,660 kg que Deus nos dera para amar e cuidar.

Um ano e nove meses depois do nascimento da Camila, nossa família era completada com outro presente de Deus.

Sempre disse a todos que gostaria de ter um casal. Primeiro um menino e depois uma menina, algo mudado com a experiência de ser pai de uma menina.

Alguns dias antes daquele 15 de fevereiro, eu havia comentado com a Rita:

- Bem poderia ser outra menininha, né? Muito legal!

Bingo! Uma e quinze da manhã - tinha de ser na madrugada... rrssss - e quase nascida durante o banho no quarto da maternidade, vinha a Natália com seus 49 cm e 3,420 kg

Foi tudo tão rápido que coloquei a roupa para entrar na sala de parto muito às pressas e o único chinelo que havia era um tamanho 33. Fui com ele mesmo no meu “pezinho” 43.

Agora era ser pai em sua plenitude.

De setembro de 1979 a maio de 1988 éramos só eu e a Rita, curtimos tudo o que havia para curtir. Agora era a hora e a vez das meninas.

A vida mudou totalmente.

Para mim, filho não é um troféu a ser exibido nas horas fáceis (só não dei peito por não ter leite, mas fraldas e tudo o mais era comigo mesmo).

Filho é para ter pai e mãe. É para ser educado, criado com amor para que se torne um ser humano de primeira linha.

Tenho orgulho, e creio nisso, de ter sido um pai amigo e educador.

Ciente de que aqueles primeiros anos seriam bastante importantes para a formação delas, aproveitei ao máximo todo o tempo. Sem bater, sem gritar, mas educando com respeito e sem dó - quem tem dó, não educa.

Se fosse preciso ser rígido, era. Mas sempre consciente, sem perder a razão para saber exatamente como agir. Medo de mim nunca tiveram ou precisaram ter.

Eu não as levava para passear, ir à praia ou sei lá onde. Eram elas que me levavam. Os passeios eram delas e sabiam que ali estava um pai pronto para topar qualquer brincadeira e jamais as deixaria na mão.

Pequenos detalhes me dão orgulho até hoje.

Pré-adolescentes, certa vez uma das amigas disse-lhes algo do tipo:

- Vocês são as únicas do grupo que quando começarem a namorar vão falar primeiro para o pai e não para a mãe.

A Camila, então, deu-me um presente inusitado - o melhor que ganhei em todos os tempos: convidou-me a fazer faculdade com ela. Fomos colegas de classe no curso de Jornalismo.

Eu sabia que um dia elas cresceriam, como cresceram - a mais velha já está casada com um homem que ama e a ama -, e parariam de me ouvir como ouviam antes, não por não me acreditarem, mas sim por terem suas opiniões formadas e serem donas de suas ideias e ideais.

Por isso, repito, aproveitei ao máximo toda aquela época em que me ouviam. Ensinei-lhes o máximo que pude e tenho orgulho de, por exemplo, poder sentar-me à mesa com elas, em qualquer restaurante, sem passar vergonha ao vê-las no simples uso dos talheres. Sabem se portar em qualquer ambiente.

Seguras de si, são educadas e respeitosas e, cá entre nós, é fácil gostar delas - sem corujice. rrsss

Continuo sendo um pai orgulhoso e continuo a fazer coisas por elas que elas sequer imaginam que faço e elas podem ter a certeza de sempre contar com este pai que as ama muito.

Se cometi erros? Claro. Não sou perfeito e nem o melhor pai do mundo, mas fiz o que sabia com a melhor das intenções e acredito que consegui incutir nelas o melhor, ajudando na formação do caráter de ambas para serem dignas como o são hoje.

Obrigado filhas por terem me ensinado muito, assim como sua mãe o faz.

Vale a pena ser pai de vocês, a quem amo vocês incondicionalmente e sempre amarei.

domingo, 19 de outubro de 2014

Viva a amizade

Viva a AmizadeAo descer a escadaria de sua casa, Amanda parou estática no patamar, olhou para a mãe e algumas lágrimas escorreram pelos lindos olhinhos azuis.

Mas, qual a razão disso? Por que teria Amanda chorado ao ver a mãe?

Voltemos um pouco no tempo...

Amanda era uma menina como outra qualquer. Bem... quase.

Na altura de seus 14 anos, tinha um grande futuro pela frente, mas antes de todo o futuro, haveria a festa dos 15 anos, a qual estava programada para acontecer junto com as das amigas Rita, Marisa e Léa. Elas formavam um quarteto inseparável.

