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domingo, 9 de agosto de 2015

Sou pai e tenho orgulho disso.

Sou pai 2Um momento feliz na Vila  Belmiro,
vendo Palmeiras meter um 3X1 no Santos

Posso dizer que sou pai, no sentido em que a palavra é entendida, desde nove meses antes do dia 11 de maio de 1988, quando li, naquele exame, a palavra “reagente”. Sim, estávamos grávidos novamente e, desta vez, haveria de dar certo.

Perdêramos o primeiro, a quem demos o nome de Juraci, um nome tupiniquim pois foi espontaneamente abortado aos três meses de gravidez; impossível saber se era menino ou menina - Juraci servia para os dois e assim é cultuado para receber Luz no Plano Espiritual.

Aquele aborto foi uma barra pesadíssima.

Por mais que o Dr. Natal (Natal Marques da Silva, obstetra) tenha parado todas as consultas e gasto um tempo enorme naquela sala no andar térreo da clínica explicando-nos o que acontecera e o porquê daquilo, foi um momento de muita dor.

Já tínhamos mais de oito anos de casados e era hora de aumentarmos a família. A ansiedade era grande e aquilo deitou por terra nossos sonhos.

A barra aumentou, pois todos pensavam na minha mulher, na Rita e pelo que ela passara e mandavam que eu segurasse a barra dela etc e tal, o que era natural. Mas... e eu?

Sofri tanto quanto ela e com um agravante: as pessoas não se aperceberam disso e eu fui guardando, minando aquele sentimento, remoendo-o dentro de mim.

O tempo passou, as marcas cicatrizaram e novamente defronto-me com a mesma palavra: reagente. A notícia da segunda gravidez veio exatamente no dia 30 de setembro de 1987, meu aniversário.

O tempo foi passando e havia um grande bloqueio entre mim e aquele serzinho dentro de uma barriga cada vez maior.

Na primeira vez, eu brincava, conversava, trocava confidências com nosso bebezinho ainda em formação, sem o menor problema ou constrangimento. Curtia cada momento.

Contudo, como diz o velho ditado, gato escaldado tem medo de água fria e agora existia o receio de repetição do fato.

Só aos cinco meses de gravidez, numa noite de janeiro, conversei a este respeito com a Rita e me abri.

Expliquei-lhe o que havia acontecido quando do aborto e o bloqueio advindo com aquela tristeza toda e só a partir daí comecei a me soltar, a confiar que tudo daria certo.

E deu!

Lá estávamos nós, na sala de cirurgia, para o parto. Sim, nós, afinal não haveria quem me fizesse ficar em uma sala de espera exatamente quando nossa família estava efetivamente formando-se. Ela na cama e eu a postos com a máquina fotográfica na mão.

Cinco minutos antes das nove da noite veio à luz aquele serzinho. Na hora nem identifiquei se era menino ou menina.

- É uma linda menina! Disse-nos o Dr. Natal.

Não ser um menino foi um pensamento que passou mais veloz que um raio pela minha mente. Ali mesmo comecei a curtir aquela bonequinha de 51 cm e 3,660 kg que Deus nos dera para amar e cuidar.

Um ano e nove meses depois do nascimento da Camila, nossa família era completada com outro presente de Deus.

Sempre disse a todos que gostaria de ter um casal. Primeiro um menino e depois uma menina, algo mudado com a experiência de ser pai de uma menina.

Alguns dias antes daquele 15 de fevereiro, eu havia comentado com a Rita:

- Bem poderia ser outra menininha, né? Muito legal!

Bingo! Uma e quinze da manhã - tinha de ser na madrugada... rrssss - e quase nascida durante o banho no quarto da maternidade, vinha a Natália com seus 49 cm e 3,420 kg

Foi tudo tão rápido que coloquei a roupa para entrar na sala de parto muito às pressas e o único chinelo que havia era um tamanho 33. Fui com ele mesmo no meu “pezinho” 43.

Agora era ser pai em sua plenitude.

De setembro de 1979 a maio de 1988 éramos só eu e a Rita, curtimos tudo o que havia para curtir. Agora era a hora e a vez das meninas.

A vida mudou totalmente.

Para mim, filho não é um troféu a ser exibido nas horas fáceis (só não dei peito por não ter leite, mas fraldas e tudo o mais era comigo mesmo).

Filho é para ter pai e mãe. É para ser educado, criado com amor para que se torne um ser humano de primeira linha.

Tenho orgulho, e creio nisso, de ter sido um pai amigo e educador.

Ciente de que aqueles primeiros anos seriam bastante importantes para a formação delas, aproveitei ao máximo todo o tempo. Sem bater, sem gritar, mas educando com respeito e sem dó - quem tem dó, não educa.

Se fosse preciso ser rígido, era. Mas sempre consciente, sem perder a razão para saber exatamente como agir. Medo de mim nunca tiveram ou precisaram ter.

Eu não as levava para passear, ir à praia ou sei lá onde. Eram elas que me levavam. Os passeios eram delas e sabiam que ali estava um pai pronto para topar qualquer brincadeira e jamais as deixaria na mão.

Pequenos detalhes me dão orgulho até hoje.

Pré-adolescentes, certa vez uma das amigas disse-lhes algo do tipo:

- Vocês são as únicas do grupo que quando começarem a namorar vão falar primeiro para o pai e não para a mãe.

