segunda-feira, 29 de julho de 2013

O Mulherengo

O Mulherengo JUL2013

Ilustração feita pelo Luiz Rafael da Caricômicos,

um parceiro indicado por este Blog.

Clóvis era um mulherengo, desses sem noção, mas de muito bom gosto.

Se visse um “rabo de saia dando sopa”, como costumava falar, analisava a presa atribuindo-lhe uma nota de 0 a 10, somando os atributos e tirando uma média.

Com média acima de sete não havia escapatória. Era o suficiente para ele mostrar as garras mais que afiadas e ir para o ataque.

A partir daí, a moça não tinha mais sossego. Era comprometida? E daí? Clóvis não era ciumento.

Solteirão convicto, volta e meia saía com o pessoal do escritório par as caçadas noturnas e a turma, mesmo os casados, topava.

Bem, nem todos. Havia o Zezão.

Zezão não, José Barbosa das Quintas, um cara jovem e bastante sério. Sério demais.

Levava uma vida diferente dos demais daquele escritório. Adepto dos esportes marciais, preferia ir para a academia a sair com o pessoal.

Até porque o Zezão era noivo da Carol, uma tímida garota que frequentava a igreja com os pais. Os sogros formavam um casal tradicional, bem conservador, com o valor família muito arraigado, algo que para o Zezão era um sonho de felicidade.

Criaram a filha com tais valores. Era impossível trair a Carol.

Como fazer isso com aquele pedaço de céu? Se ela se guardava para ele, ele tinha mais que obrigação de se guardar para ela. O casamento não estava longe.

E este era um campo terminantemente proibido para brincadeiras, do qual os amigos mantinham distância. Quem iria arrumar confusão com aquele gigante lutador de Jiu-Jitsu e outras?

Zezão era uma moça no trato com todos, mas, em se tratando da Carol... sai de baixo.

Claro que, entre eles, mesmo sem conhecer a Carol pessoalmente, faziam numerosas brincadeiras sobre os dois “brigando” na cama, sempre acabando com um “coitada da menina”.

Toda vez que marcavam uma saída para um “safári”, o divertido era insistir com o Zezão. Cada um por sua vez.

O coitado ia dando explicações com paciência do por quê recusava o convite, até que não agüentava mais e estourava. Perdia a paciência.

Objetivo alcançado, a turma parava de atormentar o grandão, deixando-o com um sentimento de culpa. Como podia ele brigar se os amigos só queriam vê-lo divertindo-se?

Mal sabia ele que a intenção era essa mesma.

Cientes de que ele não iria, provocavam-no e o sentimento de culpa tornava o Zezão uma moça no dia seguinte. Ajudava todo mundo e ainda cobria os que, por ventura (e pela noitada) chegavam tarde.

Certa vez contrataram uma moça para ir até o escritório brincar com o Zezão. Era aniversário dele e levariam um bolo para comemorar. Bolo e presente.

No final da tarde, Clóvis desce para pegar um documento na portaria do prédio e, na volta, pega o elevador com uma bonita morena de olhos verdes e corpo mais que escultural.

- Vai para qual andar, jovem? Perguntou, já jogando um olhar diferente.

- Décimo, por favor.

- Eu também vou para esse andar. Trabalho na JR.

- Ora, é para lá que estou indo. Eu...

Quando ela ia terminar a frase, um Black out. Elevador parado e só uma tênue luzinha de emergência tentando iluminar o lugar.

Deviam estar lá pelo 5º ou 6º andar, mas Clóvis nem pensava nisso.

Seus olhos, atenção, libido, senso de garanhão caçador... tudo estava voltado para aquela obra magnífica à sua frente e sem lugar para fugir.

--- Caramba, pensou, o Maurício caprichou quando contratou a menina para azucrinar o Zezão. Mas, lamento pelo pessoal pois, aqui sozinho, preso com ela... já era!

Aí começou com a conversinha para boi dormir e, sem que ele esperasse, ela pulou em cima dele.

