sexta-feira, 29 de junho de 2012

Contos Twitteranos [9]

Contos Twitteranos
Contos que, como no Twitter, devem conter
um máximo de 140 toques.
O mais legal é fazer com que fiquem
com exatos 140 toques.

161) Que festa? (140 toques)
Na festa, bebeu todas. No dia seguinte vangloriava-se de ter bebido todas. Perguntaram sobre a festa. Quê? Nem viu a festa, mas bebeu todas.

162) Que dia é hoje? (140 toques)
Vida simples no interior. Nas férias, brincava todos os dias, sem noção do tempo. Só sabia que era domingo porque tinha macarrão com frango.

163) Sou marinheiro (140 toques)
Queria ser marinheiro. Ver o horizonte infinito atrás das ondas. Os portos se aproximando. Conseguiu! Mas foi trabalhar na sala de máquinas.

164) Feijoada (140 toques)
Sábado almoçou rápido com a família. Tinha de sair para pedi-la em namoro. Saiu apressado e se esqueceu de escovar os dentes. Maldita couve.

165) Jogo 0 X 1 Visita (140 toques)
Sábado à tarde quis jogar futebol. Insistiu com a mulher que preferia visitar um casal amigo. Brigou, reclamou, bateu o pé. No fim, visitou.

166) Ledo engano (140 toques)
Acordou assustado. Eram 8h25 e estava atrasadão. A reunião no escritório era às 9h00. Saiu apavorado. Ruas vazias. Era domingo, não segunda.

167) Contos para o Twitter (140 toques)
Tentava escrever um conto com 140 toques. Estava com148. Alterou, baixou para 138. Mudou de novo, 142. É, foi difícil, mas conseguiu os 140.

168) Fuga atrapalhada (140 toques)
Madrugada, fugira da cadeia. Ia pela via escura. Viu os faróis de um carro. De arma em punho deu um pulo e o parou. Era uma viatura da Rota.

169) Saco cheio (140 toques)
Já estava com o saco cheio. Cheio, grande e vermelho. Houve quem chorasse quando o viu. Mas, na maioria, as crianças abraçaram o Papai Noel.

170) Uivando para a Lua (140 toques)
Passou a noite na mata uivando para a lua cheia. Amanheceu e veio o eterno dilema: Quede as roupas? Praga: ser lobisomem e amanhecer pelado.

171) Gato nada malandro (140 toques)
Bonachão e preguiçoso em casa. Na rua era outro, subia e andava pelos muros, corria, saltava independente. Um dia subiu na árvore. Bombeiro!

172)Fim inglório (140 toques)
Diariamente ele gritava as manchetes vendendo o jornal. Mas, vem a notícia de uma bala perdida no bairro. O menino nunca mais vendeu jornal.

173)Motoqueiro (140 toques)
Vento no rosto. Pura liberdade. Na estrada imprimia velocidade sem se lembrar dos conselhos da mãe. Caiu e caiu na real: Moto, só com juízo.

174)Quem casa quer casa (140 toques)
Ela vivia feliz e sempre sorridente. Conheceu Victor e tudo melhorou. Eram um casal feliz. Casaram-se e tudo mudou: foram morar com a sogra.

175)Mortoqueiro (140 toques)
Queria bater o recorde. Subir a Anchieta em 10 minutos. Com a moto possante costuraria o trânsito, ultrapassaria pelo corredor. Não chegou.

176) Jamais desistia (140 toques)
Era uma enorme inspiração. Jamais desistia, conseguia. Braço e perna ausentes não faziam falta. Dava um jeito. Fã do MMA, montou o PARA-MMA.

177) Não colou porque colou (140 toques)
Na faculdade só se preocupava com o social. Colava em todas as provas. Passou os anos assim. Ficou - não pôde colar o que precisava: o grau.

178) Busão cheio (140 toques)
Ônibus super cheio. A cada ponto, mais gente. Desesperou-se e quis descer. Gritou e empurrou. Desistiu ao notar que não pisava mais no chão.

