terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Quero ser livre!

Quero ser livreSe ele gostava da família? Claro!

A mulher e os três filhos eram companheiros, viviam sempre juntos nas dores e nas alegrias. Havia uma cumplicidade legal por ali e todos se ajudavam.

Entretanto, estranhamente algo faltava na vida de Pedro. Tudo era alegria, mas nem tudo eram flores.

Ele sentia uma necessidade premente de ser totalmente livre, ter a vida dele só para ele.

Não, não era egoísmo, era um sentimento diferente que o atordoava dia a dia.

Queria viajar, acordar a hora que bem entendesse, sem rotinas diárias, sem levar ninguém para a escola, sem as lições de casa... queria jogar o relógio fora.

A preocupação com a família não poderia ser deixada de lado; a obrigação do sustento era dele.

Lá ficava ele, o anjinho de um lado dizendo-lhe para ficar com a família e o diabinho do outro fazendo pressão para “se mandar”, viver a vida de uma forma gostosa, sem compromissos.

Pedro tinha um bom trabalho, era otimamente remunerado e mantinha um padrão de vida excelente. Talvez fosse isso.

Como podia fazer praticamente de tudo com o salário que recebia, ele tinha poucos prazeres, pois tudo era lugar comum.

Alguns amigos que também sentiam o mesmo e haviam partido para o consumo de drogas, trocas de casais ou outras estripulias às quais ele era totalmente contra. Impossível imaginar-se fazendo este tipo de coisa - drogas? Nunca! A mulher dele com outro? Jamais!

Com resolveria a questão?

Aquele tormento já estava gerando conflitos no viver dele, tanto no trabalho quanto no lar. Tinha que dar um jeito.

Sempre pensando no futuro da família, sem ele, há alguns anos fizera um bom seguro contratado com um amigo que era corretor, com um prêmio alto o bastante para que todos vivessem tranquilamente.

Caso algo de ruim acontecesse e ele faltasse, a mulher e os filhos ficariam muito bem.

Ao receber uma ligação desse amigo, para tratarem da renovação do seguro, foi que uma luz acendeu-se em sua cabeça. Uma ideia meio maluca. O seguro!

Marcou com o amigo, renovou o seguro dando um bom aumento no valor que caberia à família caso houvesse algum sinistro.

E continuo vivendo a vida, agora com uma nova perspectiva pela frente: dar tempo ao tempo para pôr o plano mirabolante em prática.

Dois meses depois, em uma noite, descendo a Serra do Mar pela Via Anchieta - gostava de ver as luzes da Baixada Santista lá do alto, vista que a Imigrantes não fornecia com seus túneis infindáveis - a vida lhe foi ceifada violentamente.

Pelo que se soube, um caminhão abrira demais a curva para ultrapassá-lo, de forma arriscada, e lançou o carro de Pedro abismo abaixo.

Um grande estrondo, uma grande explosão (parecia filme de Hollywood)... acabou.

Tudo o que a família chorosamente conseguiu recuperar de Pedro foi um monte de uma massa calcinada daquilo que um dia fora um ser humano.

O reconhecimento só foi possível pela arcada dentária - não sobrara nada.

A família continuou bem, com o mesmo padrão de vida, e muito agradecida ao marido e pai amado que havia se preocupado com seu bem estar e providenciara tudo. Um homem prevenido que amava mesmo a família.

Acabou...

Sim, Pedro não existia mais.

Ali morreu um chefe de família para sempre idolatrado e nascia uma nova pessoa.

Nascia o Henrique, um homem livre, leve e solto.

Um desconhecido para quem Pedro também fizera um ótimo seguro há dois meses, não com o amigo, mas com um corretor lá do Nordeste, durante uma viagem a trabalho.

A pior parte para Pedro foi ter comprado o corpo de um mendigo. Mexer com aquilo não era mesmo a praia dele.

Não menos difícil foi gastar uma boa grana com um dentista para que ele mapeasse a dentadura do cadáver e fizesse um prontuário odontológico como se aquela arcada fosse de Pedro.

Coincidentemente, quando do acidente, a ficha estava na casa dele, aos cuidados da esposa, que os levaria ao dentista dela dali a dois dias, já que haviam combinado que Pedro passaria a usar o dentista da esposa.