Todas fariam 15 anos em uma distância muito curta de tempo e comemorariam com uma grande e única festa.

A diferença entre o nascimento delas não chegava a três semanas.

Conheceram-se no primeiro dia de aula, ainda na pré-escola, e nunca mais se largaram.

Faziam tudo juntas e a cada encontro era uma conversa sem fim.

Embora sempre uma ao lado das outras, os assuntos eram intermináveis e brotavam do nada. Quem as visse, sem as conhecer, cria que há muito não se viam e tinham muita conversa para pôr em dia.

Mesmo quando estavam longe, estavam conectadas.

Valia de tudo; desde o velho Skype, passando pelo SMS, pelo Instagram, pelo Facebook, até o Whatsapp e o que mais aparecesse. A ferramenta não importava, desde que se comunicassem.

A vida naquela cidadezinha do interior paulista, às margens do Rio Paraíba, era tranquila, cujo sossego somente era quebrado por algum apronto do quarteto junto com outros amigos.

Elas dominavam os adolescentes da cidade, chamados por eles próprios de a Gangue do Bem.

Claro, como jovens, sempre aprontavam das suas, mas em compensação, sempre estavam atentos para atender às necessidades de alguém.

Precisou? Logo aparecia um para ajudar.

Todavia, Amanda começou a perder peso, sentia-se mal com dores de cabeça além de uma estranha sensação de fraqueza.

Os pais a levaram para uma consulta ao médico que, ao olhar Amanda e uma rápida análise, sugeriu alguns exames específicos.

- Nada preocupante. Vamos fazer estes exames e verificar se minhas suspeitas têm fundamento. É muito no início e tudo fica mais fácil. Disse o doutor.

Como não se preocupar com um possível diagnóstico de leucemia?

Os pais, tentando parecer fortes perante a filha, estavam arrasados.

Os exames foram feitos e o doutor, algo que só acontece nas cidadezinhas do interior, foi à casa dos pais de Amanda com os resultados.

Dona Celeste chamou a filha, que estava no quarto, no andar de cima.

Bem, voltemos ao início...

Ao descer a escadaria de sua casa, Amanda parou estática no patamar, olhou para a mãe e algumas lágrimas escorreram pelos lindos olhinhos azuis.

Ao ver o médico e a expressão da mãe, teve a certeza de que, para tristeza de todos, os resultados comprovavam as suspeitas do médico. Leucemia!

Enxugou os olhos e desceu as escadas.

Não acreditava no que lia. Tinha apenas 14 anos e nada daquilo era justo.

Com a família reunida na sala, o médico explicou tudo o que podia sobre a doença, a importância de estar no começo e respondeu todas as perguntas feitas.

Indicou um Oncologista amigo dele que poderia cuidar da Amanda da melhor forma possível.

E assim começava uma nova etapa na vida daquela jovem. Iniciava-se ali uma caminha de trajetória difícil e não sabida.

Amanda reuniu todas as suas forças e disse em voz clara e firme:

- Vamos em frente. Vamos vencer esta droga de doença.

Os dias foram passando e por causa de um dos tratamentos aos quais ela se submetia, a quimioterapia, os cabelos foram caindo.

Ela ficou horrorizada com isso.

Como não havia jeito, a mãe a levou para São José dos Campos onde havia um especialista em perucas para pessoas com câncer.

Por algumas fotos enviadas previamente, foi confeccionada uma peruca bem parecida com o cabelo de Amanda.

Ao chegar, elas aprovaram a peruca, o pessoal da loja cortou os cabelos de Amanda, utilizando uma máquina número 3 e foram-lhes passadas todas as dicas de como usar, tratar e lavar os novos cabelos.

Ficara bem demais e Amanda voltou às ruas sem qualquer vergonha, algo que estava sentindo há algumas semanas. Ainda bem que eram férias escolares e não precisava ficar tão exposta, pensava ela.

As amigas acharam linda a peruca e até se divertiram bastante com Amanda, mas de forma alguma ela a tirava da cabeça, nem para as amigas, o que era respeitado.

A calvície forçada mexera muito com a cabeça da menina.

Chegara o grande dia. O dia mais esperado do ano, mas que correu um sério risco de não acontecer.

As amigas convenceram Amanda de que a vida continuava e tinha de ser bela como antes, e não haveria um porquê de não ser.

Com muita conversa, todas concordaram que nada, absolutamente nada, poderia estragar a festa delas - ou todas participariam ou não haveria festa.

Na hora combinada para irem ao salão do clube, as três amigas foram à casa de Amanda para buscá-la.