179) Noras (140 toques)
Como filho da nora do avô era casado com a nora da mãe. Poderia dizer que a nora do pai era casada com o irmão dele, mas ele não tinha nora.

180) Dia da caça (140 toques)
Caçando na savana africana, mirou o leão já imaginando aquela pele em sua sala. Preocupado só com a mira não viu a leoa atrás. Virou comida.

sábado, 2 de junho de 2012

O garanhão do interior

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Jorge era um bom filho, um bom rapaz mas... mulherengo, paquerador e, se houvesse o menor vacilo que fosse, elas não escapavam da rede daquele jovem sedutor.

Morava em Araçatuba com os pais e algumas irmãs, mas sempre dava um jeito de escapar para suas aventuras noturnas, quando, como ele mesmo dizia, o lobo ia à caça dos chapeuzinhos vermelhos.

Em seus 20 anos de idade, para Jorge, a vida era a ideal e não poderia ser melhor. Tinha vários amigos, entre eles alguns que até o invejavam pelo seu poder de conquista e outros que tinham muito interesse em aprender com aquele professor senhor de si, um pouco presunçoso mas muito amigo.

Em todos os encontros, lá estava ele narrando a última conquista, sem o menor pudor, considerando a menina apenas como um objeto de suas satisfações de macho. E os amigos sempre prestando a maior atenção, querendo mais detalhes.

Se aparecia uma jovem vinda de outra cidade era considerada, de imediato, carne nova no pedaço e tinha de ser conquistada.

Os homens saíam em uma corrida maluca para ver quem primeiro ficaria com a moça e, invariavelmente, Jorge ganhava. Não tinha como competir com aquele sujeito que de caipira matuto não tinha nada.

Até que um dia aparece Paula, uma morena de corpo escultural, vinda de Santos para passar um tempo em Araçatuba.

Ela fazia veterinária e passaria algumas semanas visitando as fazendas de búfalo da região.

Nem é preciso dizer que Jorge e os amigos ficaram alvoroçados com aquela presença feminina: alta, corpo esguio, cabelos lisos quase chegando à cintura, olhos verdes, pele morena queimada do sol e gestos delicados. Um sonho.

O primeiro passo foi irem à Pensão Icaraí na qual ela estava hospedada. Tinham de conhecer o roteiro da moça, aonde iria, aonde almoçaria, o que faria à noite, sobre o jantar, a que horas ela dormia. Tudo era interessante para traçar o melhor plano para que aquela joia fosse conquistada.

E o cerco teve início.

Lugar comum - Jorge saiu na frente. Por “pura coincidência” ele foi almoçar justamente no restaurante em que ela estava almoçando. E na mesma hora!

Jorge passou distraído pela mesa dela e, neste exato momento, torceu o pé e desabou no chão. Ela, com os instintos de cura e preocupação com a saúde, inerentes ao curso que frequentava - mesmo que fosse um animal racional e não um irracional - levantou-se rápido para socorrê-lo.

Pronto. A isca estava lançada.

O “coitado” do Jorge, sem poder andar direito por causa da torção no pé, foi “obrigado” a sentar-se na cadeira mais próxima e que ficava, “por mera coincidência”, junto à mesa em que aquela deusa de outro mundo estava ocupando.

Com a lábia de profissional que tinha, o resto foi fácil e em poucos minutos estavam almoçando juntos e conversando como velhos amigos. Conclusão: combinaram de se ver à noite para encontrarem-se com a turma e ela conhecer a noite araçatubense.

Na hora marcada, Jorge foi buscá-la na pensão e chegaram no barzinho em que a turma estava esperando. Jorge, com o ego inflado apresenta-a ao pessoal, aparentemente como a Paula mas, no íntimo, como um troféu conquistado.

A noite foi gostosa, com muita conversa jogada fora, cervejas e beliscos. Ao final, claro, Jorge a levou de volta.