Assim, foi fácil identificar aquele corpo no carro como sendo de Pedro.

E o Henrique?

Bem, Henrique deixou seu relógio no carro, nunca mais comprou outro e foi viver em um sítio no interior de Goiás fazendo o que queria, quando queria e como queria.

Não é que o filho da mãe se deu bem?

Moral amoral da história:

o crime não compensa, mas,

quem não arrisca, não petisca.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Vida no campo

Vida no campoJoaquim sempre pensou bem diferente do pai, o “Seu Pedrão”, homem das antigas, cabra bruto que sabia o que queria da vida.

Seu Pedrão mantinha crioulos em sua propriedade. Com baixo custo e grandes trabalhadores, eram ótimos especialmente na hora de manejar o gado leiteiro, a menina dos olhos do dono daquela fazenda no interior do Rio Grande do Sul.

Ele não só os tinha como também se vangloriava disso.

Contava vantagens, falando para quem quisesse, ou não, ouvir:

- Crioulo é tão bom que todos tinham que ter, ao menos, um à sua disposição.

Joaquim, rapaz mais da cidade e antenado às coisas modernas, só via problemas naquelas ideias do pai, as quais lhe eram impostas e estava fadado a ter que aceitá-las - como enfrentar o Seu Pedrão?

O jovem queria era distância daquele mundo em que ele se sentia tão escravo quanto os crioulos que, querendo ou não, trabalhavam nos sete dias da semana, sem feriados, sob chuva ou sol forte e enquanto durasse a luz do dia - por vezes, estavam na lida mesmo depois de anoitecer.

- Por que Juca? Por que você é contra termos esses crioulos aqui na fazenda. Perguntava um pai esperançoso de que suas ideias fossem aceitas.

E continuava: - eles são ótimos, são baratos e muito prestativos. Se ficam meio rebeldes, o uso do chicote faz um efeito ótimo e eles voltam a seus lugares e a serem plenamente obedientes.

Definitivamente não compartilhavam da mesma opinião.

Aquilo não era o século XVIII; estavam em pleno século XXI e o pai ainda falava em chicote!

Para Joaquim, um grande absurdo.

Buscava a cumplicidade da mãe e das duas irmãs, mas de nada adiantava. Jamais elas iriam contra o chefe da família.

Com o irmão não poderia contar de forma alguma. João tinha o mesmo pensamento do pai e, com seu próprio dinheiro, já havia comprado uns quatro e posto para trabalhar na fazenda.

É, não dava mesmo para contar com o irmão. Estava sozinho naquela empreitada.

O sonho era partir dali, ir de uma vez por todas para a cidade, abandonar a vida no campo, uma vida para a qual ele realmente não havia nascido.

Para tanto, estudou com afinco. Queria ser alguém na vida, bem longe daquilo tudo.

Iria à fazenda apenas para matar a saudade da família, mas longe de todo e qualquer tipo de trabalho no campo.

Com o tempo, o rapaz atingiu seu objetivo. Mudou-se para a cidade, ingressou na faculdade de direito e, como melhor aluno da turma, logo conseguiu um estágio muito bem remunerado.

Trabalhava e era dignamente pago por isso. Seu sustento estava garantido e já podia dispensar a ajuda da família. O que fez mais do que depressa.

Libertara-se de vez da vida no campo, mergulhando de cabeça no século XXI. Tudo o que ele queria.

Não havia mais mato, plantação, gado, chicotes para forçar o trabalho, acordar de madrugada e dormir super cedo, aquele cheiro horrível... tudo havia ficado no passado.

A vida dele era outra, bem melhor.

Mas, estranhamente a fazenda não saía da cabeça de Joaquim e era difícil conviver com aquele sentimento.

Ele sabia que havia algo naquele estilo de vida que os pais e os irmãos levavam que tinha de mudar.

Mudar aquilo, levar a modernidade ao local, uma melhoria na vida, especialmente da mãe e das irmãs era responsabilidade dele.

O problema: como enfrentar a cabeça dura do pai?

Soube, por um amigo, que iria acontecer uma feira em Passo Fundo, cidade também ao norte do estado e não muito longe da fazenda dos pais, a Agrotecnoleite estava prestes a abrir as portas para visitação.

Era uma feira que visava a melhoria da qualidade da produção de leite no estado, com tecnologia avançada e equipamentos tanto para o gado quanto para a agricultura.

