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domingo, 8 de fevereiro de 2015

Por um mundo não comunista

Muro de Berlim

Queda do Muro de Berlim - Novembro de 1989

Foto: Gavin Stewart

Dia desses li uma frase que me chamou a atenção.

Era algo assim:

              “Comunista é aquele que leu Marx.
               Anticomunista é aquele que entendeu Marx.”

Esperem, vou pôr um parêntese aqui:

Não estou comentando sobre partidos políticos, quaisquer que sejam, vamos deixar isso bem claro aos antipetistas e aos petistas. Não quero abrir discussões sobre isso aqui.

Bem, voltemos ao texto.

A ideia do comunismo não é algo recente, e nem é tão fruto assim da imaginação de Karl Marx e seu amigo Engels. Platão (427-347 a.C.) já pensara isso lá atrás... bem lá atrás, afinal foi antes de Cristo.

O filósofo grego queria extinguir as propriedades privadas e as famílias; os filhos seriam criados pelo Estado, tudo em prol da comunidade, cujos interesses sobrepujariam quaisquer interesses individuais.

E todo mundo “viveria igual, feliz e quietinho”, como vaquinhas em um presépio.

Na Idade Média, os feudos e o exagerado enriquecimento da Igreja também deram origem a movimentos com o intuito de abolir as desigualdades. Alguns religiosos, eu diria: os mais espertos, defendiam que a nobreza fosse extinguida e apoiavam a revolta dos camponeses como base para uma nova justiça social.

O Britânico Thomas Morus, no século XVI, também questionava os valores da época em favor de uma sociedade ideal. Ele escreveu “Utopia”, obra que apontava bases para que o comunismo subordinasse a individualidade em favor do coletivo.

No século XVII, com a Revolução Inglesa, os trabalhadores reivindicaram o fim das propriedades privadas e que as riquezas fossem igualadas coletivamente.

Como se pode ver, comunismo é algo que vem sendo tentado há mais de 2400 anos, sem sucesso.

Marx, de quem muito se fala hoje em dia, não fugiu às regras das tentativas anteriores.

Resumindo, bastante, a ideologia de Karl Marx:

Acabam as desigualdades; as classes subordinadas tomam o controle do Estado.

Desta forma, ao novo Estado, agora gerido pelas classes subordinadas, fica a missão de pôr em prática mudanças a favor do fim das desigualdades, não só sociais, mas também econômicas.

Um governo fixado nos interesses dos trabalhadores que ao longo do tempo reforçaria a ideia do comunismo, culminando com a extinção do Estado em favor da sociedade, uma sociedade em que as riquezas seriam distribuídas igualmente àqueles que contribuíssem com sua força de trabalho. Nem pobres, nem ricos.

É isso que Karl Marx tratou na obra O Capital. Em seu livro, ele defende a tomada do poder pelos empregados das fábricas e a adoção de uma economia planejada que poria fim às desigualdades e supriria todas as necessidades dos indivíduos.

De todas essas tentativas infrutíferas de fazer valer um Estado proletário, tiro uma conclusão bastante simples: o ser humano é dotado de sentimentos? Se a resposta for um sim, toda a teoria vem por água abaixo.

A meu ver, o comunismo somente daria certo em uma comunidade robótica, em que ninguém tivesse vontade ou qualquer outro sentimento. Contudo, uma lobotomia geral não faz sentido algum.

Insisto que se pensam nisso desde Platão, há mais de 2400 anos e, nesse tempo todo, não deu certo, por que daria agora? Não deu, não daria e nunca dará - o ser humano continuará sendo um ser pensante, com vontade própria.

O muro caiu na Alemanha comunista, terra de Marx, e ela se juntou à Alemanha Ocidental porque viu que não dava mesmo certo. Fim do comunismo no país, ou melhor, fim do país.

A outrora forte União das Repúblicas Socialistas Soviéticas desmembrou-se e hoje temos eleições presidenciais na Rússia.

Dois bons exemplos de países com pessoas inteligentes que souberam ver a impossibilidade da aplicação do comunismo, haja vista que, na época, o povo vivia à míngua e os poucos no poder cada vez mais fortes e ricos. Quede a distribuição igualitária que nunca houve?

Outros dois exemplos marcantes: Cuba e Coreia do Norte - dois países notadamente comunistas em que o povo nada tem e os donos do poder vivem uma vida nababesca.