A Camila, então, deu-me um presente inusitado - o melhor que ganhei em todos os tempos: convidou-me a fazer faculdade com ela. Fomos colegas de classe no curso de Jornalismo.

Eu sabia que um dia elas cresceriam, como cresceram - a mais velha já está casada com um homem que ama e a ama -, e parariam de me ouvir como ouviam antes, não por não me acreditarem, mas sim por terem suas opiniões formadas e serem donas de suas ideias e ideais.

Por isso, repito, aproveitei ao máximo toda aquela época em que me ouviam. Ensinei-lhes o máximo que pude e tenho orgulho de, por exemplo, poder sentar-me à mesa com elas, em qualquer restaurante, sem passar vergonha ao vê-las no simples uso dos talheres. Sabem se portar em qualquer ambiente.

Seguras de si, são educadas e respeitosas e, cá entre nós, é fácil gostar delas - sem corujice. rrsss

Continuo sendo um pai orgulhoso e continuo a fazer coisas por elas que elas sequer imaginam que faço e elas podem ter a certeza de sempre contar com este pai que as ama muito.

Se cometi erros? Claro. Não sou perfeito e nem o melhor pai do mundo, mas fiz o que sabia com a melhor das intenções e acredito que consegui incutir nelas o melhor, ajudando na formação do caráter de ambas para serem dignas como o são hoje.

Obrigado filhas por terem me ensinado muito, assim como sua mãe o faz.

Vale a pena ser pai de vocês, a quem amo vocês incondicionalmente e sempre amarei.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Vida no campo

Vida no campoJoaquim sempre pensou bem diferente do pai, o “Seu Pedrão”, homem das antigas, cabra bruto que sabia o que queria da vida.

Seu Pedrão mantinha crioulos em sua propriedade. Com baixo custo e grandes trabalhadores, eram ótimos especialmente na hora de manejar o gado leiteiro, a menina dos olhos do dono daquela fazenda no interior do Rio Grande do Sul.

Ele não só os tinha como também se vangloriava disso.

Contava vantagens, falando para quem quisesse, ou não, ouvir:

- Crioulo é tão bom que todos tinham que ter, ao menos, um à sua disposição.

Joaquim, rapaz mais da cidade e antenado às coisas modernas, só via problemas naquelas ideias do pai, as quais lhe eram impostas e estava fadado a ter que aceitá-las - como enfrentar o Seu Pedrão?

O jovem queria era distância daquele mundo em que ele se sentia tão escravo quanto os crioulos que, querendo ou não, trabalhavam nos sete dias da semana, sem feriados, sob chuva ou sol forte e enquanto durasse a luz do dia - por vezes, estavam na lida mesmo depois de anoitecer.

- Por que Juca? Por que você é contra termos esses crioulos aqui na fazenda. Perguntava um pai esperançoso de que suas ideias fossem aceitas.

E continuava: - eles são ótimos, são baratos e muito prestativos. Se ficam meio rebeldes, o uso do chicote faz um efeito ótimo e eles voltam a seus lugares e a serem plenamente obedientes.

Definitivamente não compartilhavam da mesma opinião.

Aquilo não era o século XVIII; estavam em pleno século XXI e o pai ainda falava em chicote!

Para Joaquim, um grande absurdo.

Buscava a cumplicidade da mãe e das duas irmãs, mas de nada adiantava. Jamais elas iriam contra o chefe da família.

Com o irmão não poderia contar de forma alguma. João tinha o mesmo pensamento do pai e, com seu próprio dinheiro, já havia comprado uns quatro e posto para trabalhar na fazenda.

É, não dava mesmo para contar com o irmão. Estava sozinho naquela empreitada.

O sonho era partir dali, ir de uma vez por todas para a cidade, abandonar a vida no campo, uma vida para a qual ele realmente não havia nascido.

Para tanto, estudou com afinco. Queria ser alguém na vida, bem longe daquilo tudo.

Iria à fazenda apenas para matar a saudade da família, mas longe de todo e qualquer tipo de trabalho no campo.

Com o tempo, o rapaz atingiu seu objetivo. Mudou-se para a cidade, ingressou na faculdade de direito e, como melhor aluno da turma, logo conseguiu um estágio muito bem remunerado.

Trabalhava e era dignamente pago por isso. Seu sustento estava garantido e já podia dispensar a ajuda da família. O que fez mais do que depressa.

Libertara-se de vez da vida no campo, mergulhando de cabeça no século XXI. Tudo o que ele queria.

Não havia mais mato, plantação, gado, chicotes para forçar o trabalho, acordar de madrugada e dormir super cedo, aquele cheiro horrível... tudo havia ficado no passado.

A vida dele era outra, bem melhor.

Mas, estranhamente a fazenda não saía da cabeça de Joaquim e era difícil conviver com aquele sentimento.

Ele sabia que havia algo naquele estilo de vida que os pais e os irmãos levavam que tinha de mudar.

Mudar aquilo, levar a modernidade ao local, uma melhoria na vida, especialmente da mãe e das irmãs era responsabilidade dele.

O problema: como enfrentar a cabeça dura do pai?

Soube, por um amigo, que iria acontecer uma feira em Passo Fundo, cidade também ao norte do estado e não muito longe da fazenda dos pais, a Agrotecnoleite estava prestes a abrir as portas para visitação.