Plano bolado, estratégia pronta, fez contato com o pai.

- Pai, neste final de semana estou indo para casa. Vou buscar o senhor e o João para levá-los a um lugar especial. Tenho certeza de que vão gostar. Está marcado.

Desligou sem dar tempo para reclamações ou perguntas.

No sábado, logo pela manhã, lá estava Joaquim e, como não era mais aquele menino franzino e sim um homem feito e independente, “sequestra” o pai e o irmão. Estavam meio relutantes, mas cederam.

Na feira, os olhos da dupla fazendeira brilharam como o sol e os dois ficaram maravilhados com o que viram.

Não eram contra a modernidade, apenas não tinham a cultura necessária para conhecê-la.

Quando notaram como poderia ser a vida usando tudo aquilo que existia, cederam aos desejos de Joaquim.

Joaquim via ali um novo pai e um novo irmão.

Os três analisaram e estudaram todas as possibilidades, o custo e o benefício e, como dinheiro não era problema, já que ganhavam e não gastavam, puderam adquirir tudo aquilo que seria necessário para mudar a vida na fazenda.

Novos galpões para ordenha, agora mecanizada, máquinas plantando e colhendo, a produção aumentando... tudo novo na fazenda.

Até a casa ganhou uma reforma completa e o antigo fogão à lenha virou peça de museu.

As mulheres curtiram muito os novos aparelhos: fogão, freezer, forno micro-ondas, forno elétrico, televisor que pegava vários canais e não só alguns poucos...

Seu Pedrão agora ia para cima e para baixo pilotando uma picape cabine dupla com tração nas quatro rodas.

Joaquim sentiu-se realizado. Não que, por não gostar, achasse o modo de vida da família errado. Ele sabia que eles poderiam ter uma vida melhor - exatamente esta que tinham agora - só que eles não se tocavam disso.

E quanto aos crioulos?

Ora, eles trabalham bem menos e são até mais usados para diversão, mas continuam por lá, afinal - e em especial no Rio Grande do Sul - é a raça de cavalo certa para a lida no campo.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

O fim da solidão

SolidãoFausto morava no interior, em uma pequena cidade no Vale do Paraíba. Para os poucos habitantes, o sentido da palavra amigo possuía um peso gigantesco, haja vista que entre os amigos havia confiança, cumplicidade e invariavelmente sempre podiam contar uns com os outros.

Contudo, o jovem tinha problemas de relacionamento devido à extrema timidez. Era muito retraído e isso causava uma grande dificuldade para fazer amigos.

Praça cheia de gente, bandinha tocando no coreto, pipoca, algodão-doce, churros, balões de gás, pessoas falando ou dançando ou falando e dançando, muita diversão em qualquer festividade no pequeno município e lá estava ele, em meio daquele mar de gente e sentindo uma solidão angustiante.

Tinha inveja das pessoas que se confraternizavam.

Sofria sozinho, sem a compreensão dos pais que, ao invés de compreender, repreendiam.

Tempo de faculdade, queria ser advogado ou delegado de polícia e mudou-se para uma cidade maior. Campinas era um mundo totalmente diferente, muito maior que a pequena Jacareí.

Novos lugares, gente nova, mundo novo e a mesma e velha solidão.

Mesma? Antes fosse. Com tanta novidade ela pesava ainda mais.

As noites eram bem tristes para ele. Queria desabafar, chorar em um ombro amigo, ou apenas jogar uma conversa fora mas... com quem? Estava ali, mais uma vez, sozinho com seus pensamentos.

Só podia conversar com seus próprios botões.

Enfiou-se nos estudos como uma fuga, algo bom por um lado; ia cada vez melhor na faculdade.

Outro problema: ser ótimo aluno era motivo de orgulho para os professores, mas causava inveja aos colegas que o tratavam como um nerd (geek nos dias de hoje), causando ainda mais afastamento.

Mesmo amadurecendo, não conseguia vencer a timidez e foi aprendendo a conviver com aquela solidão, porém a necessidade de um amigo era sempre presente.

Certo fim de tarde, passeando pela Praça Carlos Gomes, próxima à Prefeitura, encontrou-se com Billy.