Onde foram parar as ideias da divisão, da igualdade? Fim do Estado? Só rindo para não chorar.

Acabo dando razão ao dono da frase acima e, vou além:

No mundo sempre valeu muito mais o ter que o ser. Por isso acho que o comunista, tendo ou não lido Marx, deixa de ser comunista:

a) No primeiro instante em que cessar a locupletação que o sustenta.

b) No primeiro instante em que for prejudicado de forma direta, principalmente se afetado em sua economia,  pelas ações do comunismo.

Os que entenderam, perceberam que as ideias são mais que utópicas, que o ser humano não é um dos personagens sagrados do livro A Cabana (Elousia, Emanuel e Sarayu), especialmente no trecho abaixo:

- “... não existe o conceito de hierarquia entre nós, apenas de unidade (...). 
Os humanos estão tão perdidos e estragados que para vocês é quase incompreensível que as pessoas possam trabalhar ou viver juntas sem que alguém esteja no comando.”

Esta é a minha opinião. Cada um tem a sua.

Sugestões de leitura:

1) Um experimento socialista

2) A Cabana. Não leu? Clique aqui e leia minha resenha postada em 22/09//2009.

domingo, 11 de maio de 2014

O Estupro

O Estupro MAI2014Meio tarde da noite e Cecília voltava da faculdade. Como sempre, pegou o mesmo ônibus, desceu no mesmo ponto e passou a caminhar as mesmas três quadras até sua casa.

Rotina para finalizar mais um dia de trabalho e estudos.

Mas, naquele fim de dia, algo lhe despertou a atenção. No silêncio da noite, havia um som que lembrava um choro de criança ou um filhote de cachorro.

Parou, prestou atenção e notou que aquele som vinha do prédio em construção distante duas quadras de sua casa.

Preocupada com o que pudesse ser, entrou no prédio para prestar a ajuda que pudesse, se fosse o caso.

Chamou por alguém... nada. Só o choro continuava e agora ela estava certa de se tratar de uma criança.

Mais alguns passos, e viu, num clarão, um rosto malévolo e sem qualquer ar amigável.

Na sequência, acompanhada do brilho da lâmina de uma grande faca, ouviu a ordem de não fazer barulho.

Mais 20 minutos e lá estava ela. Nua, sozinha, inerte, sem ação. Havia sido usada, sodomizada, estuprada de todas as maneiras.

Reuniu forças sem saber de onde, vestiu-se como pôde e foi para casa. De lá, um pai e uma mãe, extremamente chocados levaram-na ao hospital.

A partir daí, mais sofrimento.

Delegacia, BO, IML, exame de corpo de delito, interrogatórios... sentia-se um objeto. Queria calor humano, voltar para casa e tentar esquecer tudo aquilo.

Alguns dias se passam e ela é chamada à delegacia. Haviam prendido um suspeito e precisavam saber se ela o reconheceria.

Na delegacia, antes de ela chegar, o delegado chama o escrivão:

- Paulo Roberto, quero que você ponha mais quatro indivíduos junto ao suspeito. Só para termos segurança no reconhecimento.

- Tudo bem doutor, mas temos só três pessoas aqui na delegacia. Vai faltar um.

- Pegue alguém que esteja passando na rua. Diga que é para colaborar e não vai demorar nada.

- Ok, doutor.

Quando ela chega, vê os cinco “suspeitos” por um olho mágico e, de imediato, reconhece seu algoz.

Concomitantemente, um filme passa por sua cabeça. Revê cada detalhe, todas as cenas revestidas de brutalidade pelas quais passara.

- É o número três. Tenho certeza.

- Verdade, senhorita? Arguiu o delegado.

- Sim! Respondeu enfática.

- Temos um problema. Na certa você está confusa, pois o três não passa de um transeunte que pegamos ao acaso na rua e se dispôs a colaborar.

- Como assim? Perguntou uma incrédula Cecília.

- Ele é um pai de família - continuou o delegado - sem ficha policial, trabalhador e que só aceitou um pedido nosso para que participasse do reconhecimento fazendo-se passar por um dos suspeitos.

Em seguida, virou-se ao escrivão:

- Paulo Roberto, pode dispensar o sr. Acácio com nossos agradecimentos e desculpas.

Ela não se conformava. Aquilo não poderia estar acontecendo. Era um rosto que ficara gravado em sua memória - não havia engano.

Chorou ao vê-lo indo embora.