Era uma feira que visava a melhoria da qualidade da produção de leite no estado, com tecnologia avançada e equipamentos tanto para o gado quanto para a agricultura.

Plano bolado, estratégia pronta, fez contato com o pai.

- Pai, neste final de semana estou indo para casa. Vou buscar o senhor e o João para levá-los a um lugar especial. Tenho certeza de que vão gostar. Está marcado.

Desligou sem dar tempo para reclamações ou perguntas.

No sábado, logo pela manhã, lá estava Joaquim e, como não era mais aquele menino franzino e sim um homem feito e independente, “sequestra” o pai e o irmão. Estavam meio relutantes, mas cederam.

Na feira, os olhos da dupla fazendeira brilharam como o sol e os dois ficaram maravilhados com o que viram.

Não eram contra a modernidade, apenas não tinham a cultura necessária para conhecê-la.

Quando notaram como poderia ser a vida usando tudo aquilo que existia, cederam aos desejos de Joaquim.

Joaquim via ali um novo pai e um novo irmão.

Os três analisaram e estudaram todas as possibilidades, o custo e o benefício e, como dinheiro não era problema, já que ganhavam e não gastavam, puderam adquirir tudo aquilo que seria necessário para mudar a vida na fazenda.

Novos galpões para ordenha, agora mecanizada, máquinas plantando e colhendo, a produção aumentando... tudo novo na fazenda.

Até a casa ganhou uma reforma completa e o antigo fogão à lenha virou peça de museu.

As mulheres curtiram muito os novos aparelhos: fogão, freezer, forno micro-ondas, forno elétrico, televisor que pegava vários canais e não só alguns poucos...

Seu Pedrão agora ia para cima e para baixo pilotando uma picape cabine dupla com tração nas quatro rodas.

Joaquim sentiu-se realizado. Não que, por não gostar, achasse o modo de vida da família errado. Ele sabia que eles poderiam ter uma vida melhor - exatamente esta que tinham agora - só que eles não se tocavam disso.

E quanto aos crioulos?

Ora, eles trabalham bem menos e são até mais usados para diversão, mas continuam por lá, afinal - e em especial no Rio Grande do Sul - é a raça de cavalo certa para a lida no campo.

domingo, 19 de outubro de 2014

Viva a amizade

Viva a AmizadeAo descer a escadaria de sua casa, Amanda parou estática no patamar, olhou para a mãe e algumas lágrimas escorreram pelos lindos olhinhos azuis.

Mas, qual a razão disso? Por que teria Amanda chorado ao ver a mãe?

Voltemos um pouco no tempo...

Amanda era uma menina como outra qualquer. Bem... quase.

Na altura de seus 14 anos, tinha um grande futuro pela frente, mas antes de todo o futuro, haveria a festa dos 15 anos, a qual estava programada para acontecer junto com as das amigas Rita, Marisa e Léa. Elas formavam um quarteto inseparável.

Todas fariam 15 anos em uma distância muito curta de tempo e comemorariam com uma grande e única festa.

A diferença entre o nascimento delas não chegava a três semanas.

Conheceram-se no primeiro dia de aula, ainda na pré-escola, e nunca mais se largaram.

Faziam tudo juntas e a cada encontro era uma conversa sem fim.

Embora sempre uma ao lado das outras, os assuntos eram intermináveis e brotavam do nada. Quem as visse, sem as conhecer, cria que há muito não se viam e tinham muita conversa para pôr em dia.

Mesmo quando estavam longe, estavam conectadas.

Valia de tudo; desde o velho Skype, passando pelo SMS, pelo Instagram, pelo Facebook, até o Whatsapp e o que mais aparecesse. A ferramenta não importava, desde que se comunicassem.

A vida naquela cidadezinha do interior paulista, às margens do Rio Paraíba, era tranquila, cujo sossego somente era quebrado por algum apronto do quarteto junto com outros amigos.

Elas dominavam os adolescentes da cidade, chamados por eles próprios de a Gangue do Bem.

Claro, como jovens, sempre aprontavam das suas, mas em compensação, sempre estavam atentos para atender às necessidades de alguém.

Precisou? Logo aparecia um para ajudar.

Todavia, Amanda começou a perder peso, sentia-se mal com dores de cabeça além de uma estranha sensação de fraqueza.

Os pais a levaram para uma consulta ao médico que, ao olhar Amanda e uma rápida análise, sugeriu alguns exames específicos.

- Nada preocupante. Vamos fazer estes exames e verificar se minhas suspeitas têm fundamento. É muito no início e tudo fica mais fácil. Disse o doutor.

Como não se preocupar com um possível diagnóstico de leucemia?

Os pais, tentando parecer fortes perante a filha, estavam arrasados.

Os exames foram feitos e o doutor, algo que só acontece nas cidadezinhas do interior, foi à casa dos pais de Amanda com os resultados.

Dona Celeste chamou a filha, que estava no quarto, no andar de cima.

Bem, voltemos ao início...

Ao descer a escadaria de sua casa, Amanda parou estática no patamar, olhou para a mãe e algumas lágrimas escorreram pelos lindos olhinhos azuis.

Ao ver o médico e a expressão da mãe, teve a certeza de que, para tristeza de todos, os resultados comprovavam as suspeitas do médico. Leucemia!

Enxugou os olhos e desceu as escadas.

Não acreditava no que lia. Tinha apenas 14 anos e nada daquilo era justo.

