quarta-feira, 3 de julho de 2013

Aquarela - Toquinho

Sou fã doToquinho desde há muito, muito tempo.

Ele é um dos caras que faziam  música para mim nos tempos de juventude. Eram ele, Vinícius de Moraes, Tom Jobim, Edu Lobo e outras feras.

Sou velho? Não, sou sortudo. Não eram só boas músicas, eram letras mais que inteligentes.

A música Aquarela é uma tremenda homenagem à ideia e é ela que uso para lembrar de que não precisamos de muito para sermos felizes.

Infelizmente não sei quem fez esse vídeo, mas está de parabéns. Assistam a ele, curtam a letra, as imagens e viajem do jeito que quiserem.

Fujam desse dia a dia maluco em que vivemos e permita-se ser criança por alguns minutos.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Traição não!

Traição não provisórioCasado há mais de 20 anos, Gerson jamais traíra a mulher. Para ele o casamento era sagrado. Formavam um par perfeito; não poderia ser melhor.

Os amigos sempre o perturbavam querendo levá-lo para as grandes noitadas que promoviam e, invariavelmente, acabavam em um quarto de hotel ou motel com garotas, várias garotas.

Ele se mantinha firme em seu propósito de completa fidelidade. Dorinha não merecia ser traída e o casamento dele não poderia ser comprometido com uma mancha dessas.

Aqueles que não o conheciam duvidavam de sua fidelidade. Achavam que era um engodo ou piada. Simplesmente não acreditavam ser possível, nos tempos hodiernos, alguém ser fiel.

Gerson não queria saber. Não se importava com o que pensavam, pois era assim que encontrava a felicidade.

Se olhava para belas mulheres que passavam? Claro que sim, afinal apreciar o belo é um direito de todos, mas o fazia sem cobiça.

Seus sonhos, sua libido e tudo o mais eram todos direcionados à Dorinha. Era ela quem importava. Se ela estava feliz, ele estava feliz.

Sentia orgulho de si mesmo quando chegava a casa e olhava a esposa, bem fundo nos olhos, sem qualquer constrangimento ou arrependimento por qualquer ato que pudesse ter praticado contra o seu santo matrimônio, contra a pessoa que mais amava neste mundão de Deus.

Mas, tão duro quanto a vontade ferrenha de Gerson era o empenho dos amigos para que ele cedesse. Rolavam até apostas se conseguiriam ou não.

Até então haviam tentado de tudo e o Gersão continuava insuscetível. “Bravo herói de um tipo de homem em extinção”, brincavam os amigos.

Certo dia, para comemorar o aniversário do Chefe, marcaram de comer um churrasco e tomar umas cervejas. Iam na Churrascaria Leitão, em Praia Grande.

Gerson topou ir, afinal eram só umas cervejas na churrascaria e jogar conversa fora.

Ligou, como sempre, para Dorinha avisando-a do que ia acontecer e o por quê de chegar em casa só após as onze da noite.

Foram em dois carros e Gerson, de carona, não teve chance de dizer não, mesmo quando se tocou de qual era o destino.

Os carros entraram pelo portão de uma grande casa perto do Forte, na qual algumas meninas devidamente contratadas estavam à espera do grupo.

Arrastaram o pobre do Gerson e a mais bela das garotas, já avisada e muito bem instruída, jogou-se toda fogosa pra cima dele.

Gerson foi, de cara, praticamente arrastado para um dos quartos, sem fala e sem saber o que fazer, ele ficou sem ação, apenas como observador de tudo aquilo que ia acontecendo.

Quando deu por si, estava de cueca e a moça nua na cama, chamando-o.

- Pare! Isso não pode acontecer. Eu amo minha mulher e não vou estragar meu casamento!

Dito isso, Gerson vestiu-se e saiu rápido, chamou um táxi e foi para casa.

Sentado no banco de trás, ele foi tentando recuperar-se e uma dúvida insistia em perturbá-lo: contaria ou não, aquela passagem, à esposa?

Decidiu-se por não contar. Apagaria aquilo da memória - nada acontecera.

Pediu ao motorista que parasse em frente a uma floricultura e comprou umas flores.

Chegou em silêncio, ia fazer uma boa surpresa à amada Dorinha.

Procurou-a e, ouvindo o barulho do chuveiro, subiu a escada e foi em direção à suíte do casal.

Abriu a porta gritando: - SURPRESA!!!

Entrou no box com as flores, de roupa e tudo e trocaram um beijo ardente, cheio de paixão e, no caso dele, com um certo sentimento de culpa por quase tê-la traído.

O beijo foi tão ardente e cheio de paixão que ele nem notou, Nestor, o limpador de piscinas, que deu uma olhada rápida no casal, da porta, recolheu sua roupa e saiu de fininho...

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Contos Twitteranos [19]

Contos TwitteranosContos que, como no Twitter, devem conter
um máximo de 140 toques.
O mais legal é fazer com que fiquem
com exatos 140 toques.