Lá foram os dois, sempre vigiados pelos olhos atentos e pelas mentes imaginosas dos amigos. Cada um tentando adivinhar como seria o resto da noite e loucos para encontrarem Jorge no dia seguinte. Tinham de saber os detalhes

No dia seguinte, a decepção. Não acontecera absolutamente nada.

- Ela é muito recatada, meio tímida. De família mesmo. Pelo que vi, não vai ser fácil. Disse um Jorge lamentoso. - Mas, não desisti!

Os dias foram passando, um almoço aqui, um encontro ali e... nada. A moça continuava irredutível em suas convicções.

Na véspera de ela ir embora, Jorge lançou sua última cartada.

Os pais e as irmãs tinham ido a Lins, em casa de uns tios, e Jorge tinha toda a casa à sua disposição.

Lançou o convite com a maior cara de inocente e, para surpresa, ela disse:

- Tem certeza de que não vai haver ninguém lá? Só nós dois?

A isca fora mordida e a presa estava à mercê do Don Juan. Marcaram o horário em que ele ia buscá-la.

Jorge não teve dúvidas, ligou para os amigos como quem tivesse ganho o premio maior na mega sena. Alardeou dizendo-se mesmo invencível e que no dia seguinte narraria tudo com todos os detalhes - mas eles iam pagar o churrasco na Gaita Velha, uma das melhores churrascarias da cidade. Seria um dia de festa.

Depois de mais de duas semanas, ele estava ansioso. Quando ela entrou no carro, beijaram-se como dois apaixonados, e, pelo caminho todo, foram trocando carícias. Jorge estava louco de desejo.

Chegaram a casa e, enquanto ela se sentava no sofá, Jorge foi pegar um 12 anos que guardava escondido no quarto.

Copo de cristal, gelo, whisky, uma boa música aquela mulher do outro mundo. Tudo perfeito.

Lançou-se sobre ela e deram “um grande amasso” no sofá. Ao se levantarem para irem ao quarto ela lhe pede um instante. Tinha de ir ao banheiro, coisa rápida.

Entrou e fechou a porta atrás de si.

Jorge, imaginando como seria a noite e como seria o sucesso que ia fazer com os amigos lá na churrascaria, não se conteve. Deu uma olhada pelo buraco da fechadura para espiar sua deusa.

Parou estático com a cena que viu, não conseguia imaginar como ia contar aos amigos que ela fazia xixi em pé!

- Filho da mãe!

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Banco de jardim


Chuva ou Sol lá está ele
Namorados vêm,
Abraçam-se
Mendigos vêm,
Adormecem


Sempre lá, às ordens
Velhas senhoras?
Tricotam
Velhos senhores?
Às moças olham


De lá não sai
Crianças correm
Trepam, pulam
Crianças?
Brincam


Estático!
Mães chegam
Descansam
Solitários?
Observam


Todos têm um por quê
Só ele não
Não é problema
Afinal não precisa
Ele é a razão

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Contos Twitteranos [8]


Contos Twitteranos
Contos que, como no Twitter, devem conter
um máximo de 140 toques.
O mais legal é fazer com que fiquem
com exatos 140 toques.

141) O ídolo (140 toques)
Os fãs queriam vê-lo. Em respeito, saiu do carro, abraçou todos, tirou fotos etc. Enquanto isso o verdadeiro saía pelos fundos. Santo sósia.

142) Preguiça (140 toques)
No domingo recusou-se a acordar cedo. Enrolou na cama o quanto pôde. Achou que já era demais e levantou. Ninguém à vista. Haviam ido dormir.

143) Férias (140 toques)
Férias! Estava chegando o dia. Sentia-se livre para não fazer nada. Iria viajar, aproveitar e gastar os tubos. Chute na bunda. Desempregado!

144) Voto secreto (140 toques)
Foi feliz visitar o Congresso. Queria saber como votava o candidato eleito. Deu azar. Corporativismo para salvar um colega, votação secreta.

145) O dia caça (140 toques)
Foi caçar passarinhos. Pegou vários, de diversas espécies. Voltou com oito gaiolas bem cheias. Flagrado pelo IBAMA, só ele ficou engaiolado.