Com a família reunida na sala, o médico explicou tudo o que podia sobre a doença, a importância de estar no começo e respondeu todas as perguntas feitas.

Indicou um Oncologista amigo dele que poderia cuidar da Amanda da melhor forma possível.

E assim começava uma nova etapa na vida daquela jovem. Iniciava-se ali uma caminha de trajetória difícil e não sabida.

Amanda reuniu todas as suas forças e disse em voz clara e firme:

- Vamos em frente. Vamos vencer esta droga de doença.

Os dias foram passando e por causa de um dos tratamentos aos quais ela se submetia, a quimioterapia, os cabelos foram caindo.

Ela ficou horrorizada com isso.

Como não havia jeito, a mãe a levou para São José dos Campos onde havia um especialista em perucas para pessoas com câncer.

Por algumas fotos enviadas previamente, foi confeccionada uma peruca bem parecida com o cabelo de Amanda.

Ao chegar, elas aprovaram a peruca, o pessoal da loja cortou os cabelos de Amanda, utilizando uma máquina número 3 e foram-lhes passadas todas as dicas de como usar, tratar e lavar os novos cabelos.

Ficara bem demais e Amanda voltou às ruas sem qualquer vergonha, algo que estava sentindo há algumas semanas. Ainda bem que eram férias escolares e não precisava ficar tão exposta, pensava ela.

As amigas acharam linda a peruca e até se divertiram bastante com Amanda, mas de forma alguma ela a tirava da cabeça, nem para as amigas, o que era respeitado.

A calvície forçada mexera muito com a cabeça da menina.

Chegara o grande dia. O dia mais esperado do ano, mas que correu um sério risco de não acontecer.

As amigas convenceram Amanda de que a vida continuava e tinha de ser bela como antes, e não haveria um porquê de não ser.

Com muita conversa, todas concordaram que nada, absolutamente nada, poderia estragar a festa delas - ou todas participariam ou não haveria festa.

Na hora combinada para irem ao salão do clube, as três amigas foram à casa de Amanda para buscá-la.

Dona Celeste chamou a filha, que estava acabando de se arrumar no quarto. Finalizou o acerto da peruca, prendendo-a bem para não correr o risco de cair ou mesmo sair do lugar e foi ao encontro da mãe.

Ao descer a escadaria de sua casa, Amanda parou estática no patamar, olhou para a mãe e, desta vez, muitas lágrimas escorreram pelos lindos olhinhos azuis.

A mãe, assim como o pai, também estava chorando.

As três amigas e todos os 15 casais formados pelos amigos mais chegados delas, estavam ali, aos pés da escada, esperando por Amanda.

Todos, homens e mulheres, de cabeça raspada.

segunda-feira, 17 de março de 2014

Uma fabulosa vida livre

Vida livre MAR14Arthur vivia uma vida rústica. Tão rústica que para comer ele precisava caçar.

Mas era esta a vida que ele levava e curtia. Não queria saber de outra.

Não tinha contas a pagar, não devia satisfações a ninguém e era feliz.

Os dias passavam sendo vividos um a um. O negócio de Arthur era ser livre e feliz - o resto era resto.

Uma moradia super simples com o tamanho suficiente para acomodar alguns poucos primos ou o irmão que, às vezes, o visitavam.

As visitas aconteciam, invariavelmente, do jeito que Arthur mais gostava: duravam dois dias, no máximo. Desta forma o dia a dia do jovem com anseios de liberdade total não era prejudicado.

Dois dias bastavam para matar a saudade e pôr a conversa em dia. Passado este período já virava rotina e aí era invasão de privacidade e liberdade tolhida.

Dono de um viver simples e descompromissado, o jovem saía de casa logo cedo, andava a esmo pelos arredores e se visse uma caça, tratava de tentar abatê-la para garantir o almoço, ou a janta.

Tão livre era que, por vezes e até por preguiça, não voltava para casa. Dava um jeito de passar a noite onde estivesse.

Isso era liberdade total. Algo almejado por muitos e ele tinha. E como!

- Sou livre! Esta é a vida que eu sempre quis ter! Assim falava, consigo mesmo, um todo alegre Arthur.

Para ele, um vidão.

Se rolasse um sexo, legal. Se não, paciência - a vida continuava.

Mas..., pois é, sempre tem um mas, para temperar qualquer história... bem, voltemos ao texto.

Mas, um dia Arthur conheceu aquela que seria sua cara metade. Amélia era uma coisa de louco.

Linda, simpática, charmosa, atributos certos nos lugares certos. Ela mexeu com aquele solteirão convicto.

E ele cedeu notando que, sem haver percebido, faltava algo para ser completamente feliz: uma esposa, uma cúmplice com a qual poderia rir, chorar, dividir a vida.

De repente começou a sonhar com filhos, família, um modo de vida nada a ver com aquele que levava, mas que chegara a hora de conquistar. Mesmo porque a idade vinha chegando.

Depois de um curtíssimo período de paquera, de ambos os lados, passaram a namorar e ela aderiu totalmente àquele estilo rústico de vida do namorado.

O relacionamento foi ficando cada vez mais sério e acabou tomando um destino tradicional: iriam casar-se.

Como os pais de Amélia eram ultraconservadores, optaram por seguir fielmente a tradição e não pular qualquer degrau. Namoravam, ia pedir a mão dela, ficariam noivos e só depois casariam.