- Adoro esta sensação de perigo. Saber que a luz pode voltar a qualquer momento mexe muito comigo e não resisto à tentação de me soltar.

O que se seguiu a partir dali foram algumas lições de primeira. Clóvis sentia-se no jardim de infância.

E ela lá, fazendo coisas que eram novidades até para aquele garanhão que achava saber de tudo e mais um pouco. Boquiaberto, ia concordando e aceitando tudo.

Uma loucura geral, inenarrável. Dentro daquele elevador era ele quem não tinha para onde fugir e só pedia para que a luz não voltasse nunca mais.

Mas, voltou. Foram cerca de 20 minutos de uma completa aplicação do Kama Sutra – para Clóvis não havia outra explicação ou algo que melhor definisse o que ocorrera dentro daquele elevador.

- Menina, precisamos nos encontrar mais vezes. Disse um ofegante Clóvis enquanto se arrumava.

- Gostou? Eu também gostei muito.

- O Maurício, quando a contratou, sabia bem o que estava fazendo.

- Hã? Que Maurício? Ninguém me contratou.

- Não? Ué, eu pensei que... bem deixa pra lá. Eu sou o Clóvis. Qual o seu nome?

- Carol!

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Dois séculos e meio

Zé AntonioNo dia 13 de junho de 2013, o José Antonio, um dos mais ilustres cidadãos santistas, teria completado 250 anos de idade - claro, se vivo estivesse.

Isso foi mês passado e eu, não santista de nascimento como ele, mas que me mudei para esta cidade há mais de 40 anos e a adotei como minha, afinal foi ela que me deu aquilo que eu tenho de mais precioso: as mulheres que compõem minha família - todas santistas, conterrâneas do Zé Antonio (intimidade pode?).

O fato é que não vi quase nada de comemorações por aqui. Até eu, que sou ligado às coisas da história da cidade, deixei passar em branco, sem uma homenagenzinha sequer, o que faço agora para corrigir.

O Zé Antonio nasceu em Santos em 1763. Foi um grande estudioso e, não à toa, tornou-se filósofo, advogado, professor, intelectual, cientista e político. Ele até combateu Napoleão em Portugal, se bem que não foi um combate tão combate assim, pois quando as tropas do Napa (olha a intimidade, de novo) chegaram a Portugal, eram apenas uns pobres coitados, esfomeados que se Dom João soubesse, jamais teria fugido com a Corte toda para o Brasil naquele 29 de novembro de 1807. Que vergonha Joãozinho... (epa, olha a intimidade com o Rei).

Essa fuga do Rei, abandonando o povo português à própria sorte, foi boa para o Brasil. Já pensou, você acorda de manhã e não tem ninguém no comando do país?

Mas, essa é outra história. Então, vamos voltar ao Zezinho (mais que íntimo).

Esse santista foi atuante também no campo da química, geologia e mineralogia, ganhando respeito internacional a tal ponto que James Dwight Dana, geólogo de fama mundial, premiado internacionalmente e autor de livros e manuais sobre geologia, batizou uma recém-descoberta rocha do grupo das granadas com o nome do brasileiro e, por isso, no mundo da geologia existe, hoje, a Andradita.

Ele também participou ativamente dos esforços para a independência do Brasil.

Em alguma aula de história você deve ter ouvido a célebre frase "como é para o bem de todos e felicidade geral da nação, estou pronto: diga ao povo que fico", dita por Dom Pedro no dia 9 de janeiro de 1822, o Dia do Fico. Então, o nosso Zé Antonio foi um dos primeiros, se não o primeiro, a mandar uma carta ao Pedrinho (oops, de novo) exigindo que ele ficasse, que não voltasse a Portugal.

Em julho de 1822, quando o “bicho pegou pra valer” e Portugal estava preparando tropas para virem ao Brasil e impor as exigências do Rei, tirando a autoridade de Dom Pedro, lá estava o Zé Antonio em sua incansável batalha pela independência do Brasil.