Billy, jovem, molecão solto e brincalhão, nada tinha de tímido, era, para Fausto, o superlativo absoluto do antagonismo, mas havia simetria naquilo.

Houve uma empatia imediata, dava a entender que ele compreendera de imediato os problemas de Fausto e passaram a caminhar juntos.

Fausto sentiu-se tão livre e feliz que passou a falar pelos cotovelos. De Billy quase não se ouvia nada. O que seria uma conversa passou a ser um monólogo, com uma outra interrompida pelo atencioso ouvinte.

Sentaram-se em um banco, brincaram, relaxaram e se divertiram. Há muito tempo Fausto não tinha um período tão gostoso em sua vida.

Depois de umas duas horas, Fausto teve de se despedir e voltar para casa - havia prova no dia seguinte e tinha de rever algumas matérias - mas não foi sem enfatizar:

- Amanhã nos vemos por aqui. Está marcado.

Aquele encontro fortuito tinha sido bom demais, precisava ser repetido e o fato de Billy ser morador de rua teve peso zero no relacionamento entre eles, pois ele fizera muita diferença na vida daquele futuro advogado.

E assim passaram-se alguns dias e a amizade fortalecendo-se.

Porém, Billy deu uma sumida. E caiu a ficha: não sabia como achar o amigo. Onde ele passava as noites? Realmente não tinha família?

Depois de uns três dias, lá reaparece Billy. Desta vez, meio sujo, cansado e um tanto machucado.

Fausto sequer quis saber o que havia acontecido; o importante era mostrar que amizade verdadeira é pra valer. Abraçou o amigo e, condoído, levou-o para casa onde um bom banho esperava por Billy e teria os machucados tratados.

Depois disso, a amizade fortaleceu a tal ponto que Billy passou a morar com Fausto naquele pequeno apartamento, ou melhor, apertamento em que o jovem morava desde que chegara à cidade. Agora ele tinha um teto sob sua cabeça.

A solidão deu um tempo na vida de Fausto. Respirava um ar diferente, cheio de amor e alegria.

Arranjara um amigo, finalmente tinha alguém que o ouvia e o compreendia.

Passava horas desabafando e o novo amigo ali, quieto e só ouvindo, sem interromper e prestando a maior atenção. Ambos sabiam que era justamente disso que Fausto precisava. Desabafar.

Desde que passaram a morar juntos, a solidão perdeu de vez. Nunca mais houve um momento em que se sentisse sozinho, mesmo nas raras vezes em que estava só.

Sabia que Billy estava por ali, sempre pronto para o que desse e viesse.

“Eita vida boa. Por que não o encontrei antes?” Pensava, um todo feliz, Fausto.

Tudo aquilo, somado ao fato de ter a cama dividida com um amigo, era um tipo de vida novo para ele, mas... e daí? Era feliz e isso era o mais importante.

Falou do novo amigo aos pais. O pai rejeitou a ideia, não gostou, dando a desculpa de que o filho tinha de focar somente nos estudos.

A mãe foi mais compreensiva e acabou apoiando a novidade.

O jovem até melhorou na Faculdade de Direito. Passou a estudar mais e, feliz com o amigo por perto, tinha mais ânimo para enfrentar todos aqueles livros - o motivo não era mais para fugir à solidão, era outro e muito melhor.

Realmente era uma nova vida. Todas as vezes que chegava a casa, lá estava Billy esperando-o, fazendo-o rir, fazendo-o soltar-se, fazendo-o feliz.

Aquela era uma amizade baseada em um amor incondicional. Tinha ali um amigo que não se importava com sua timidez ou com o que fosse. Podia desabafar, dizer tudo a ele com confiança de que tudo morreria ali mesmo. Sua “tábua da salvação” era muito mais que um amigo.

Que mais esperar da vida?

O ânimo mudara totalmente. Só o fato de saber que ao chegar a casa seria muito bem recebido era o bastante para querer viver para sempre.

Tudo bem que o novo amigo não sorria, mas Fausto sabia que aquele abanar de cauda continha a maior das sinceridades, a maior demonstração de uma alegria verdadeira.

domingo, 19 de outubro de 2014

Viva a amizade

Viva a AmizadeAo descer a escadaria de sua casa, Amanda parou estática no patamar, olhou para a mãe e algumas lágrimas escorreram pelos lindos olhinhos azuis.