Assim, marcaram o dia para uma cerimônia íntima, só com os pais de Amélia, o irmão e um primo de Arthur, cerimônia na qual ficariam noivos. Era o segundo passo.

Com os preparativos prontos, faltava garantir a comida para os convivas.

Para isso, Arthur saiu cedo para caçar, conforme as regras que adotara em sua vida.

Foi difícil. O tempo passava e... nada. Aquilo temido pelo jovem caçador ia acontecendo, afinal a caça andava escassa por aquelas bandas.

Depois de algum tempo, Arthur conseguiu abater uma primeira presa, mas uma só não seria suficiente.

Algum tempo depois, a segunda e, aos “49 do segundo tempo”, uma terceira

Pronto, finalmente podia retornar à casa, onde Amélia e os convidados já deviam estar esperando. E com fome.

Quando chegou, Arthur foi tomado por uma grande surpresa, levando um tremendo susto.

Além dos quatro convidados, também compareceram três irmãos e dois primos de Amélia e mais cinco primos de Arthur, todos com ares de quem estava de estômago vazio reclamando por comida.

De um estático Arthur saíram, com muito esforço, as palavras:

- Poxa pessoal, só três baratas não vão alimentar 16 lagartixas!

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

O presente de Natal

clip_image002Conto baseado em uma antiga parábola

Beto sempre foi muito amado pelos pais e, até por isso, mimado.

Os pais, posseiros, trabalhavam duro em uma gleba com cerca de um hectare - ou 10 mil metros quadrados, para quem não conhece as medidas do campo.

Dali tiravam o sustento da família composta pelos pais, o Beto e mais três irmãos mais jovens.

Plantavam de acordo com a temporada, sempre fazendo um rodízio para não cansar o solo e garantir uma maior produtividade. Sol a sol, sem descanso.

No terreno havia a casinha da família, um galinheiro, um chiqueiro e um celeiro não muito grande, mas suficiente para o pai guardar ali todas as ferramentas que possuíam.

Os pais haviam feito uma promessa a si próprios e a São José, padroeiro dos agricultores: os filhos estudariam e não teriam aquela vida sofrida que os fazia envelhecer precocemente. Os filhos seriam “doutores”.

Claro que, desde cedo, as crianças ajudavam nos tratos da roça, até porque não poderiam ficar sozinhas em casa sem quem delas cuidasse.

A vida era dura. Acordavam às 4 horas da manhã, tomavam um rápido café preto com pão e partiam para a lida. A mãe ainda ficava um pouco na casa para cuidar do almoço que era levado até eles com a ajuda dos pequenos. Afonso e os filhos mais velhos, Beto e Alaor, desde cedo cuidavam do cultivo. Os filhos só paravam para irem à escola.

Os mais jovens, enquanto a mãe preparava o almoço, iam dando milho às galinhas, completavam a água dos porcos e jogavam, nos comedouros do chiqueiro, tudo que era resto de comida e o que mais fosse comível.

Durante a tarde, invariavelmente, o filho do vizinho passava com a charrete e lá iam, Beto ou Alaor, acompanhando-o até a cidade para buscarem restos de comida para dar aos porcos das duas propriedades. Assim complementavam a alimentação dos bichos.

Mimado, Beto era meio rebelde no trato com os pais, mas isso, para os pais, era compensado pelos estudos. Ele não queria aquela vida para si e assim estudava sempre que podia e tirava ótimas notas.

Garantiria seu futuro.

Ao completar 19 anos, Beto, já formado nos ensino médio, partiu em busca de um futuro melhor. Conseguiu uma bolsa na faculdade e foi morar na cidade grande.

Trabalho de dia e estudos à noite. Não tinha descanso, mas sabia que era a melhor aposta para garantir um bom futuro.

No final do ano, férias, voltou para a casa dos pais duas semanas antes do Natal.

E chegou reclamando da vida, afinal todos os amigos iam de carro para a faculdade e ele, de bicicleta. Era vexatório.

Os pais pediam-lhe calma, pois tudo aquilo, um dia, se ajustaria.

- Como? Bradava ele. - Vocês vivem esta vidinha aqui, sem qualquer perspectiva de futuro. Parem de sonhar. – Eu queria é ter um pai rico que gostasse mesmo de mim e me desse um carro no Natal. Isso sim é sonho!

O pai, cabisbaixo e sem ter o que falar, retirou-se para o quarto.

A mãe foi chorar na cozinha, desabafando no fogão à lenha.

Os irmãos olhavam para Beto com muita raiva. Logo ele, o mais privilegiado de todos reclamava daquele jeito, sem reconhecer tudo o que os pais fizeram e faziam por ele e por todos.

Noite de 25 de dezembro, reunidos em torno da árvore de Natal, os pais entregam os presentes aos filhos.

Ao Beto coube a chave do celeiro com um pequeno cartão de natal que dizia:

-- Amado Beto, a você entregamos nosso celeiro e é seu tudo o que há dentro dele. Esperamos que você possa aproveitar muito. Amamos você. Afonso, Marlene e seus irmãos. FELIZ NATAL!

Beto foi tomado por um acesso de raiva. Não acreditava que os pais estavam fazendo aquilo - dar-lhe o celeiro e todas as ferramentas? Para quê se tudo o que ele queria era estar longe daquela vida?

Dia seguinte, ainda com raiva, partiu logo cedo de volta para a cidade. Queria esquecer aquele Natal em família. Família? Pois sim.