Rapidinho ele buscou apoio internacional, mandando delegados a Londres, Paris e também para a capital de um certo país que declarara sua independência há 46 anos: Washington.

Para reforçar o apoio, também fortaleceu as alianças com governos sul-americanos, especialmente com a Argentina.

Até reviravoltas na vida dele houve. Durante uma crise política, Dom Pedro 1º dissolveu a Constituinte e mandou o Zé Antonio com os irmãos para fora do Brasil. Ele ficou exilado no sul da França até 1829 quando pode voltar ao Brasil - embora o Imperador já houvesse declarado sua inocência há algum tempo. De herói a vilão?

Só em julho de 1829 José Bonifácio regressou ao País. Dom Pedro, forçado a abdicar no dia 7 de abril de 1831, voltava para Portugal. Advinha quem ele deixou como tutor dos filhos? Claro, um santista porreta: o Zé Antonio. Haja moral.

Pois é, o cara não era fraco não. O Brasil inteiro o conhece, está em todos os livros de história do Brasil, pois foi um dos personagens que a escreveu e aqui em Santos há gente que nunca fez uma visita ao túmulo dele. Que isso galera?

E aí? Você sabe quem é esse tal de José Antonio?

Talvez pelo nome de batismo dele seja meio complicado, você pode estar em dúvida, mas, esclarecendo para dirimir quaisquer dúvidas:

O José era filho dos primos Bonifácio José Ribeiro de Andrada e Maria Bárbara da Silva e, ao longo de sua vida, adotou o nome do pai e passou a ser José Bonifácio de Andrada e Silva.

Esclarecido? Então, se ainda não foi, faça uma visita ao Pantheon dos Andradas, na Praça Barão do Rio Branco, ali no centro de Santos. É fácil de achar - é o prédio da foto que ilustra este texto.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Contos Twitteranos [20]

Contos Twitteranos

Contos que, como no Twitter, devem conter
um máximo de 140 toques.
O mais legal é fazer com que fiquem
com exatos 140 toques.

381) Vida de cão (140 toques)
Foi à casa da namorada. A noite prometia. Mas uma lua cheia brilhava lá no céu. Não passou da casinha da cachorra. Complicado ser lobisomem.

382) Bronzeamento (140 toques)
Praia! Foi bronzear-se. Certeza de sucesso à noite nos barzinhos de sua cidade. Dormiu na cadeira e virou camarão. -Ai! Não encostem em mim!

383) O amor (140 toques)
O fogo se acendeu com a chegada da noite e, sob a luz do luar, entrelaçaram-se. Amaram-se. Pelo fruto gerado nunca mais se desentrelaçariam.

384) Parentes (140 toques)
Ela fizera planos para o feriadão. Planos simples: praia e descanso. Os parentes vieram do interior com saudade da comida dela. Fogão e pia.

385) Compras (140 toques)
Foi a São Paulo pra comprar roupas. Andou pelo JK Iguatemi, entrou nas lojas, procurou, provou, pensou e comprou tudo o que quis... no Brás.

386) Cigarro (140 toques)
Ao ver o câncer matar o pai, ele apagou seu último cigarro. As filhas o olharam com esperança. Meses depois descobre que se salvara a tempo.

387) Luz no fim do túnel (140 toques)
Preso há tempos, notou uma luz. Esforçou-se para conseguir pôr a cabeça pelo buraco de onde vinha a luz. Passou a cabeça e o corpo: nasceu.

388) Torcicolo (140 toques)
Ele acordou com uma grande dor no pescoço. Mesmo assim foi assistir ao jogo. Sentou-se bem na direção da rede. O tênis venceu seu torcicolo.

389_ Piadas (140 toques)
Os amigos reunidos em torno dele. Grandes piadas estavam sendo contadas. Riam alto. De repente, fez-se um silêncio. Hora de fechar o caixão.

390) Workaholic (140 toques)
Sempre preocupado com a velhice, trabalhava 24 horas por dia. Trabalhava e economizava sem descanso, para garantir. Foi cedo e não usufruiu.