146) Lei de Murphy (140 toques)
Tropeçou ao levantar da cama. Bateu a cabeça na porta do armário. O chuveiro estava queimado. Saiu com raiva de casa, atrasado. Pneu furado.

147) Porta trancada (140 toques)
Chegou cansado. Deixou o carro na garagem e subiu os cinco lances de escada com as malas. Chegou à porta e... a chave ficara no porta-luvas.

147) Jogo na madrugada (140 toques)
Acordou às quatro da manhã para ver o vôlei. O jogo decisivo empatara em dois sets. Acontecia o quinto set. O placar mostrava 19X18. Dormiu.

148) Vida fácil (140 toques)
Mulher de vida fácil. Dormia pouco. Noite e dia, não havia sábado, domingo ou feriados. Não podia escolher, aguentava. Mulher de vida fácil?

149) Batizado (140 toques)
Primeiro afilhado. Acordou tarde para batizá-lo. Arrumou-se, pressionou a mulher e voaram para a igreja. Não acharam ninguém. Igreja errada.

150) Banho de piscina (140 toques)
Depois de um dia estressante e muito quente, só queria ir para casa e tomar um bom banho de piscina. Não poderia. Não tinha piscina em casa.

151) Um corpo estendido no chão (140 toques)
O sol acabara de sair e ele já em pé. Descendo para a garagem coletiva deparou com um corpo estendido no chão. Como? Quem matou a lagartixa?

152) Carrão importado (140 toques)
Acelerou o carrão importado esbanjando esnobação certo de que todos o olhavam com inveja. Parou no meio do "show", sem gasolina. Riso geral.

153) Jantar em família (140 toques)
Jantava feliz ao chegarem alguns parentes. Dividiu. Chegaram outros, famintos. Ele cansou: - Chega! Uma barata só não dá para 20 lagartixas.

154) Nervoso (140 toques)
Acordou nervoso, vomitou. Não conseguia pensar em nada. Iria fazer a prova final para tentar não repetir o ano. Não era melhor ter estudado?

155) Nascituro (140 toques)
Naquele mundinho solitário era feliz. Não havia preocupações ou barulho. Um descanso. Era só alimentar-se e dormir. Ainda não havia nascido.

156) No volante (140 toques)
Rei do volante. Pegas? Vencia todos. Era abusado. Um dia, após dirigir por 12 horas, escutou a bronca: - Menino, desliga já esse vídeo-game!

157) O velório (140 toques)
Assistia ao próprio velório. Espírito persistente, não queria partir. Ouvia os choros, mas não ouvia o que queria: - Olhem! Está se mexendo!

158) Jogo perdido (140 toques)
Fugiu cedo do trabalho para ver o jogo. Pneu furado, trocou. Foi parado no comando. Atrasado, saiu apressado. Bateu o carro - perdeu o jogo.

159) Vil dinheirinho (140 toques)
Avaro, guardava todo dinheiro ganho. Só gastava sob muita pressão. Até que se tocou: de que adiantaria ser o defunto mais rico do cemitério?

160) Decisões (140 toques)
"Sei lá" era tudo o que dizia. Não se envolvia com nada. Deixava o tempo resolver. Não se formou não se casou. Não tinha opinião. Não viveu!

terça-feira, 8 de maio de 2012

O crime compensa?

PARE

Quando a namorada o convidou para assistirem a O Assalto ao Banco Central, Dennys foi sem qualquer pretensão. Era somente mais um filme.

Todavia, aquele filme mexeu com o jovem, alimentando sua sagacidade. Não era, de forma alguma, mais um filme, era uma grande ideia e poderia ser posta em prática.

Dennys voltou outras vezes ao cinema e assistiu tanto àquele filme que sabia as falas de cor e salteado.

Todos os detalhes foram absorvidos por completo. Concomitantemente, lançou mão de jornais da época, relatos na internet, devorou o máximo possível de informações sobre o grande assalto.