A mãe tentava conscientizá-la do engano pois, como o delegado falara, não era possível ser aquele homem. Ela estava sendo levada por impulsos oriundos dos sofrimentos pelos quais passou e ela precisava deixar a razão tomar conta.

Cecília mantinha pé firme: - É ele!

Paranhos, um investigador das antigas, achou muito estranha toda aquela convicção da moça e, por isso, resolveu seguir o cidadão.

Ao sair da delegacia, entrou em um bar e pediu um conhaque.

Paranhos entrou logo atrás e, casualmente, parou ao lado dele no balcão.

Puxou conversa dizendo que vira a cena, que a moça só podia estar equivocada devido ao trauma etc e tal.

Com a conversa, o investigador foi adquirindo a confiança daquele homem. Acácio, por sua vez, abria-se cada vez mais.

- Também fiquei chocado com a atitude dela. Quando topei ajudar jamais pensei que isso fosse acontecer.

- Pois é. Nós também e o coitado do delegado ficou sem saber o que fazer e achou melhor dispensá-lo logo. Com certeza é fruto do trauma sofrido. Temos de entender o lado psicológico em que ela vive no momento.

- É verdade, concordou Acácio. - Mas, venhamos e convenhamos, não é meu amigo? Como uma moça entra em um prédio em construção, tarde da noite, por que acha que ouviu o choro de uma criança? Há de se tomar muito cuidado com esse tipo de coisa.

- É verdade, “meu amigo”. Respondeu Paranhos. - Mas, me diga uma coisa: como você sabe desses detalhes se lá na delegacia ninguém falou nada sobre isso?

Sorte? Destino? Não se sabe, mas a faca encontrada em poder de Acácio e o exame de DNA provaram que Cecília estava certa.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Porto de Santos, um porto usado

Foto Raul SoaresO lado triste e humilhante da história do Porto

Há exatos 50 anos, na manhã de 24 de abril de 1964, um navio de casco negro apontou sua proa para a entrada do canal do estuário do Porto de Santos.

Puxado por dois rebocadores já que não possuía condições de navegar por si próprio, o navio, com o nome de Raul Soares, embrenhou-se pelo canal até as proximidades da ilha de Barnabé, onde fundeou sobre um banco de areia e ali ficou, estático, deitando sua sombra não só sobre as águas do canal mas por toda a Santos, simbolizando o que de mais terrível a ditadura poderia trazer para a cidade.

Em sua história, este navio reúne passagens gloriosas. Fora construído em 1900 na Alemanha e, batizado com o nome de Cap Verde, tinha capacidade para 488 passageiros e 100 tripulantes. Depois, rebatizado com o nome de Madeira, passou a ser utilizado como um navio misto - carga e passageiros - e, em 1925, já obsoleto, foi comprado pela companhia Lloyd Brasileiro.

Seus dias de maior glória aconteceram durante a II Guerra Mundial quando, como Raul Soares, transportou pracinhas da Força Expedicionária Brasileira para e da Europa.

Aposentado, recolhido e esquecido no cais de Mocanguê, no Rio de Janeiro, ele foi trazido para Santos pelo rebocador Tridente a fim de cumprir sua última e mais humilhante missão: servir, por ordem dos militares, como presídio no Porto de Santos.

Cinco dias após ter fundeado no canal do Porto, no meio da tarde, a lancha Bartolomeu de Gusmão, sob a atenta vigilância de soldados armados com metralhadoras, fazia o transbordo para o Raul Soares de seus primeiros “hóspedes”: 40 sargentos do exército que se tornaram os primeiros encarcerados no navio-presídio.

Centenas de pessoas acompanharam, do cais, o embarque dos primeiros “presos políticos” na tentativa de reconhecer entre eles alguns amigos ou parentes presos em algum lugar. Muitos desses amigos ou parentes realmente acabaram nos porões infectos antes que 1964 acabasse.

Em sua versão oficial, o governo alegava que o navio havia sido deslocado para Santos com o intuito de suprir a falta de presídios para abrigar as muitas pessoas detidas pela ditadura militar.

Contudo, mais forte que uma possível necessidade de fazer frente à crescente demanda de presídios, o Raul Soares era, acima de tudo, um símbolo colocado em uma cidade que, para os organizadores do golpe, representava grande perigo, afinal Santos era uma cidade que tinha vida cultural e política com brilho próprio, fazendo com que cada segmento fosse forte na conquista de seus espaços.