391) Dúvida (140 toques)
Ia ou ficava? Sabia que sem ir, ficaria. Contudo, se não ficasse, iria. Já não entendia se era pra ir e não ficar ou era pra ficar e não ir.

392) O Grande Chef (140 toques)
Imaginou-se um Grande Chef. Foi ao fogão e preparou o jantar com toda a pompa. Pôs a mesa com tudo de direito. Sentou-se e saboreou o miojo.

393) Vale a pena colar? (140 toques)
Quando aprendeu a ler e escrever, também aprendeu a colar. Estudar para quê? Colador profissional. Formou-se! Não sabia exercer a profissão.

394) Plantão médico (140 toques)
Sempre arrogante, estava de plantão. - Doutor, infarto! - Estou acabando meu descanso já vou. Quando foi viu quem lhe salvara a vida, morto.

395) Piloto de caça (140 toques)
Às da aviação, o melhor piloto da base. Aceitava qualquer missão. Tinha uma certeza: um dia abandonaria o vídeo-game e pilotaria de verdade.

396) Brinquedo de criança (140 toques)
Pião, bolinhas de gude, carrinhos de rolimã... infância sempre brincando com os amigos. Era triste ver o filho, sozinho, jogando vídeo-game.

397) Cão amigo (140 toques)
Detestava cães. Só atrapalhavam. Um dia atropelou um vira-lata e, com sentimento de culpa, levou-o para casa. Hoje ele é o seu melhor amigo.

398) Poliginia (140 toques)
Queria morar num país no qual pudesse ser bígamo. Mudou e casou-se com duas meninas lindas. Como bônus, duas sogras mais bruxas que a bruxa.

399) Piloto (140 toques)
Era abusado demais, só andava com o pé embaixo. Ultrapassava todos, adorava fazê-los comer poeira. Ninguém era páreo. Espatifou-se no poste.

400) Felicidade (140 toques)
Vivia agradecendo por tudo. Bom ou ruim, lá estava ele agradecendo. Os amigos enão entendiam o por quê, como não entendiam ele ser tão feliz.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Aquarela - Toquinho

Sou fã doToquinho desde há muito, muito tempo.

Ele é um dos caras que faziam  música para mim nos tempos de juventude. Eram ele, Vinícius de Moraes, Tom Jobim, Edu Lobo e outras feras.

Sou velho? Não, sou sortudo. Não eram só boas músicas, eram letras mais que inteligentes.

A música Aquarela é uma tremenda homenagem à ideia e é ela que uso para lembrar de que não precisamos de muito para sermos felizes.

Infelizmente não sei quem fez esse vídeo, mas está de parabéns. Assistam a ele, curtam a letra, as imagens e viajem do jeito que quiserem.

Fujam desse dia a dia maluco em que vivemos e permita-se ser criança por alguns minutos.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Traição não!

Traição não provisórioCasado há mais de 20 anos, Gerson jamais traíra a mulher. Para ele o casamento era sagrado. Formavam um par perfeito; não poderia ser melhor.

Os amigos sempre o perturbavam querendo levá-lo para as grandes noitadas que promoviam e, invariavelmente, acabavam em um quarto de hotel ou motel com garotas, várias garotas.

Ele se mantinha firme em seu propósito de completa fidelidade. Dorinha não merecia ser traída e o casamento dele não poderia ser comprometido com uma mancha dessas.

Aqueles que não o conheciam duvidavam de sua fidelidade. Achavam que era um engodo ou piada. Simplesmente não acreditavam ser possível, nos tempos hodiernos, alguém ser fiel.

Gerson não queria saber. Não se importava com o que pensavam, pois era assim que encontrava a felicidade.

Se olhava para belas mulheres que passavam? Claro que sim, afinal apreciar o belo é um direito de todos, mas o fazia sem cobiça.

Seus sonhos, sua libido e tudo o mais eram todos direcionados à Dorinha. Era ela quem importava. Se ela estava feliz, ele estava feliz.