Poderia ser uma ideia descabida para um rapaz simples, do povo, que jamais sequer furtara uma flor de um jardim. Mas, aquele assalto realmente mexeu-lhe com os brios e virou ideia fixa: tinha de repetir a façanha daqueles homens destemidos e tinha de se dar bem.

Pensou exageradamente em cada detalhe. Escolheu o alvo com atenção e muito cuidado.

Não queria sair bilionário. Milionário já estava de bom tamanho.

Selecionou a dedo a equipe, do menor tamanho possível. Alugou uma casa próxima àquela agência bancária que, mensalmente, pagava os trabalhadores das fábricas ao redor e sempre tinha muito, mas muito mesmo, dinheiro em caixa.

Precavido fizera as contas por baixo: cerca de dez mil trabalhadores com uma média de cinco mil reais cada um, seria algo em torno de cinquenta milhões de reais.

Sim, era o suficiente.

Analisou os prós e os contras, estudou em detalhes cada erro cometido pelo bando do assalto original e, depois de uns três anos de intensos trabalhos considerou-se pronto para pôr o plano em prática. Finalmente a teoria iria sair do papel.

Fez tudo certo, sem pressa. Absolutamente tudo dentro dos planos.

Escavar o túnel levou o tempo esperado, a desembocadura exatamente no local planejado e todo o dinheiro lá, esperando por eles.

Haviam gasto três meses para chegar no destino e estavam cansados porém, com aquela “visão monetária” à disposição, o cansaço foi embora

Pegaram as grandes sacolas e guardaram todo o dinheiro que estava no cofre - só deixaram as moedas, pois eram peso demais e pouco valor.

Voltaram pelo túnel e o desmancharam desde o final, junto ao cofre, até alguns metros depois do desvio feito para ludibriar quem por ali passasse, afastando-o da entrada naquele pequeno quarto da casa alugada.

Na casa, todo o dinheiro ficou armazenado em paredes falsas, onde ficaria por, no mínimo, três anos. Precisavam deixar tudo esfriar, a mídia esquecer o caso para, então, buscar a dinheirama.

Desta última parte do plano, somente Dennys e seu fiel escudeiro, Pedro Henrique, conheciam. Todo o resto do bando já havia dispersado.

Foram os três anos mais longos da vida de todos. Até que chegara a hora derradeira.

Dennys e Pedro Henrique rumaram para a casa que continuava ali e fora habitada normalmente por uma família que jamais desconfiara do que havia dentro daquelas paredes. O contrato do subaluguel expirara e, como combinado, o imóvel havia sido entregue.

Na calada da noite, sem despertar suspeita, estacionaram a Kombi em frente, abriram as paredes e foram depositando as sacolas, uma a uma, no centro da sala.

Tudo pronto, Pedro foi abrir a Kombi e, ao sair, surpresa!

A perua? Onde está a Kombi?

Pois é, havia sido roubada. Denys indignou-se: não havia mais gente honesta neste mundo? Como poderiam ter furtado uma Kombi velha que não chamaria a atenção de ninguém?

Perdeu a paciência e sabia que tinham de sair logo dali. Então, o sentimento dominou a razão e ele tomou a primeira decisão não previamente calculada.

Estancou-se no meio da rua com a arma em punho. Parou, no grito, um carro que vinha descendo a rua, fez descer o casal. Mas o carro, um Fiat Palio era pequeno demais para todo o volume a ser carregado.

Pedro Henrique, que estava com Dennys, viu um outro par de faróis subindo a rua e não pensou duas vezes, afinal não podiam perder a oportunidade já que não sabiam quando passaria um outro carro por aquela rua deserta.

Parou estático no meio da rua, tal qual fizera Dennys, e, quando foi dar a ordem para o carro parar, engoliu em seco.

Por que tinha de ser logo uma viatura da ROTA?