Em entrevista no final da década de 1980, pós-ditadura, Antonio Erasmo Dias, que em 1964, além de major do Exército, era um dos líderes militares do golpe de Estado na Baixada Santista, afirmou: “É claro que o Raul Soares não foi trazido para cá por necessidade de mais prisões. O motivo era psicológico, é evidente”.

Na visão dele, Santos era palco de um grande risco ao golpe. Era onde o esquerdismo adquirira uma força potencial que não existia no Brasil inteiro. “A Câmara de Santos era dominada pelos comunistas, o prefeito de Santos era ligado aos comunistas (...). Aqui tinha um tal de Fórum Sindical de Debates que parava Santos quando queria”.

Hoje, esta imagem de “Cidade Vermelha” ou ”República Sindicalista” que os militares queriam passar não resiste ao mais simples estudo histórico.

Com suas torturas físicas em que castigos impostos de forma gratuita eram proporcionais à rebeldia do preso e à coragem de reagir com dignidade aos maus tratos e humilhações e as psicológicas, quando dizia-se, por exemplo, que o navio seria rebocado para alto mar e nenhum preso voltaria, o Raul Soares foi um instrumento nas mãos dos militares desde aquele 24 de abril até 23 de outubro de 1964 quando foi desativado e a maioria dos presos foi libertada e processada, além de ter os direitos políticos cassados por dez anos.

Seis meses que deixaram uma mancha negra na história do Porto de Santos. Mancha que muitos preferem esquecer, mas que tem de ser lembrada até em respeito à memória daqueles que morreram, desapareceram ou sofreram a bordo daquele navio de casco negro.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Almas roubadas

A TrevaLauro teve uma vida tranquila até que completou seus 19 anos de idade.

A partir daí, coisas estranhas, muito estranhas começaram a fazer parte de seu dia a dia.

Tudo começou em um final de tarde de uma noite quente de verão.

Sozinho em casa e assistindo a um programa qualquer no televisor, sem dar-lhe importância, o rapaz sentiu um calafrio que gelou sua espinha.

Apesar de estranhar o ocorrido, Lauro não ligou para aquilo. Algo passageiro, imaginou.

Mas, a sensação permaneceu e o frio na espinha continuava.

Levantou-se, desligou o aparelho e foi tomar um banho, aprontar-se pois a noite prometia.

Ao entrar no banheiro, sentiu um frio imenso sem saber de onde poderia estar vindo, afinal era verão, não soprava uma brisa sequer e estava mesmo quente.

Ao tomar banho, ouviu algo que lhe pareceu sussurros dentro do banheiro.

Desligou o chuveiro, procurou auscultar com toda a atenção... nada. Silêncio total.

- O que foi isso? Parecia um choro, alguém cochichando algo com outro alguém... deve ter sido na vizinhança, imaginação minha, pensou consigo mesmo tentando tranquilizar-se.

Terminou o banho e, ao abrir a porta do box, pareceu-lhe ter visto um vulto escuro desaparecendo rapidamente. Aquilo fez o frio que sentia aumentar e o coração disparar com o susto.

Imaginação, com certeza. Vai ver era fruto do xampu que havia entrado em seus olhos deixando-os meio turvos, ardendo.

Enxugou-se e foi para o quarto.

Sentindo-se meio estranho e sonolento, deitou para um cochilo. Péssima ideia.

Foi tomado por pesadelos terríveis.

Seres para lá de estranhos começaram a formar-se à sua frente. Seres desfigurados de aparência tenebrosa que lhe esticavam as mãos como a pedir algo. Um cheiro muito estranho pairava no ar, um misto de flores velhas, velas e algo podre.

Acordou de sobressalto tentando entender tudo aquilo.

O resto dos dias foram iguais. As mesmas sensações o acompanhavam. Preferia ficar acordado a dormir, mas, não tinha jeito. Dormir era imprescindível e, aí, lá estavam eles novamente.

Com um sentimento de presença cada vez mais marcante, uma noite Lauro os viu em seu quarto e o pânico tomou conta de todo seu ser.

Desta vez ele não estava dormindo; muito bem acordado percebera que aquilo deixava de ser pesadelo para tornar-se realidade.

Sentia aquelas criaturas tocando seu corpo. Vozes ininteligíveis em tom de súplica.

Se era a sanidade dele que queriam, conseguiram.