Definitivamente o Natal de 1993 seria apagado da mente dele.

Transcorridos 10 anos, Beto, já formado e trabalhando como um dos melhores advogados daquele escritório de advocacia, recebe uma ligação inesperada.

Era Alaor informando que Afonso estava nas últimas e pedia para ver o filho mais velho que, desde aquele Natal, não vira mais.

Toda aquela lembrança veio à mente de Beto e sentiu um certo remorso pelo que havia feito - na época não entendera o gesto dos pais e tudo, de repente, caiu como um balde de água gelada.

Como pudera fazer aquilo? Tinha de reconhecer e respeitar os limites dos pais, afinal eles não tinham estudo e sacrificaram-se pelos filhos.

Beto voltou ao sítio dos pais com um aperto no coração.

Não chegou a tempo de ver o pai vivo. Afonso, antes de morrer e prevendo que não iria ver Beto, deixou-lhe um bilhete.

-- Meu filho, o celeiro ainda é seu. Faça ao menos um favor ao seu velho, entre nele, veja o que há por lá, se alguma coisa ainda lhe servir, use. Se não, dê aos seus irmãos – só você poder fazer isso, pois tudo lá é seu.

Com o coração apertado, Beto entrou no celeiro e viu, ainda com os laços azuis, um gol prata, ano 1993, 0km. Junto um carnê de consórcio com 60 prestações pagas, a maioria com atraso.

Beto chorou ao entender o por quê de os pais nunca terem dinheiro.

Sentiu que era tarde demais.Como poderia agradecer por aquilo?

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Bonecamania

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Aos 12 anos, a mania por bonecas ainda estava arraigada.

Toda hora de folga era um tal de vestir e tirar roupinhas, montar cenários com as casinhas de boneca, comidinhas... tudo era motivo da maior diversão.

As amiguinhas também curtiam. As reuniões eram diárias e as brincadeiras rolavam até tarde.

Quando uma boneca nova era lançada, a febre era intensa. Boneca nova era sonho de consumo e status no grupo.

Depois da compra, sempre havia o batizado, a festinha com madrinhas e padrinhos muito bem vestidos para a ocasião.

Na mochila da escola, a boneca era uma presença constante, especialmente a Barbie preferida, uma espanhola chamada Cristina.

Cristina, companheira inseparável, ia todos os dias para a escola e, claro, tomava o tempo da turminha no intervalo

Era o “Clube da Boneca”, clube fechado que se isolava de todos os alunos.

Claro que também aconteciam outras brincadeiras como pular corda; passa anel; gato mia; amarelinha, mas a preferida era a brincadeira com as bonecas, as quais sempre falavam mais alto.

Em uma tarde qualquer, assistindo à TV, aconteceu.

De repente, o anúncio de uma boneca que não só falava, mas respondia às perguntas. Como aquilo era possível?

De imediato, com um olhar de súplica, voltou-se para a mãe e, antes que pudesse falar algo, a mãe, percebendo as intenções, soltou:

- Eu não posso decidir. Isso já foi combinado e, se quer mesmo essa boneca, vai ter de falar com seu pai.

Foi um balde de água gelada. Não só teria de aguentar até o início da noite, quando o pai chegasse a casa, como também havia um receio a ser vencido. O pai, certamente iria dar uma bronca por querer outra boneca.

Saiu de casa na esperança de encontrar uma das amiguinhas, para desabafar. Ninguém!

Sentou-se em um banco qualquer na pracinha e lá ficou com um ar de incerteza e ansiedade.

Um senhor, vendo aquela cena, aproximou-se, sentou-se e puxou conversa.

Muito amável, demais até, mostrou-se preocupado com aquela carinha triste.

- Que houve? Nenhuma criança pode ficar com uma carinha triste asssim.

- É por causa da Sissi. Respondeu.

- Hã? Quem é Sissi?

- Uma boneca nova que conversa com a gente. Eu quero muito, mas minha mãe disse que seu quiser, terei de pedir pro meu pai.

O senhor, muito interessado, disse que poderiam ir juntos até a loja para ver a Sissi de perto.

- Vamos lá? Talvez eu possa comprá-la para você. Meu carro está aqui perto.

Uma mistura de ingenuidade e vontade de ter a boneca fez com que acompanhasse aquele senhor simpático.

Ao aproximarem-se do carro, avistou Bia que vinha saindo da farmácia com a mãe.

Chamou-a e, ao contar a novidade e o que estava acontecendo, notou que o semblante de dona Marlene, mãe de Bia, mudara bastante.

Para ela havia ficado clara qual a intenção daquele senhor tão “simpático”.

O homem, ao notar a situação, entrou no carro e desapareceu.

A mãe de Bia tratou de esclarecer o fato. O homem, na verdade, era um pedófilo e não dava para saber quais suas reais intenções. Mas, com certeza, nada boas.

Salvação vinda aos 48 do segundo tempo.

A volta para casa foi pesada. Havia uma confusão naquela cabecinha.

Mas, foi só o pai chegar para tudo melhorar.

Bem, quase tudo. Havia ainda a questão do medo em falar sobre a boneca nova com o pai.

Mas a vontade era maior que o medo.

Depois de todos os acontecimentos narrados e o porquê explicado, o pai lhe diz:

- Venha. Sente-se aqui ao meu lado.