Sentia orgulho de si mesmo quando chegava a casa e olhava a esposa, bem fundo nos olhos, sem qualquer constrangimento ou arrependimento por qualquer ato que pudesse ter praticado contra o seu santo matrimônio, contra a pessoa que mais amava neste mundão de Deus.

Mas, tão duro quanto a vontade ferrenha de Gerson era o empenho dos amigos para que ele cedesse. Rolavam até apostas se conseguiriam ou não.

Até então haviam tentado de tudo e o Gersão continuava insuscetível. “Bravo herói de um tipo de homem em extinção”, brincavam os amigos.

Certo dia, para comemorar o aniversário do Chefe, marcaram de comer um churrasco e tomar umas cervejas. Iam na Churrascaria Leitão, em Praia Grande.

Gerson topou ir, afinal eram só umas cervejas na churrascaria e jogar conversa fora.

Ligou, como sempre, para Dorinha avisando-a do que ia acontecer e o por quê de chegar em casa só após as onze da noite.

Foram em dois carros e Gerson, de carona, não teve chance de dizer não, mesmo quando se tocou de qual era o destino.

Os carros entraram pelo portão de uma grande casa perto do Forte, na qual algumas meninas devidamente contratadas estavam à espera do grupo.

Arrastaram o pobre do Gerson e a mais bela das garotas, já avisada e muito bem instruída, jogou-se toda fogosa pra cima dele.

Gerson foi, de cara, praticamente arrastado para um dos quartos, sem fala e sem saber o que fazer, ele ficou sem ação, apenas como observador de tudo aquilo que ia acontecendo.

Quando deu por si, estava de cueca e a moça nua na cama, chamando-o.

- Pare! Isso não pode acontecer. Eu amo minha mulher e não vou estragar meu casamento!

Dito isso, Gerson vestiu-se e saiu rápido, chamou um táxi e foi para casa.

Sentado no banco de trás, ele foi tentando recuperar-se e uma dúvida insistia em perturbá-lo: contaria ou não, aquela passagem, à esposa?

Decidiu-se por não contar. Apagaria aquilo da memória - nada acontecera.

Pediu ao motorista que parasse em frente a uma floricultura e comprou umas flores.

Chegou em silêncio, ia fazer uma boa surpresa à amada Dorinha.

Procurou-a e, ouvindo o barulho do chuveiro, subiu a escada e foi em direção à suíte do casal.

Abriu a porta gritando: - SURPRESA!!!

Entrou no box com as flores, de roupa e tudo e trocaram um beijo ardente, cheio de paixão e, no caso dele, com um certo sentimento de culpa por quase tê-la traído.

O beijo foi tão ardente e cheio de paixão que ele nem notou, Nestor, o limpador de piscinas, que deu uma olhada rápida no casal, da porta, recolheu sua roupa e saiu de fininho...

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Contos Twitteranos [19]

Contos TwitteranosContos que, como no Twitter, devem conter
um máximo de 140 toques.
O mais legal é fazer com que fiquem
com exatos 140 toques.

361) Príncipe encantado (140 toques)
Sabia que na lagoa havia um príncipe. Beijou todos os sapos e, nada. Não reparou no belo rapaz que pescava. O príncipe não estava encantado.

362) Zoo? (140 toques)
Os bichos viam através das grades e não entendiam. Todos deveriam ser livres. Por que, naquele parque, os humanos estavam presos nas jaulas?

363) O curió (140 toques)
Cantava um canto sofrido. O dono deliciava-se com o pássaro cantando sem imaginar que a letra daquela música pedia por liberdade longe dali.

364) Medo (140 toques)
Durante a noite quase desistiu. Não dormiria. O dia seguinte seria um divisor que separaria o homem do rato. Tinha hora no dentista – canal!

365) Tecnologia (140 toques)
Casal no chat do Face. Altas horas da noite e ele manda: Partiu dormir. Os dois desligam os aparelhos, dão-se um selinho, viram-se e dormem.