O coitado acabou internado, mas sempre em companhia daqueles seres horrendos que às vezes apareciam em um silêncio sepulcral pelo qual enviavam uma mensagem de arrepiar o mais frio ou cético dos homens.

Onde quer que fosse, não podia ficar sozinho.

Era estar só que os arrepios e calafrios tomavam lugar. O pior é que o medo aumentava toda aquela sensação.

Estaria ele ficando louco?

Um homem feito, que passou a ter medo de ficar sozinho. Aquilo era demais para qualquer um.

Era começar a sentir um cheiro característico e ter a certeza do que iria se desenrolar dali em diante. O terror tomava conta.

Igrejas, orações, centros de mesa branca, terreiros... Tratamentos alternativos, orientais ou indígenas... tentara de tudo e tudo em vão.

Algum tempo depois, alguém chamou a polícia. Do apartamento de Lauro exalava um odor fétido e ele, há dias, não era visto por ninguém.

A polícia, ao entrar no apartamento, descobriu o corpo de Lauro estirado no chão do quarto. Em sua face, com os olhos ainda arregalados, uma fortíssima expressão de horror.

O que teria acontecido?

Todos imaginavam que alguém teria entrado lá para roubar, mas Lauro sabia o que houvera.

Do alto, junto com os mesmos seres que o atormentaram, Lauro, que agora fazia parte daquela agonia sobrenatural, via tudo o que se desenrolava dentro de seu antigo apartamento.

A remoção de seu corpo inerte, as especulações sobre o ocorrido, o choro dos entes queridos...

A preocupação agora era outra.

Dentro de seu sofrimento, fazia de tudo para que nenhum daqueles de quem gostava fosse o escolhido para um novo contato. Aquelas pobres almas, obrigadas a alimentar o mal com almas do bem, não tinham escolha.

Tomara que você não seja o próximo...

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Família Unida

clip_image002Formavam uma família tranquila, bem unida e com os filhos criados sob uma batuta tradicional e bastante conservadora.

O pai, severo, mas bem ciente do quanto amava os filhos, mantinha atitudes sempre bem pensadas e com isso conquistara o respeito de toda a família.

A mãe, dona de casa superconsciente, possuía sua parcela de autoridade mas, mãe é mãe. Era com ela que os pequenos se abriam ou procuravam um abrigo seguro quando aprontavam demais.

Moravam no subúrbio e a vida da família era tocada na mais perfeita ordem, com todos convivendo harmoniosamente inclusive com os vizinhos. Só havia um problema a ser solucionado: o namoro da filha do meio, sabido pela mãe e escondido do pai.

Todos os dias elas conversavam a respeito, pois aquele namoro escondido não poderia continuar daquela maneira. O pai precisava saber.

Tinham de falar com ele o quanto antes. Quanto mais o tempo passava, pior ia ficando.

Numa noite de verão, chovia muito lá fora e as duas, junto com a caçula, acharam que chegara a hora daquela conversa há muito adiada.

O pai chegou a casa todo molhado e lá foram elas para recebê-lo com a maior cara de solidariedade pelo estado do coitado. Mas, algo as preocupou. Havia qualquer coisa errada ali.

O semblante do pai estava taciturno, sombrio, com um ar de quem estava muito preocupado.

Elas se calaram, com certeza não seria a hora de tocarem no assunto namoro. Esperaram alguns minutos, um silêncio que parecia perdurar para sempre, até que o pai falou:

- Vamos ter de nos mudar!

- Como?! Gritaram em uníssono.

- É, os donos da casa vão demoli-la e nós temos de sair o quanto antes.

- Assim? Do nada? Inquiriu a mãe, aflita.

- Sim querida. Amanhã mesmo vou procurar um outro lugar para nós.

A tristeza tomou conta do ambiente. Ali viveram seus primeiros dias, as crianças nasceram, foram criadas e fizeram amigos.

Ali a filha do meio começara a namorar... oops, melhor deixar o namorado de lado e não tocar mais neste assunto.

Foi uma noite terrível para todos.

Logo que amanheceu, o pai saiu em busca do novo lar, tentando fixar e acreditar nas palavras que havia dito à esposa: nosso lar é onde estivermos, não importa o lugar.

Um dia todo de buscas e nada. Voltou para casa cansado e meio que desolado.

A esposa procurou incentivá-lo da melhor maneira possível. O mundo era um lugar muito ruim com o amado abatido daquele jeito.