Mas, qual a razão disso? Por que teria Amanda chorado ao ver a mãe?

Voltemos um pouco no tempo...

Amanda era uma menina como outra qualquer. Bem... quase.

Na altura de seus 14 anos, tinha um grande futuro pela frente, mas antes de todo o futuro, haveria a festa dos 15 anos, a qual estava programada para acontecer junto com as das amigas Rita, Marisa e Léa. Elas formavam um quarteto inseparável.

Todas fariam 15 anos em uma distância muito curta de tempo e comemorariam com uma grande e única festa.

A diferença entre o nascimento delas não chegava a três semanas.

Conheceram-se no primeiro dia de aula, ainda na pré-escola, e nunca mais se largaram.

Faziam tudo juntas e a cada encontro era uma conversa sem fim.

Embora sempre uma ao lado das outras, os assuntos eram intermináveis e brotavam do nada. Quem as visse, sem as conhecer, cria que há muito não se viam e tinham muita conversa para pôr em dia.

Mesmo quando estavam longe, estavam conectadas.

Valia de tudo; desde o velho Skype, passando pelo SMS, pelo Instagram, pelo Facebook, até o Whatsapp e o que mais aparecesse. A ferramenta não importava, desde que se comunicassem.

A vida naquela cidadezinha do interior paulista, às margens do Rio Paraíba, era tranquila, cujo sossego somente era quebrado por algum apronto do quarteto junto com outros amigos.

Elas dominavam os adolescentes da cidade, chamados por eles próprios de a Gangue do Bem.

Claro, como jovens, sempre aprontavam das suas, mas em compensação, sempre estavam atentos para atender às necessidades de alguém.

Precisou? Logo aparecia um para ajudar.

Todavia, Amanda começou a perder peso, sentia-se mal com dores de cabeça além de uma estranha sensação de fraqueza.

Os pais a levaram para uma consulta ao médico que, ao olhar Amanda e uma rápida análise, sugeriu alguns exames específicos.

- Nada preocupante. Vamos fazer estes exames e verificar se minhas suspeitas têm fundamento. É muito no início e tudo fica mais fácil. Disse o doutor.

Como não se preocupar com um possível diagnóstico de leucemia?

Os pais, tentando parecer fortes perante a filha, estavam arrasados.

Os exames foram feitos e o doutor, algo que só acontece nas cidadezinhas do interior, foi à casa dos pais de Amanda com os resultados.

Dona Celeste chamou a filha, que estava no quarto, no andar de cima.

Bem, voltemos ao início...

Ao descer a escadaria de sua casa, Amanda parou estática no patamar, olhou para a mãe e algumas lágrimas escorreram pelos lindos olhinhos azuis.

Ao ver o médico e a expressão da mãe, teve a certeza de que, para tristeza de todos, os resultados comprovavam as suspeitas do médico. Leucemia!

Enxugou os olhos e desceu as escadas.

Não acreditava no que lia. Tinha apenas 14 anos e nada daquilo era justo.

Com a família reunida na sala, o médico explicou tudo o que podia sobre a doença, a importância de estar no começo e respondeu todas as perguntas feitas.

Indicou um Oncologista amigo dele que poderia cuidar da Amanda da melhor forma possível.

E assim começava uma nova etapa na vida daquela jovem. Iniciava-se ali uma caminha de trajetória difícil e não sabida.

Amanda reuniu todas as suas forças e disse em voz clara e firme:

- Vamos em frente. Vamos vencer esta droga de doença.

Os dias foram passando e por causa de um dos tratamentos aos quais ela se submetia, a quimioterapia, os cabelos foram caindo.

Ela ficou horrorizada com isso.

Como não havia jeito, a mãe a levou para São José dos Campos onde havia um especialista em perucas para pessoas com câncer.

Por algumas fotos enviadas previamente, foi confeccionada uma peruca bem parecida com o cabelo de Amanda.

Ao chegar, elas aprovaram a peruca, o pessoal da loja cortou os cabelos de Amanda, utilizando uma máquina número 3 e foram-lhes passadas todas as dicas de como usar, tratar e lavar os novos cabelos.

Ficara bem demais e Amanda voltou às ruas sem qualquer vergonha, algo que estava sentindo há algumas semanas. Ainda bem que eram férias escolares e não precisava ficar tão exposta, pensava ela.