366) Quietude (140 toques)
À noite o gato dele miava alto e o papagaio gritava. O cão do vizinho: silêncio. - Muito educado seu cachorro, elogiou. - Quem, ele? É mudo!

367) “F” (140 toques)
Famoso fanfarrão ficava feliz fazendo fãs fascinadas. Fã? Fazia fugir friamente. Fera frívola, fecundava faxineiras faceiras, fêmeas fáceis.

368) Lentidão preguiçosa (140 toques)
Era tão devagar que quando a esposa começou com as dores do parto, foi buscar a parteira e chegou a tempo de ver o filho completando um ano.

369) Flagrante (140 toques)
- Mamãe, o pai e a nossa vizinha estão na TV! – Como? Onde? Qual o programa? – No polícia 24 horas. Parece que houve um assalto em um motel.

370) O cara (140 toques)
O mais esperto dos amigos, sempre pegava a gata mais gata. Naquela balada, o óbvio: pegou a melhor. Só não sabia que era Carlos e não Carla.

371) O flagra (140 toques)
A filha abre a porta e flagra os pais. –Filha! Grita a mãe, cobrindo-se. –Ora mamãe, já vi isso antes. –Como? –O papai com a empregada nova.

372) Família (140 toques)
Ele era muito rico. Pensava que tinha de tudo e era feliz. Pensava. Até ver o amigo pobre com a família. Notou que, na real, não tinha nada.

373) Coisa nojenta (140 toques)
Aquela cozinha estava um nojo. Era uma visão insuportável. Panelas brilhando e guardadas, pratos limpos, nada na pia. As baratas desistiram.

374) Impunidade (140 toques)
Atacou, estuprou e, sem o menor respeito ou pudor, ria da cara dos policiais quando foi preso, ciente de que logo seria solto. Era de menor.

375) O bolo (140 toques)
Fez um bolo delicioso para agradar o maridão. Altos recheios e cobertura. O marido chega, mal olha o bolo, e pergunta: – Guardou massa crua?

376) A pesca (140 toques)
Não pescaria nada, mas ele foi assim mesmo. Voltou no final da tarde, sem nada e feliz. Melhor que ficar em casa aturando a visita da sogra.

377) Vida de gari (140 toques)
Era gari. O dia todo correndo atrás do caminhão catando lixo dos outros. Chega em casa tarde, cansadão e ouve: - Amor? Põe o lixo pra fora?

378) Jogo decisivo (140 toques)
Jogo decisivo. Atrasadão, desceu do ônibus e pegou um táxi do Jabaquara até o Pacaembu. Estranhou não ver ninguém. O jogo era lá em Barueri.

379) Presidiário (140 toques)
Ele queria sair. A mulher o queria preso. Ele não entendia, mas ela sim. Por causa do auxílio reclusão ele valia mais a pena cumprindo pena.

380) Flato (140 toques)
Na festa, segurou o máximo que pôde. Quando não aguentou mais, soltou devagar, em silêncio. Azar! Além do silencioso ser pior, aquele pesou.

domingo, 26 de maio de 2013

A grande jornada

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Ilustração feita pelo Luiz Rafael da Caricômicos,

um parceiro indicado por este Blog.

Henrique tinha apenas 13 anos de idade, mas um espírito aventureiro comparável aos dos grandes navegadores e exploradores da história, como os portugueses Bartolomeu Dias que primeiro dobrou o Cabo da Boa Esperança ou o conhecido Vasco da Gama que muito navegou da Europa para a Índia no início dos anos 1500.

Era fã também do italiano Marco Polo e suas expedições à China entre o final de 1200 e início de 1300, uma época em que viajar não era nada fácil. Robert Peary e Frederick Cook que brigam entre si pela primazia de primeiro ter chego ao Polo Norte, também estavam no seu rol de ídolos.

Mas havia um em especial. Um que ele tivera a oportunidade de conhecer e ter os livros autografados: Amyr Klink. Sim ele possuía todos os livros deste aventureiro brasileiro – e autografados com direito à dedicatória.