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Contos Twitteranos [7]

Contos TwitteranosContos que, como no Twitter, devem conter
um máximo de 140 toques.
O mais legal é fazer com que fiquem
com exatos 140 toques.
121) O quebra-cabeça (140 toques) Em vão tentava montar o quebra-cabeça do tigre. Recorreu à melhor amiga que, ao chegar, disse-lhe: Antes vamos guardar os sucrilhos da mesa.
122) Futebol (140 toques) Pausa do almoço. Mesmo de terno e gravata quis jogar futebol. Uma, duas, três partidas. Parou após a quarta. Como vicia esse tal de pebolim.
123) Carnegie Hall (140 toques) Foi para Nova York dizendo que tocaria no Carnegie Hall. Na volta, confirmou alegre: sim, havia tocado lá. Só não falou que foi a campainha.
124) O campeonato (140 toques) Há 20 anos não era campeão. Bastaria um gol. Mini-fone escondido na orelha em pleno casório. Gol aos 48. Não podia ter gritado, era o noivo.
125) A sogra (140 toques) Malandro, casou-se com a filha de olho na mãe. A sogra enviuvou. Ele viu a grande chance e a convidou para morarem juntos. Viva a poliginia!
126) As pipas (140 toques) No alto, a briga era feia. Vários puxões e elas se enfrentavam bravamente. Só uma venceria e o troféu seria de quem pegasse. Ganhou o cerol.
127) Pequenos Contos (140 toques) E do nada ele se alegrou. Viu alguns frutos brotando da árvore da literatura. Uma novata que experimentou, gostou e, de escrever, não parou.
128) Bronca certa (140 toques) Chegou tarde, pisando manso. Ela desculpou a hora, a bebedeira, não brigou e o abraçou compreensiva. Mas, ao abraçar, viu a mancha de batom.
129) A loiraça (140 toques) A loira aproximou-se. Aquele corpo escultural abraçou-o, cheirou seu pescoço e lhe deu um beijo de perder o fôlego. Só podia ser sonho. Era!
130) O gago (140 toques) Era gago. Nervoso não conseguia falar nada. Aí chega um tremendo guarda-roupa de três metros de altura e pergunta: - Qu-que ho-horas sã-são?
131) O pesadelo (140 toques) Pesadelo! Ele acordou de madrugada suando frio. Havia sonhado que tivera um filho, ali, sozinho na cama. Era a prisão de ventre que acabara.
132) Sapatos novos (140 toques) A balada prometia. Foi estreando os sapatos novos. A turma dançava e ele ali, quieto sentado à mesa. Chamavam-no sem sucesso. Maldita bolha.
133) Surpresa na prova (140 toques) Gastou o final de semana todo estudando matemática. Acordou na segunda-feira sentindo-se preparado para a prova. Surpresa! Era de português.
134) Caiu, chorou, parou, levantou, brincou (140 toques) Caiu, chorou, parou, levantou, brincou. Caiu, chorou, parou, levantou, brincou. Caiu, chorou, parou, levantou, brincou. Caiu, chor... CHEGA!
135) Ficou com fome (140 toques) Meio da tarde e ainda sem almoço. Com fome, desceu as escadas e comprou uma marmitex. Na volta, no último lance, escorregou e a comida voou.
136) A separação [1] (140 toques) Depois de anos, às vésperas do casamento, a briga foi tão feia que terminaram. Não se casariam mais. Separação. Os dois queriam ser a noiva.
137) A separação [2] (140 toques) Depois de anos, às vésperas do casamento, a briga foi tão feia que terminaram. Não se casariam mais. Separação. As duas queriam ser o noivo.
140) Só tem macho (140 toques) -Na minha cidade só tem macho! O pequeno pergunta: -Só macho? - É sim, responde o machão. -Na minha não, lá tem mulher também e é muito bom.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Passos do além

Passos do além

Felipe, surdo de nascença, aprendera desde cedo a falar por meio de sinais e comunicava-se sem problemas com seus familiares e com alguma dificuldade com os amigos, pela simples falta de prática já que nem sempre estava com eles.

Levava a vida sem problemas, mas tinha um grande empecilho - sendo surdo, não aprendera a falar, algo pelo qual ansiava.