As amigas acharam linda a peruca e até se divertiram bastante com Amanda, mas de forma alguma ela a tirava da cabeça, nem para as amigas, o que era respeitado.

A calvície forçada mexera muito com a cabeça da menina.

Chegara o grande dia. O dia mais esperado do ano, mas que correu um sério risco de não acontecer.

As amigas convenceram Amanda de que a vida continuava e tinha de ser bela como antes, e não haveria um porquê de não ser.

Com muita conversa, todas concordaram que nada, absolutamente nada, poderia estragar a festa delas - ou todas participariam ou não haveria festa.

Na hora combinada para irem ao salão do clube, as três amigas foram à casa de Amanda para buscá-la.

Dona Celeste chamou a filha, que estava acabando de se arrumar no quarto. Finalizou o acerto da peruca, prendendo-a bem para não correr o risco de cair ou mesmo sair do lugar e foi ao encontro da mãe.

Ao descer a escadaria de sua casa, Amanda parou estática no patamar, olhou para a mãe e, desta vez, muitas lágrimas escorreram pelos lindos olhinhos azuis.

A mãe, assim como o pai, também estava chorando.

As três amigas e todos os 15 casais formados pelos amigos mais chegados delas, estavam ali, aos pés da escada, esperando por Amanda.

Todos, homens e mulheres, de cabeça raspada.

sábado, 18 de outubro de 2014

Mais vida para viver... ...Mais sonhos para sonhar

ViverViver, sonhar, sonhar, viver...e assim vamos tocando a vida, o dia a dia.

Se navegar é preciso, Viver também o é, sim, Viver com “V” maiúsculo, pois é extremamente necessário ter-se qualidade de vida.

Achar que basta estar vivo para viver é coisa de acomodado, daqueles que não sabem o quanto podem almejar, sonhar, traçar objetivos e, o mais importante, realizar.

Esta é a galera que abre a janela e vê, além da banda, a vida passar. Sempre serão coadjuvantes, nunca protagonistas.

Viver, sonhar e buscar são a base para a realização. A realização é a grande causa do bem viver. Não adianta, por exemplo, ter muito dinheiro acumulado se não o aproveitamos para viver.

Havemos de lembrar das palavras de Dalai Lama:

“...Os homens perdem a saúde para juntar dinheiro, depois perdem o dinheiro para recuperar a saúde...”

Temos de ter dinheiro para viver e não viver para ter dinheiro.

Portanto, tracemos um objetivo de vida a ser buscado e, com força de vontade e ética, façamos por merecer alcançá-lo. Isto é realização, o que, por simples consequência, traz felicidade.

A meritocracia é fator importante para alcançarmos nossos objetivos. Assim haverá uma base forte o bastante para evitar que caiamos.

Se o alcance das metas traçadas não for meritório, se as alcançarmos sem nos importar com os meios, sendo fiéis à frase que representa o maquiavelismo em que o fim justifica os meios, fatalmente acabaremos por pisar ou atropelar quem estiver por perto para o usarmos em nossa caminhada.

Conclusão: não haverá base de sustentação e qualquer brisa poderá pôr tudo por terra.

Não é por aí. Todos em nossa volta têm de ser encarados como parceiros, amigos que caminham e crescem junto a nós.

Desta forma faremos nascer uma força praticamente invencível para alcançarmos nossas metas e lá permanecermos, sempre prontos para ir em frente, buscando novos objetivos, mas nunca voltando - andar para trás não leva a nada.

Não nos esqueçamos que o ontem já está perdido, o amanhã ainda não chegou e, portanto, é no hoje que precisamos fazer tudo, é no hoje que as coisas acontecem.

Não deixar para depois é uma lição dada desde 1967, na marchinha de carnaval de Vicente Longo e Waldemar Camargo, gravada por Francisco Egídio:

Simbora nós dois,
Simbora nós dois,
Que se pode fazer agora,
Não se deixa pra depois.

(bis)

Até a lua,
Já mandou nos avisar,
Que a noite é nossa,
Só até o sol raiar.

sábado, 13 de setembro de 2014

Amor platônico

Amor platônicoEmílio e os irmãos Ana Maria e Alfredo eram os amigos Super Bonder, viviam colados um no outro e, como diz o lema criado por Alexandre Dumas, era um por todos e todos por um.