Um tesouro do qual não abria mão.

Fica fácil imaginar o sonho desse adolescente: velejar mundo afora, conhecer lugares.

Via-se aportando na Cidade do Cabo, ponto de encontro de navegadores de todo o mundo.

Via-se cruzando com os grandes navios na imensidão dos mares. Algo que, com certeza, teria de ter bastante cuidado, pois ser atropelado por um deles era algo inimaginável.

Ouvira histórias de navios chegando aos portos com pedaços rasgados de velas presos à âncora. O que teria acontecido não se sabia, mas era certo de que alguém havia sofrido um sério acidente por não estar atento.

Os livros de Klink foram consumidos ao extremo. Sabia-os de cor e salteado. E foi além.

Adquirira mapas de navegação, livros sobre marés, ondas, correntes marítimas, clima, nuvens e tudo o mais que precisaria conhecer para arriscar-se em sua primeira grande aventura.

Jovem, tinha tempo de sobra e durante as férias não fazia outra coisa a não ser estudar rotas, o povo de cada lugar em que pudesse ter o veleiro atracado, leis e costumes locais.

Preparava-se com afinco. Quando chegasse a hora, ninguém o deteria.

Play Station, Wii e afins, por mais difícil que se possa imaginar, não passavam nem perto do sentido de diversão para aquele garoto de 13 anos. Bem diferente de toda a turma.

No Ipad que levava sempre consigo não havia jogos. Havia e-books sobre expedições e navegações, mapas e rotas. Ele vivia conectado como qualquer garoto de sua idade, só que com um outro mundo.

Chegou um momento, nas férias do final do ano que ele creu estar preparado. Tinha na cabeça todo o trajeto da primeira aventura, tempo de navegação, o que levar, horário para descansos – nenhum detalhe havia lhe escapado.

Ia sozinho, como o Amyr Klink quando atravessou o Oceano Atlântico a bordo do IAT, um barco a remo ou na invernagem com o Paratii , sempre sozinho.

Tinha para si as palavras do ídolo: “Para não viver em portos, e navegar. Para fazer passar por suas janelas o mundo, e, um dia, voltar". Este era o maior dos sonhos.

Mas, Henrique tinha um grande problema: sendo menor de idade tinha de pedir tudo à mãe, Dona Eliza, e ela não gostava dessa história de ver o filho na água, sozinho.

Como quem tem espírito aventureiro sabe que o sangue está contaminado de forma crônica e esse espírito sempre fala mais alto, Henrique deu um jeito.

O grande galpão do avô foi o lugar perfeito para que tudo fosse preparado.

Não tinha os recursos e nem a chance de obter patrocínios como Amyr, mas tinha a mesma garra.

Sozinho, às vezes tendo a ajuda do avô, seu cúmplice na façanha, ia aprontando tudo. Aos poucos o barco foi recebendo alguma comida, água potável, GPS, bússola e todo tipo de equipamento, inclusive para reparos de emergência.

Finalmente chegou o grande dia. Henrique saiu escondido da mãe e com a ajuda de seu único cúmplice, o avô, lançou-se às águas, em direção à aventura.

Com o veleiro desatracado do píer, levantou vela e partiu. Poucos metros de navegação, por um descuido, a mochila com o GPS, a bússola e outros equipamentos de orientação, caiu na água. Perdidos!

Voltar? Desistir? Nem pensar.

Se voltasse no primeiro revés, jamais sairia de novo.

E lá foi ele. Coragem tinha de sobra. Apenas estava corroborando, mas só um pouco, com a fala de alguns amigos: faltava-lhe um pouco de bom senso.

O espírito aventureiro falou mesmo mais alto e ele sabia que, uma vez lançado às águas, velejaria ao sabor do vento, rumo ao desconhecido. Talvez uma aventura que nem mesmo o mestre Klink ousaria viver.

Navegando, afastava-se cada vez mais da terra. Pena que não iria muito longe naquele pequeno lago na chácara do avô.