A casa ia ser demolida e eles já deveriam estar fora de lá.

- Maldito tempo que passa rápido demais. Reclamava o pai.

Naquele dia, tomou a decisão de pegar a primeira casa que encontrasse disponível. Não poderia esperar mais.

Acabou por achar uma não muito longe de onde moravam. Positivamente não era do agrado mas, o que fazer?

Voltou para casa tentando fazer uma cara de quem estava contente e comunicou a mudança iminente. Iminente? Não, imediata.

Por respeito, avisou que não era o ideal, que teriam de superar certos problemas, mas que poderiam ser felizes mesmo naquelas condições. Foram todos juntos conhecer o novo lar.

Ao chegarem, a esposa não se conteve:

- Que nojo!

Os filhos fizeram coro:

- Que coisa nojenta!

- Nojo é pouco!

- Argh... vou vomitar!

A primeira impressão marcou pra valer, mas não tinham opção. A mudança era inexorável.

- Querido, nós mudamos, mas, agora que temos tempo, vamos procurar algo melhor. Não dá para viver ou criar nossos filhos neste antro nojento.

- Eu sei querida, nós vamos achar algo bem melhor que isso. Algo em condições habitáveis e que dê até para receber nossos amigos – aqui é impossível.

- Eu morreria de vergonha se alguma amiga minha visse isso.

- Pois é, querida. O que podemos fazer para melhorar as coisas por aqui?

- Não sei nem por onde começar. Veja esta sala, não há um mínimo grão de poeira. A cozinha com o piso brilhando de tão limpo, nada acumulado na pia... isso é insuportável.

- É querida, você tem razão. Viu a despensa? Tudo arrumado em potes, limpo até nos cantos. É demais!

- Bem, amanhã, enquanto você procura outro lugar para nós, para acalmar as crianças, vou levá-las até o lixão. Não há como uma barata, de bom gosto como eu, criar seus filhos aqui.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Mal súbito

Mal Súbito blogDe repente um mal súbito e ele se foi. Esvaiu-se a vida.

Infarto fulminante, disse o médico.

Ele, sem entender nada, ouvia tudo, mas não conseguia mexer um músculo sequer. Não conseguia se mexer, abrir os olhos, nada. Todo desforço era em vão.

Lembrou-se do filme Awake - a vida por um fio em que o protagonista recebe a anestesia para um transplante de coração e algo estranho acontece: ele sente e ouve tudo, mas o corpo permanece como se estivesse anestesiado, dormindo. Sem saber disso, os médicos vão operando-o e ele sentindo todas as dores.

Também sempre ouvira histórias extraordinárias sobre a passagem para o mundo espiritual, em que alguns, por serem muito apegados à vida, ficavam perambulando no limbo - seria o caso dele? Afinal estava morto ou não? Que sentimento era aquele?

Não! Com toda a certeza aquele não era o caso dele, ele não estava morto. Apenas precisava encontrar uma saída para fugir daquilo e voltar à sua vida normal.

Contudo, o tempo ia passando e ele cada vez mais se conscientizando do que acontecera de fato.

-- O infarto fora violento, muita dor no peito. Só posso ter morrido mesmo, mas, e agora? O que acontece? O que faço? Pensava sofrendo.

Notou a esposa e as filhas chorando. Queria pode falar que estava vivo, que as ouvia, mas todas as tentativas eram em vão. O desespero foi tomando conta dele.

Ficou sabendo sobre os preparativos, de como e onde seria o velório, a escolha do caixão, quem avisariam... e ele ali, ciente de tudo e cada vez mais desesperado.

Nada daquilo poderia estar acontecendo, pois ele estava vivo. Chamem outro médico, gritava, porém era um grito mudo, inaudível - não conseguia fazer-se ouvir.

E lá estava ele, deitado em um caixão, todo coberto de flores, uns dois mosquitinhos mais que chatos presos dentro do tule que cobria seu corpo e que insistiam em pousar em seu nariz. Não conseguia dar, nem ao menos, uma coçadinha, por mais que quisesse.

Um por um, parentes, amigos e até alguns desconhecidos baixavam-se e falavam com ele, desejando-lhe muita Luz, que Deus o abençoasse, que os antepassados o recebessem no plano espiritual, que isso e aquilo.

Só não gostou quando ouviu dois amigos cochichando sobre a “bonitona da viúva” e que queriam muito consolá-la. Como assim? Que tipo de amigo é esse?

