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domingo, 10 de fevereiro de 2013

Futebol com os amigos

clip_image002Carlinhos vivia em uma comunidade bastante unida, mas, apesar disso, cada um tocava a sua vida muito que individualmente.

Ele não entendia aquilo, era meio paradoxal, embora não soubesse o significado dessa palavra.

Jogava bola com os amigos, iam à escola às vezes juntos, outras não. Conheciam-se, mas Carlinhos tinha dúvidas se eram ou não amigos.

Sempre se lembrava das palavras do avô: “no meu tempo, lá no interior, amizade possuía um peso diferente. Amigo era amigo em todas as horas, fosse para o que fosse”.

Mas, e ali na comunidade? Eram amigos ou apenas conhecidos?

Carlinhos guardava isso consigo e, apesar da dúvida quanto aos outros, ele tinha certeza de que procurava ser amigo de todos, fossem ou não seus amigos.

Numa das agruras da vida, Carlinhos sofreu um grave acidente e ficou hospitalizado durante alguns meses.

Quando finalmente saiu, a família havia se mudado para um apartamento afastado da comunidade, mais perto do hospital e também bem próximo ao local onde Carlinhos faria as várias fisioterapias necessárias para recuperar-se.

O tempo foi passando e os amigos da comunidade, o campinho dos jogos de futebol - também palco de algumas brigas - e o bairro em si foram sendo instalados em um canto da cabeça do rapaz. Armazenados na região em que eram guardadas as boas lembranças.

O menino, para a recuperação, tinha praticamente o dia todo tomado. Não havia muito tempo para escola, amigos, diversões e afins.

A força de vontade aliada ao apoio do avô, dos pais e dos irmãos era bem forte e sobrepujava quaisquer resquícios de desistência, de fraqueza.

A existência passou a ter regras rígidas. Ele acordava às seis horas e já fazia alguns exercícios por conta própria.

Logo após o café da manhã entrava o avô que o ajudava em outros exercícios. Aí, um pouco de descanso, banho e almoço.

À tarde o pai o levava à fisioterapia, onde Carlinhos passava umas boas quatro horas.

À noite eram os irmãos que entravam em cena, ajudando-o.

Família fabulosa! Fantástica! Frisava feliz fazendo folia.

Os dias foram passando e o menino recuperando-se. Cada vez mais forte.

Certa tarde de sábado, sentindo-se bem, Carlinhos pediu ao pai que o levasse ao antigo bairro. Queria rever os amigos, o campinho, o local onde fora criado. Além disso, poderia acabar com a dúvida que guardava e o angustiava.

E lá foram eles.

O pai estacionou ao lado do campinho e Carlinhos, vendo os amigos correndo atrás da bola, gritou:

- E AÍ CAMBADA DE PERNAS DE PAU?!?!?!

Os amigos não acreditavam no que viam. Carlinhos, o amigão, estava ali em carne e osso.

Jogo suspenso. Todos correram para o carro enchendo o menino com perguntas.

Jogaram uns 20 minutos de conversa fora quanto veio a ordem dada por Paulo, o melhor amigo:

- Desce logo desse carro e vamos jogar bola! Você está no meu time!

Carlinhos emudeceu e o pai, antes de ele piscar os olhos, disse que o ajudaria.

Aí seguiu-se uma cena que deixou todos sem fala, estáticos.

O pai abriu o porta-malas, pegou uma cadeira de rodas e a deixou ao lado da porta do passageiro. Abriu a porta, pegou o filho no colo e o ajeitou na cadeira.

Ninguém sabia daquilo. Ninguém podia esperar por aquilo.

Carlinhos ficou quieto, esperando as reações.

E foi Paulo, de novo, quem deu a nova ordem:

- Estão esperando o quê? Cada um corra para sua casa e traga uma cadeira.

Foi o melhor jogo, de futebol sentado, da história!

domingo, 21 de junho de 2009

Olheiros... olheiros... só futebol?

Dia desses estava no escritório do Dr. Sidnei Lostado, o advogado que escreve a coluna Farol Jurídico na Revista O Contêiner, publicação sob minha responsabilidade, e, dando uma olhada nas revistas da sala de espera, uma me chamou a atenção pela matéria de capa. Era uma edição de Veja, de algumas semanas atrás, que tratava dos nossos jovens, possíveis promessas do futebol, "caçados" por olheiros.

Nossos craques estão indo embora antes de se formarem craques. Olheiros profissionais estão espalhados pelo país todo à procura de garotos com bom potencial de se transformarem em craques no futuro.

Logo acenam com contratos mirabolantes aos pais que, na grande maioria das vezes, são pobres sonhadores com um futuro promissor para os filhos e, por conseguinte, para a própria família.

Bem, nosso futebol não é mais nosso há algum tempo. Os craques que aqui conseguem despontar logo vão para o exterior, mas o Brasil não é só futebol.

Por que não termos olheiros também para futuros craques em potencial para áreas menos esportivas como matemática, biologia, engenharia e outras atividades acadêmicas que poderiam formar grandes craques, com uma vida útil bem mais longa que a de um jogador de futebol? Craques de verdade, que, com o passar do tempo, tornar-se-iam cada vez mais craques.

Se toda a infraestrutura que o futebol recebe e dá aos jogadores também fosse dispensada a esses craques da cultura, do estudo, sem dúvida poderíamos também ter nossos vencedores de prêmios Nobel. Teríamos o Brasil destacado em outro tipo de Copa do Mundo, com universidades investindo em pesquisas devidamente patrocinadas pelas mesmas grandes marcas que sustentam o futebol.

Por vezes, aqui e ali surgem alguns gênios, aos quais a televisão concede os 15 minutos de fama e depois... bem, depois caem no esquecimento. Se houvesse olheiros cuidando desses gênios, com certeza apareceriam muitos mais e o Brasil lucraria bem mais com os estudos e pesquisas que com os dólares e euros trazidos pelo futebol.