Quando alguém queria achar um deles bastava saber onde estava qualquer outro. Viviam sempre juntos, para o que desse e viesse, e isso desde pirralhos.

A amizade surgiu quando ainda eram crianças, vizinhos.

Não havia, entre eles, essa diferença de homem e mulher. Eram amigos e brincavam de tudo, de cowboy a casinha; o que importava era estarem juntos, dividindo brincadeiras, lanches, peraltices, alegrias e tristezas.

Com o tempo passando e eles, óbvio, crescendo, dentro do coração de Emílio também crescia um novo sentimento.

Nunca deixaram de sentir amor, uns pelos outros, mas aquele sentimento era bem diferente de tudo aquilo que, o agora adolescente, experimentara. Não entendia bem o que acontecia, era algo mais forte, bem mais forte.

Mas, havia um problemão a ser resolvido: a forte timidez de Emílio.

Bastava querer falar, manifestar o sentimento e tudo travava. Não saía uma palavra da boca dele, não conseguia pronunciar nada senão murmúrios incompreensíveis.

Tentava em vão abrir-se com Ana Maria, mas era impossível. Precisava clamar por ajuda... nem isso conseguia.

Como fazer?

Passava o tempo e mantinha o mesmo sentimento, cada vez com mais intensidade e, junto, aumentava o temor de se pronunciar. Continuava tudo travando.

Bastava pensar no assunto e ficava perdido naquele mundo desconhecido, o mundo do amor, das juras, da cumplicidade entre dois, dividindo segredos que só eles conheceriam, um mundo diferente, feito só para os dois pombinhos.

O que ele não sabia é que Ana Maria começara a nutrir o mesmo sentimento.

Ela também era meio tímida, mas não tão retraída quanto Emílio e precisou de algum tempo apenas para criar coragem e conversar com ele.

Contou-lhe minuciosamente como tudo havia acontecido, como aquele sentimento maravilhoso de um amor intenso começara e como tudo aquilo mudara radicalmente a forma como ela o via.

Ela teve a coragem que faltou ao jovem rapaz. Como ela conseguiu? Perguntava-se, sem saber a resposta.

Sabia que ele também poderia ter se manifestado e só não o fizera pelo medo da recusa. Aquela maldita incerteza de ser ou não correspondido tolheu tudo. Medo bobo mas... invencível; uma barreira inquebrantável para ele.

Mas, Ana Maria deu o primeiro passo e tudo passou a ser diferente.

Começaram a namorar e, com certeza, algo naquela amizade de anos e anos mudou.

Doravante novos passos seriam dados, embora continuassem amigos, não era mais os três sempre juntos. Alfredo colocara-se em sua posição de cunhado e se recusava a ficar segurando vela para os dois.

E o tempo foi passando e, mesmo assim, Emílio continuava o mesmo tímido de sempre. Ana Maria até reclamava alguns beijos e, embora sempre atendida, ele ainda tinha dificuldades nesse campo.

E assim os foram levando a vida e ela, por puro amor, sempre com a maior paciência e entendendo a extrema e exacerbada timidez do, agora, noivo.

Casaram-se!

Para a viagem de lua-de-mel marcaram um cruzeiro que, partindo de Santos, percorreria alguns portos do Nordeste. Cabina espaçosa com tudo o que um jovem casal recém-casado precisava, além de outros itens que eles não precisariam, mas poderiam querer.

No dia do embarque, Alfredo os levou para Santos, ajudou-os com a bagagem e correu para a ponta da praia - queria ver o navio passando e dar um último aceno de boa viagem aos pombinhos.

Tudo havia sido combinado. O lugar em que Ana Maria e Emílio estariam e onde Emílio ficaria - não havia como Alfredo perder os dois de vista no meio daquela multidão de passageiros e eles também poderiam localizá-lo sem problemas.

Quando o navio chegou perto, Alfredo os viu de imediato e acenou.

Ana Maria foi a primeira a vê-lo e acenou com veemência apontando-o para Emílio.

Emílio, ao ver o cunhado sentiu um aperto no coração.

Em sua imaginação ele via os três de uma outra forma.

Via-se ali mesmo, naquela varanda da cabine, partindo para uma linda viagem de lua-de-mel com a pessoa amada e, lá embaixo na calçada, estaria Ana Maria acenando para eles.