Ah se pudesse levantar-se dali. Eles iam ver quem é que ia ficar viúva.

E o tempo foi passando, e ele ali, imóvel, querendo sair daquela situação.

Era meio ateu, mas rezou todas as rezas que conhecia, inventou outras, fez promessas. Valia acreditar em tudo para tentar sair daquele caixão antes que fosse tarde demais.

Depois da cerimônia, quando chegaram os homens da funerária, viu que o tempo dele estava acabando, dali a poucos instantes seria tarde demais para qualquer outra tentativa.

E sequer a tal da luz branca que fazia parte das histórias extraordinárias que ouvira não aparecia para buscá-lo. Bem poderia haver um “Manual da Passagem Para Leigos”, pensava, assim saberia o que fazer.

Quando vieram com a tampa para fechar o caixão, ele sabia que seria a sua última chance. Num total desespero, reuniu todas as forças que tinha e, no instante derradeiro, conseguiu.

Esticou as mãos para cima, impedindo que baixassem a tampa e, ao mesmo tempo, soltou um grito horrível que saiu lá do fundo de sua alma. Um grito sepulcral.

A esposa deu um salto com o grande susto que levara e, recuperando-se da surpresa, falou com ele:

Querido! Acorde! Você está tendo outro pesadelo!

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

FILMES 2

UM PASSEIO PELO TERROR

NO CAIR DA NOITE daquela SEXTA-FEIRA 13, em que OS PÁSSAROS voavam de forma estranha, não bastava chamar O EXORCISTA para afastar aqueles seres AMALDIÇOADOS que assustavam a Emily e OS OUTROS.

O CHAMADO pelo exorcista era apenas um detalhe naquela que era A CASA AMALDIÇOADA em cujo quarto dormia O BEBÊ DE ROSEMARY.

Quando ouvimos O GRITO deu para sentir que A HORA DO PESADELO chegara. Parecia A PROFECIA materializando-se, o que nos deixava em PÂNICO, sentimento que aumentava com O NEVOEIRO nos envolvendo cada vez mais.

Não era só MEDO que nos atingia. Aquele DESAFIO DO ALÉM era o próprio ABISMO DO MEDO e nada estava SOB CONTROLE. OS ESPÍRITOS pareciam querer brincar com JOGOS MORTAIS conosco, pobres mortais.

O ORFANATO macabro, que abrigava A ORFÃ, deixava-nos SEM SAÍDA. A CHAVE MESTRA que abria todas as portas havia sumido e viajávamos em um NAVIO FANTASMA, sem destino, por um mar de PSICOSE alternada... era uma PARANOIA só. ISOLADOS com TERROR NA ESCURIDÃO daquela casa, parecia o FIM DOS DIAS.

De repente, tudo voava pelo quarto. Lembrava o DRÁCULA brigando com A BRUXA DE BLAIR em pleno POLTERGEIST e depois de O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA ter acontecido. Sangue para todo lado, mais do que a nossa amiga CARRIE, A ESTRANHA poderia suportar.

Com certeza não FOI DEUS QUEM MANDOU aquele BRINQUEDO ASSASSINO nos atormentar, mas, enfim, O EXORCISMO DE EMILY ROSE aconteceu, tudo começou a voltar ao normal e, ainda que não fosse A CASA DOS SONHOS de ninguém, A ATIVIDADE PARANORMAL minguou e tudo ficava mais tranquilo.

Ainda não sabíamos qual ENIGMA DO MAL havia desencadeado aquele GRITO DE HORROR mas, enfim, O SINAL era claro. Não estávamos MUTILADOS e O PESADELO da HORA DOS MORTOS VIVOS chegara ao final.

A INVASÃO das VIDAS DO ALÉM, que chegou ROUBANDO VIDAS, encontrava seu final. Não mais ouvíamos as VOZES DO ALÉM.

Acabara? Ainda não, pois o DESEJO E OBSESSÃO por uma VINGANÇA DIABÓLICA por toda aquela situação vivida NA COMPANHIA DO MEDO eram intensos. Precisávamos tentar O ÚLTIMO EXORCISMO daquela ASSOMBRAÇÃO para que não mais voltasse.

Repentinamente, um susto maior e.... acordei. Caramba, fora apenas um SONHO MORTAL de uma ALMA PERDIDA e não havia A PRESENÇA DO FANTASMA. Era apenas eu, sonhando um sonho ruim.