Era de uma família sem recursos, mas certo dia o tão desejado aparelho chegou às mãos de Felipe por um padrinho, como presente de aniversário.

Começou então uma grande via crúcis com idas a médicos, fonoaudiólogos, grupos de tratamento para aprendizado em conjunto, tudo para aprender a ouvir com o aparelhinho instalado dentro do ouvido e, por conseguinte, começar a falar de uma maneira que todos o entendessem.

Que maravilha.

Felipe também gostava de livros e filmes de terror. Gostava de sentir, em segurança, aquela sensação de medo, preocupação, temor. Curtia especialmente quando tratavam do além.

Sabia que estava em segurança e aquilo era só filme. À noite dormia tranquilo; às vezes lembrava-se de alguma cena mais forte, mas nada que lhe tirasse o sono.

Assim transcorria até certa noite que, cansado, deitara-se com o aparelho de surdez. Noite adentro acordou com um barulho de passos dentro de seu quarto.

Abriu os olhos pensando em ver o pai ou a mãe, mas... nada!

Aquele silêncio que imperava somente era quebrado pelo som dos passos a esmo pelo quarto, mesmo não havendo mais ninguém por ali, eram ouvidos.

Bastou para Felipe. Agora era medo de verdade, de algo que não entendia. Quem poderia estar andando por ali? De onde teria vindo? Quais as intenções? Dúvidas, dúvidas e mais dúvidas e nenhuma pergunta respondida.

Tirou o aparelho. Silêncio. Os passos pararam.

Felipe entendia que não haviam parado. Era porque sem o aparelho não podia escutá-los. Virou-se para o canto, cerrou os olhos, rezou todas as orações que conhecia e acabou dormindo.

O dia transcorreu normal, sem sobressaltos, afinal, com todos os barulhos sendo ouvidos de uma vez só, sequer identificava se os tais passos o acompanhavam ou não.

À noite, hora de ir para a cama, o pobre coitado começou a preocupar-se. Havia recusado o convite de um amigo para irem assistir à Atividade Paranormal 2 no cinema, algo que normalmente iria, mas com os acontecimentos da noite passada, nem pensar.

Deitou-se e começou a imaginar se os passos continuariam ou não. Será que quem esteve ali teria voltado para assombrá-lo mais uma vez? Afinal, o que poderia querer com ele?

Dormiu. Acordou no meio da madrugada, perscrutou o quarto todo e não viu nada. Corajosamente, colocou o aparelho no ouvido e ficou estático, aguardando.

Não demorou nada e... plac plac plac... os passos voltaram.

O menino pensou em chorar. Se ouvir era isso, não queria mais saber, preferia permanecer surdo a sentir essa sensação de pânico perante o desconhecido.

Estava aprendendo a ouvir, já distinguia alguns sons, mas passos em mais uma madrugada era demais.

Felipe quase corre para o quarto dos pais. O que seria isso? Brincara demais com o mundo espiritual e agora havia alguém invertendo a brincadeira?

Lembrou-se do filme Sexto Sentido. Seria alguém precisando de ajuda? Mas ele não via nada, só ouvia os passos.

Depois de uma semana nesse sofrimento, indo à igreja como nunca, rezando como um beato, Felipe resolveu que era hora de buscar ajuda materna. Não suportava mais.

Dia seguinte contou à mãe. Ela o levou a um centro espírita de mesa branca para tentarem decifrar o ocorrido.

Na conversa não chegaram a acordo algum. Poderia ser isso ou aquilo, mas nada de uma conclusão a respeito.

Voltaram para casa. Felipe, cabisbaixo, pensava em mais uma noite na companhia de sabe-se lá quem.

Quase se esqueceram da consulta no otorrino para medirem a audição e uma verificação no aparelho.

Chegaram em cima da hora, já sendo chamados para a consulta.

O médico examinou daqui e dali e achou por bem mandar fazer uma verificação técnica no aparelho, o qual apresentava uns estalidos que não eram normais.

Felipe quase caiu da cadeira. Passos? Que nada.

- Maldito aparelhinho com defeito!