E, depois de uma pausa, que pareceu uma eternidade para a pobre criança, um pai ressabiado, um tanto desgostoso e lamentando muito aquela fixação por bonecas que parecia ter um destino certo que ele não queria admitir, termina:

- Você quer mesmo essa boneca? Pense bem, não prefere um carrinho ou uma bola, meu filho?

quinta-feira, 28 de março de 2013

A Sogra

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Ilustração feita pelo Luiz Rafael da Caricômicos,

um parceiro indicado por este Blog.

Em uma das mudanças da família, Roberval passou a ser vizinho de Helena e quando se encontraram pela primeira vez os corações bateram um pouco mais forte.

Esse início foi o começo de uma forte amizade que logo se transformou no que, na realidade há muito já era: amor. O namoro veio naturalmente.

Mas havia um grave problema. Talvez pela pouca idade da filha, a mãe de Helena era radicalmente contra o namoro deles e, decididamente, não gostava de Roberval.

Não gostava era pouco, ela praticamente odiava aquele rapaz. Motivo? Não precisava.

De todas as personae non gratae do planeta, para ela, ele era o campeão.

A simples presença já era um grande incômodo.

Com o sogro, Roberval não tinha qualquer problema, muito pelo contrário. Eles se davam muito bem.

Assim iam passando os anos e ele sempre driblando aquele sentimento malévolo da sogra. Para o coitado, as piadas sobre sogra tinham um verdadeiro sentido. Todas baseadas em fatos bem reais.

Helena por sua vez sempre ia tentando amenizar os sentimentos da mãe em relação ao namorado, sempre infrutiferamente. Ao menos até o dia em que ficaram noivos.

A jovem chamou a mãe em um canto, questionou-a, insistiu em que ele era o homem a fazê-la feliz pelo amor recíproco que sentiam. Parecia uma sofista da Grécia antiga utilizando-se de toda a oratória possível para convencer a irredutível dona Rosinha.

A mãe, vendo o estado da filha, acabou concordando, comprometendo-se a “pegar mais leve” e, quem sabe, até a aprender a gostar do rapaz.

Com isso a vida de Helena deu uma boa melhorada. Ela não mais ouvia a mãe reclamando quando Roberval tocava a campainha, recebia-o com cortesia e tudo estava melhorando a olhos nus.

Melhorando? Bem, superficialmente e na presença de Helena estava mesmo tudo muito bem, mas bastava ela se ausentar que a “velha bruxa da floresta do mal” incorporava na sogra e os reclames e falatórios corriam soltos aliados a caretas e lançamentos de pragas. Era a sogra das piadas reascendendo.

No maquiavelismo da velha cabia até mandar flores a si própria, com cartões “assinados” por Roberval.

Helena voltava e lá estava dona Rosinha toda sorridente, solícita.

Roberval, a sós com Helena, reclamava das atitudes da sogra. Algo que a incomodava já que havia conversado com a mãe e era notório a mudança de comportamento. Como poderia Roberval reclamar agora se até flores ele mandava para a pobre mãezinha.

Para Helena aquilo era cisma, algo que o namorado guardara do passado.

Aproveitando o aniversário de 19 anos de Helena, deram uma parada na festa, chamaram a atenção de todos os presentes e, em uma rápida cerimônia, ficaram noivos sob os aplausos e desejos de felicidades dos amigos.

O sogro o abraçou desejando que ambos fossem verdadeiramente felizes e tivessem um futuro glorioso. Já a sogra... bem a sogra...

Todos viram quando ela o abraçou emocionada, mas ninguém a ouviu dizendo nos ouvidos do pobre coitado que ele bem poderia morrer na lua de mel, deixando toda a herança para a filha poder ser feliz com alguém melhor, aliás, um alguém muito fácil de ser achado.

Ele encenou um sorriso amarelo de agradecimento e procurou apagar de sua mente mais aquela praga lançada pela megera.

E assim foi passando o tempo e como o tempo é um excelente remédio, Roberval aprendeu a lidar com a sogra e não reclamava mais de nada para Helena. Com isso garantia o sossego do noivado e não corria o risco de perdê-la por reclamar da “mãe maravilhosa” que ela tinha.

Helena estava tranquila. Em seu entender, os dois passaram a se dar bem, ao menos assim ela entendia.

Quando se casaram, mudaram-se para uma outra cidade na qual Roberval havia recebido uma ótima proposta de trabalho.

Enfim sós... e longe da sogra. Estava mesmo feliz.

Finalmente estavam casados, o sonho comum de ambos estava concretizado e, naquele lar de amor, pairava uma paz solene.

Quatro excelentes meses de puro êxtase para o casal quando veio uma má notícia:

O pai de Helena falecera. Um enfarto fulminante arrebatara-lhe a vida sem permitir qualquer possibilidade de salvamento.

Claro que a alegria do casal deu uma arrefecida, aquela notícia atingiu a ambos de forma lamentável. Para Helena era a perda do paizão querido e para Roberval a perda do único aliado que tinha, já que a sogra era cada vez mais sogra, claro que longe de Helena - perto da filha era um fingimento só.