Droga de timidez! Droga de medo!

Coração partido

domingo, 7 de setembro de 2014

Paulo Bregaro, o Feidípedes brasileiro

independencia2Imagem extraída do blog Semióticas

No alto, "Independência ou Morte" (1888), mais conhecido como “O Grito do Ipiranga”, óleo sobre tela de Pedro Américo (1843-1905). Acima, a identificação dos personagens principais em cena: 1. Sargento-mor Antonio Ramos Cordeiro; 2. Paulo Bregaro; 3. Francisco Gomes da Silva, o Chalaça; 4. Antônio Leite Pereira da Gama Lobo; 5. Brigadeiro Manuel Rodrigues Jordão; 6. Luís Saldanha da Gama; 7. Dom Pedro I; 8. Capitão-mor Manoel Marcondes Mello; 9. Pedro Américo (autorretrato); 10. Casa do Grito; 11. Córrego do Ipiranga; 12. Trabalhador anônimo

       Assim como o soldado grego Feidípedes que percorreu os 42km que separavam o campo de batalha de Maratona e Atenas, de forma praticamente ininterrupta, para avisar o exército ateniense acerca da vitória em Maratona e uma possível revanche dos persas, o que deu tempo para que Atenas se preparasse e rechaçasse os persas, temos no Brasil o Paulo Emílio Bregaro, ou simplesmente Paulo Bregaro como é conhecido; ele agiu de forma semelhante.

       Claro, há diferenças marcantes: Bregaro não caiu, morrendo de exaustão após cumprir suas ordens, foi a cavalo e não a pé e percorreu uma distância bem maior, entre as cidades do Rio de Janeiro e São Paulo, o que dá muito mais que 42,195km.

       Bonita introdução mas, qual o porquê de falarmos sobre Paulo Bregaro neste 7 de setembro, Dia da Independência do Brasil?

       Isso é bastante simples - ele foi um importante colaborador para que Dom Pedro (que ainda não era I) desse o famoso grito “independência ou morte!”

Vamos às explicações.

       Em 1822 já existia o Correio-Mor no Brasil Colônia, contudo a entrega de correspondências era precária além da conta, o que seguiu até meados do século XIX e, devido a isso, as pessoas evitavam usá-lo, principalmente tendo de pagar pelos serviços.

       Dessa forma, davam preferência a usar a mão de obra gratuita dos tropeiros, bandeirantes ou até mesmo dos escravos.

       Contudo, um carteiro sobressaiu-se na história postal brasileira, apesar da total precariedade, ao levar uma carta de Dom João VI, com instruções da corte portuguesa e cartas de José Bonifácio, de Dona Leopoldina e de Chamberlain - agente secreto do príncipe. Sim, foi Paulo Bregaro o carteiro que viajou em companhia do Sargento-mor Antonio Ramos Cordeiro.

       José Bonifácio foi enfático na recomendação a Paulo Bregaro - há algumas versões, mas o sentido é o mesmo. Duas delas:

       “Arrebente e estafe quantos cavalos necessários, mas entregue a carta com toda a urgência".

       "Se não arrebentar uma dúzia de cavalos, no caminho, nunca mais será correio; veja o que faz!"

       E lá foi o mensageiro, viajando de forma praticamente ininterrupta, como fizera o grego há alguns séculos. Dá para imaginar o que foi esta viagem?

       Dizem as más línguas que, de fato, o interesse de José Bonifácio era que o mensageiro encontrasse Dom Pedro ainda em Santos para que a independência do Brasil ocorresse nas terras de origem dos irmãos Andrada.

Por mais cavalos que Bregaro e o Sargento-mor “arrebentassem”, o grito de independência, como sabemos, acabou acontecendo já em São Paulo, às margens do Riacho Ipiranga.

       Por esta entrega incomum, Paulo Bregaro dá seu nome a algumas ruas em cidades deste nosso Brasilzão e é Patrono dos Correios do Brasil.

       E por tudo isso, além de ser personagem esquecido de nossa história, é que este Blog presta esta homenagem, resgatando um dos heróis de nossa independência.

       Agora que já leu, brinque um pouco e teste seus conhecimentos sobre a história do Brasil. Clique no link abaixo:

Laurentino Gomes