Dona Celeste chamou a filha, que estava acabando de se arrumar no quarto. Finalizou o acerto da peruca, prendendo-a bem para não correr o risco de cair ou mesmo sair do lugar e foi ao encontro da mãe.

Ao descer a escadaria de sua casa, Amanda parou estática no patamar, olhou para a mãe e, desta vez, muitas lágrimas escorreram pelos lindos olhinhos azuis.

A mãe, assim como o pai, também estava chorando.

As três amigas e todos os 15 casais formados pelos amigos mais chegados delas, estavam ali, aos pés da escada, esperando por Amanda.

Todos, homens e mulheres, de cabeça raspada.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Família Unida

clip_image002Formavam uma família tranquila, bem unida e com os filhos criados sob uma batuta tradicional e bastante conservadora.

O pai, severo, mas bem ciente do quanto amava os filhos, mantinha atitudes sempre bem pensadas e com isso conquistara o respeito de toda a família.

A mãe, dona de casa superconsciente, possuía sua parcela de autoridade mas, mãe é mãe. Era com ela que os pequenos se abriam ou procuravam um abrigo seguro quando aprontavam demais.

Moravam no subúrbio e a vida da família era tocada na mais perfeita ordem, com todos convivendo harmoniosamente inclusive com os vizinhos. Só havia um problema a ser solucionado: o namoro da filha do meio, sabido pela mãe e escondido do pai.

Todos os dias elas conversavam a respeito, pois aquele namoro escondido não poderia continuar daquela maneira. O pai precisava saber.

Tinham de falar com ele o quanto antes. Quanto mais o tempo passava, pior ia ficando.

Numa noite de verão, chovia muito lá fora e as duas, junto com a caçula, acharam que chegara a hora daquela conversa há muito adiada.

O pai chegou a casa todo molhado e lá foram elas para recebê-lo com a maior cara de solidariedade pelo estado do coitado. Mas, algo as preocupou. Havia qualquer coisa errada ali.

O semblante do pai estava taciturno, sombrio, com um ar de quem estava muito preocupado.

Elas se calaram, com certeza não seria a hora de tocarem no assunto namoro. Esperaram alguns minutos, um silêncio que parecia perdurar para sempre, até que o pai falou:

- Vamos ter de nos mudar!

- Como?! Gritaram em uníssono.

- É, os donos da casa vão demoli-la e nós temos de sair o quanto antes.

- Assim? Do nada? Inquiriu a mãe, aflita.

- Sim querida. Amanhã mesmo vou procurar um outro lugar para nós.

A tristeza tomou conta do ambiente. Ali viveram seus primeiros dias, as crianças nasceram, foram criadas e fizeram amigos.

Ali a filha do meio começara a namorar... oops, melhor deixar o namorado de lado e não tocar mais neste assunto.

Foi uma noite terrível para todos.

Logo que amanheceu, o pai saiu em busca do novo lar, tentando fixar e acreditar nas palavras que havia dito à esposa: nosso lar é onde estivermos, não importa o lugar.

Um dia todo de buscas e nada. Voltou para casa cansado e meio que desolado.

A esposa procurou incentivá-lo da melhor maneira possível. O mundo era um lugar muito ruim com o amado abatido daquele jeito.

A casa ia ser demolida e eles já deveriam estar fora de lá.

- Maldito tempo que passa rápido demais. Reclamava o pai.

Naquele dia, tomou a decisão de pegar a primeira casa que encontrasse disponível. Não poderia esperar mais.

Acabou por achar uma não muito longe de onde moravam. Positivamente não era do agrado mas, o que fazer?

Voltou para casa tentando fazer uma cara de quem estava contente e comunicou a mudança iminente. Iminente? Não, imediata.

Por respeito, avisou que não era o ideal, que teriam de superar certos problemas, mas que poderiam ser felizes mesmo naquelas condições. Foram todos juntos conhecer o novo lar.

Ao chegarem, a esposa não se conteve:

- Que nojo!

Os filhos fizeram coro:

- Que coisa nojenta!

- Nojo é pouco!

- Argh... vou vomitar!

A primeira impressão marcou pra valer, mas não tinham opção. A mudança era inexorável.

- Querido, nós mudamos, mas, agora que temos tempo, vamos procurar algo melhor. Não dá para viver ou criar nossos filhos neste antro nojento.

- Eu sei querida, nós vamos achar algo bem melhor que isso. Algo em condições habitáveis e que dê até para receber nossos amigos – aqui é impossível.

- Eu morreria de vergonha se alguma amiga minha visse isso.

- Pois é, querida. O que podemos fazer para melhorar as coisas por aqui?