Mas a vida tinha de ser tocada e isso eles fizeram. Voltaram a ser felizes por mais um mês quando outra notícia caiu no colo de Roberval, e dada pela própria esposinha querida:

- Benzinho, mamãe não está bem. Desde a morte de papai ela entrou em depressão e precisamos ajudá-la. Assim, conversando com ela e como vocês estão se dando bem, acertamos que ela virá morar conosco. Não vai ser ótimo?

sábado, 12 de janeiro de 2013

Gravidez

Ilustração: Equipe Caricômicos Gravidez JAN2013

Olavo era um homem de manias, daqueles que têm necessidade de ter tudo arranjado da melhor forma possível para evitar surpresas ou contratempos.

Surpresa era algo que ele abominava. Eram insuportáveis, pois não davam tempo para se preparar e, invariavelmente, Olavo terminava com cara de bobo. Odiava isso.

Sempre metódico, levava uma vida sossegada e era sereno, tranquilo.

Mas essa calma durou só até o meio-dia daquela quarta-feira. Uma chamada telefônica da mulher dele, no escritório, foi a surpresa das surpresas.

- Querido, vamos ser avós! Ela está grávida!

Olavo caiu sentado, quase sem sentidos.

Não ouviu mais nada. Desligou o telefone sem entender como a mulher podia estar tão radiante com uma notícia daquelas.

Natália, a filha única do casal, estava cursando o oitavo ano do ensino fundamental, contava com somente 13 anos e positivamente não tinha idade para ser mãe.

Como conciliar os estudos, para a filha ser alguém neste mundo, com a gravidez, a maternidade e todas as responsabilidades que viriam? Era impossível, impraticável!

Saiu para a rua, andando a esmo. Perdido em um mundo de confusões, de pensamentos aleatórios que não faziam sentido, mas que fervilhavam em sua mente.

Queria concatenar as ideias, entender aquela situação, a reação da esposa. Nada fazia sentido.

Para ele, a filha sequer estava namorando. Bem, isso era algo que ele podia entender: com certeza estava de namoro escondido e com algum pilantra irresponsável que a abandonaria à própria sorte sem querer saber da criança ou, pior, iria propor um aborto - além de tudo, mataria seu neto e poria a vida da filhinha em risco. Nem pensar!

-- Ah se eu pego esse filho da mãe, esse aproveitador! Pensava, pensava não, gritava alto consigo mesmo, tentando arrumar algum culpado por aquela situação já que, evidentemente, a culpa não seria da filhinha querida. -- Certeza de que ela foi enganada.

Sem rumo, parou em frente a uma loja de artigos para bebês e começou a olhar as vitrines, imaginando se seria menina ou menino.

Caiu em si. Como não poderia fugir a esse destino, por pior que fosse, daria todo o apoio à filha. Não dava para ser diferente.

Entrou na loja e comprou um macacãozinho verde-água, uma cor que serviria para qualquer sexo, uma manta para envolver o beber e mais um par de sapatinhos. Tudo para o momento da grande saída da Maternidade, particular, claro. Não dava para imaginar a filha sendo atendida pelo SUS.

Depois foi a uma farmácia e comprou uma grande quantidade de fraldas descartáveis para recém-nascidos.

Chegaria a casa em grande estilo, mostrando para a filha que ela poderia confiar nele e que ela teria uma gravidez tranquila.

Guardou o carro na garagem, pegou todos os pacotes e entrou em casa com um grande sorriso nos lábios chamando:

- Cadê aquela menina linda que vai nos dar um netinho ou netinha para fazer brilhar ainda mais esta casa???? Cadêêê?????

Em resposta vê a mulher chegando toda contente, com a cadelinha Shi-tzu no colo:

- Olha Hanninha, o papai chegou todo contente também. Só porque a nossa garotinha vai ter filhotinhos.

E o coitado não se conteve:

- COMO?
- Quem está grávida é a cachorra?????????????

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Ontem eu chorei...

Na noite de terça-feira, 9 de fevereiro deste ano de 2010, eu chorei um choro misto de emoção, orgulho e felicidade, além de uma pitadinha de tristeza por não estar lá, junto com toda a turma.

Bem, vamos aos fatos.


Estava acontecendo a colação de grau da 37ª. turma de Jornalismo da Universidade Católica de Santos - UniSantos, turma esta que tive o prazer de acompanhar por sete semestres e, por muito pouco, não me formei com ela - faltou-me completar o último semestre (daí a pitadinha de tristeza).


Em 2005 minha filha convidou-me a fazer faculdade com ela. Foi um dos melhores presentes que já ganhei na vida, pois era minha filha oferecendo-me a honra de ser seu colega de classe. Aceitei sem pestanejar e lá fomos nós fazer os vestibulares, juntos.


Passamos nos três que fizemos e optamos pela UniSantos por considerar a melhor delas para o curso de Jornalismo e assim foi em 2006, 2007, 2008 e no primeiro semestre de 2009, até que fui obrigado a dar uma parada no curso.


Nada, em meus 54 anos de vida, me fez chorar como ontem. A emoção de ver minha filha colando grau, de beca, capelo e tudo o mais, multiplicou-se ao ouvi-la fazendo a homenagem aos pais, principalmente quando disse que, para ela, particularmente aquela homenagem era diferenciada pois tivera o próprio pai como colega de classe por três anos e meio. Sacanagem... desabei.


Não há reveses nesta vida que suplantem uma emoção desta. Não poder ter terminado o curso com ela fica sendo um detalhe.


Obrigado Camila pela emoção, por você ter se formado. Tenha uma carreira de sucesso e seja a jornalista que todos gostariam de ser.