- Não sei nem por onde começar. Veja esta sala, não há um mínimo grão de poeira. A cozinha com o piso brilhando de tão limpo, nada acumulado na pia... isso é insuportável.

- É querida, você tem razão. Viu a despensa? Tudo arrumado em potes, limpo até nos cantos. É demais!

- Bem, amanhã, enquanto você procura outro lugar para nós, para acalmar as crianças, vou levá-las até o lixão. Não há como uma barata, de bom gosto como eu, criar seus filhos aqui.

terça-feira, 30 de abril de 2013

Manifestação Espiritual

Aparição

Ilustração feita pelo Luiz Rafael da Caricômicos,

um parceiro indicado por este Blog.

Eles mantinham um Centro Espírita, um desses de mesa branca que só procuravam fazer o bem.

Viviam pelo certo e buscavam passar isso às filhas, incutindo nelas o desejo de fazer o certo não por haver leis divinas ou humanas que assim mandassem, mas simplesmente por ser o certo a fazer.

Odete, a mãe, dividia sua vida entre os afazeres domésticos e os atendimentos no Cento Espírita, local onde, com boa afluência de pessoas ávidas por um contato com entes queridos que já haviam partido, psicografava algumas cartas, bilhetes ou, às vezes, dizeres ininteligíveis.

Ela, até por esse contato com o plano espiritual sempre dizia que quando partisse faria de tudo para manifestar-se em algum momento. Assim poderia dar notícias e apaziguar a dor de suas amadas filhas e marido.

As filhas, pela criação, ainda eram virgens. Ambas, apesar dos namoros antigos, guardavam-se para o grande dia, para a primeira noite. A mais velha, já noiva, estava de casamento marcado.

Diziam todos que era uma família tradicional, ultraconservadora. Eram felizes em seu modo de ser, sempre preocupados em atender as pessoas e fazer o bem.

Eles tinham o “Dia da Família”. Toda quarta-feira, das 20 às 22 horas a televisão era desligada, e, ao som de algumas músicas suaves, acomodavam-se na sala de estar apenas para conversar entre eles.

Não era uma reunião, era apenas jogar conversa fora. Um papo entre amigos, o que os aproximava ainda mais. Às vezes o namorado e o noivo também participavam e, diga-se de passagem, curtiam muito aqueles momentos.

A vida foi passando e os dias acontecendo de forma natural até que a mãe caiu doente. Ninguém sabia o que ela tinha.

Foi uma via sacra por hospitais, médicos, ambulatórios e salas de emergência quando as crises aumentavam e ela definhando cada vez mais sem que alguém descobrisse a causa.

Uma manhã ela chamou o marido e as filhas e afirmou que estava pronta para partir.

Sentia que já havia vivido o suficiente para cumprir sua missão aqui na Terra e que todo aquele sofrimento era tão somente uma preparação para que ela, espiritualmente, compreendesse que a passagem era iminente e se aprontasse para ir.

Então, em vez de sofrerem, todos deveriam agradecer já que entendia a importância daquela preparação para evitar um desatino na hora da passagem do plano material para o espiritual.

Todos choravam à sua volta e ela, firme em seu propósito, lembrou que tudo deveria seguir seu rumo normalmente. A filha se casaria na data marcada e, tão logo reunisse condições para tal, manifestar-se-ia de alguma forma para dar notícias.

E assim foi. Em uma bonita tarde de sol ela se deitou para descansar e... descansou.

Em seu velório, feito no Centro Espírita, acorreram muito mais pessoas do que eles poderiam imaginar em seus mais promissores pensamentos.

Foi aí que notaram como ela era querida.

O pai chamou as filhas, abraçou-as dizendo:

- Hoje tenho certeza de que quando sua mãe nasceu, todos sorriam e só ela chorava e agora, todos choram e só ela sorri. Ela fez a vida valer a pena.

Em um cemitério lotado de pessoas e flores, muitas flores, o corpo dela foi guardado no túmulo da família, junto com os pais e um irmão mais velho.

Passado algum tempo, a vida se normalizara. Claro que dor e saudade faziam-se presentes no dia a dia da família, mas, lembrando das palavra da mãe, todos procuravam viver da melhor forma.

Palavras da mãe... e a manifestação prometida? Será que ela conseguiria aparecer, conversar conosco? Perguntavam-se.

- Talvez em uma de nossas quartas-feiras, disse, bem lembrando, a caçula.

Os dias passavam e nada acontecia. Toda quarta-feira era esperada com grande ansiedade e passava com um grande nó na garganta, um misto de desapontamento e dor.

Mas, como a vida seguia seu curso, o grande dia chegou. Casamento.

A cerimônia transcorreu perfeitamente, a recepção foi maravilhosa. Tudo acontecia de forma tão simples e perfeita que dava a impressão de que a mãe estava ali, tomando conta de tudo, como sempre.

Tudo acabado, a noiva, agora Sra. Oliveira, estava no banheiro do quarto do hotel arrumando-se sem parar de pensar no momento em que, finalmente, se entregaria ao noivo, que dizer, marido.

Seus devaneios pararam quando notou um frio que lhe fez arrepiar todos os pelos do corpo. Seria ansiedade pelo grande momento de, pela primeira vez, fazer amor em sua plenitute, algo há muito esperado?

Mas, sentindo uma presenta atrás de si, voltou-se, viu e não se conteve:

- Mamãe! Você conseguiu manifestar-se, posso vê-la perfeitamente!

- É mesmo filha?

- Sim mamãe, mas, poxa, tinha de ser justo agora, em minha noite de núpcias. Bem hora do enfim sós?

sábado, 12 de janeiro de 2013

Gravidez

Ilustração: Equipe Caricômicos Gravidez JAN2013

Olavo era um homem de manias, daqueles que têm necessidade de ter tudo arranjado da melhor forma possível para evitar surpresas ou contratempos.

Surpresa era algo que ele abominava. Eram insuportáveis, pois não davam tempo para se preparar e, invariavelmente, Olavo terminava com cara de bobo. Odiava isso.

Sempre metódico, levava uma vida sossegada e era sereno, tranquilo.

Mas essa calma durou só até o meio-dia daquela quarta-feira. Uma chamada telefônica da mulher dele, no escritório, foi a surpresa das surpresas.

- Querido, vamos ser avós! Ela está grávida!

Olavo caiu sentado, quase sem sentidos.

Não ouviu mais nada. Desligou o telefone sem entender como a mulher podia estar tão radiante com uma notícia daquelas.

Natália, a filha única do casal, estava cursando o oitavo ano do ensino fundamental, contava com somente 13 anos e positivamente não tinha idade para ser mãe.

Como conciliar os estudos, para a filha ser alguém neste mundo, com a gravidez, a maternidade e todas as responsabilidades que viriam? Era impossível, impraticável!

Saiu para a rua, andando a esmo. Perdido em um mundo de confusões, de pensamentos aleatórios que não faziam sentido, mas que fervilhavam em sua mente.

Queria concatenar as ideias, entender aquela situação, a reação da esposa. Nada fazia sentido.

Para ele, a filha sequer estava namorando. Bem, isso era algo que ele podia entender: com certeza estava de namoro escondido e com algum pilantra irresponsável que a abandonaria à própria sorte sem querer saber da criança ou, pior, iria propor um aborto - além de tudo, mataria seu neto e poria a vida da filhinha em risco. Nem pensar!

-- Ah se eu pego esse filho da mãe, esse aproveitador! Pensava, pensava não, gritava alto consigo mesmo, tentando arrumar algum culpado por aquela situação já que, evidentemente, a culpa não seria da filhinha querida. -- Certeza de que ela foi enganada.

Sem rumo, parou em frente a uma loja de artigos para bebês e começou a olhar as vitrines, imaginando se seria menina ou menino.

Caiu em si. Como não poderia fugir a esse destino, por pior que fosse, daria todo o apoio à filha. Não dava para ser diferente.

Entrou na loja e comprou um macacãozinho verde-água, uma cor que serviria para qualquer sexo, uma manta para envolver o beber e mais um par de sapatinhos. Tudo para o momento da grande saída da Maternidade, particular, claro. Não dava para imaginar a filha sendo atendida pelo SUS.

Depois foi a uma farmácia e comprou uma grande quantidade de fraldas descartáveis para recém-nascidos.

Chegaria a casa em grande estilo, mostrando para a filha que ela poderia confiar nele e que ela teria uma gravidez tranquila.

Guardou o carro na garagem, pegou todos os pacotes e entrou em casa com um grande sorriso nos lábios chamando:

- Cadê aquela menina linda que vai nos dar um netinho ou netinha para fazer brilhar ainda mais esta casa???? Cadêêê?????

Em resposta vê a mulher chegando toda contente, com a cadelinha Shi-tzu no colo:

- Olha Hanninha, o papai chegou todo contente também. Só porque a nossa garotinha vai ter filhotinhos.

E o coitado não se conteve:

- COMO?
- Quem está grávida é a cachorra?????????????