361) Príncipe encantado (140 toques)
Sabia que na lagoa havia um príncipe. Beijou todos os sapos e, nada. Não reparou no belo rapaz que pescava. O príncipe não estava encantado.

362) Zoo? (140 toques)
Os bichos viam através das grades e não entendiam. Todos deveriam ser livres. Por que, naquele parque, os humanos estavam presos nas jaulas?

363) O curió (140 toques)
Cantava um canto sofrido. O dono deliciava-se com o pássaro cantando sem imaginar que a letra daquela música pedia por liberdade longe dali.

364) Medo (140 toques)
Durante a noite quase desistiu. Não dormiria. O dia seguinte seria um divisor que separaria o homem do rato. Tinha hora no dentista – canal!

365) Tecnologia (140 toques)
Casal no chat do Face. Altas horas da noite e ele manda: Partiu dormir. Os dois desligam os aparelhos, dão-se um selinho, viram-se e dormem.

366) Quietude (140 toques)
À noite o gato dele miava alto e o papagaio gritava. O cão do vizinho: silêncio. - Muito educado seu cachorro, elogiou. - Quem, ele? É mudo!

367) “F” (140 toques)
Famoso fanfarrão ficava feliz fazendo fãs fascinadas. Fã? Fazia fugir friamente. Fera frívola, fecundava faxineiras faceiras, fêmeas fáceis.

368) Lentidão preguiçosa (140 toques)
Era tão devagar que quando a esposa começou com as dores do parto, foi buscar a parteira e chegou a tempo de ver o filho completando um ano.

369) Flagrante (140 toques)
- Mamãe, o pai e a nossa vizinha estão na TV! – Como? Onde? Qual o programa? – No polícia 24 horas. Parece que houve um assalto em um motel.

370) O cara (140 toques)
O mais esperto dos amigos, sempre pegava a gata mais gata. Naquela balada, o óbvio: pegou a melhor. Só não sabia que era Carlos e não Carla.

371) O flagra (140 toques)
A filha abre a porta e flagra os pais. –Filha! Grita a mãe, cobrindo-se. –Ora mamãe, já vi isso antes. –Como? –O papai com a empregada nova.

372) Família (140 toques)
Ele era muito rico. Pensava que tinha de tudo e era feliz. Pensava. Até ver o amigo pobre com a família. Notou que, na real, não tinha nada.

373) Coisa nojenta (140 toques)
Aquela cozinha estava um nojo. Era uma visão insuportável. Panelas brilhando e guardadas, pratos limpos, nada na pia. As baratas desistiram.

374) Impunidade (140 toques)
Atacou, estuprou e, sem o menor respeito ou pudor, ria da cara dos policiais quando foi preso, ciente de que logo seria solto. Era de menor.

375) O bolo (140 toques)
Fez um bolo delicioso para agradar o maridão. Altos recheios e cobertura. O marido chega, mal olha o bolo, e pergunta: – Guardou massa crua?

376) A pesca (140 toques)
Não pescaria nada, mas ele foi assim mesmo. Voltou no final da tarde, sem nada e feliz. Melhor que ficar em casa aturando a visita da sogra.

377) Vida de gari (140 toques)
Era gari. O dia todo correndo atrás do caminhão catando lixo dos outros. Chega em casa tarde, cansadão e ouve: - Amor? Põe o lixo pra fora?

378) Jogo decisivo (140 toques)
Jogo decisivo. Atrasadão, desceu do ônibus e pegou um táxi do Jabaquara até o Pacaembu. Estranhou não ver ninguém. O jogo era lá em Barueri.

379) Presidiário (140 toques)
Ele queria sair. A mulher o queria preso. Ele não entendia, mas ela sim. Por causa do auxílio reclusão ele valia mais a pena cumprindo pena.

380) Flato (140 toques)
Na festa, segurou o máximo que pôde. Quando não aguentou mais, soltou devagar, em silêncio. Azar! Além do silencioso ser pior, aquele pesou.

domingo, 26 de maio de 2013

A grande jornada

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Ilustração feita pelo Luiz Rafael da Caricômicos,

um parceiro indicado por este Blog.

Henrique tinha apenas 13 anos de idade, mas um espírito aventureiro comparável aos dos grandes navegadores e exploradores da história, como os portugueses Bartolomeu Dias que primeiro dobrou o Cabo da Boa Esperança ou o conhecido Vasco da Gama que muito navegou da Europa para a Índia no início dos anos 1500.

Era fã também do italiano Marco Polo e suas expedições à China entre o final de 1200 e início de 1300, uma época em que viajar não era nada fácil. Robert Peary e Frederick Cook que brigam entre si pela primazia de primeiro ter chego ao Polo Norte, também estavam no seu rol de ídolos.

Mas havia um em especial. Um que ele tivera a oportunidade de conhecer e ter os livros autografados: Amyr Klink. Sim ele possuía todos os livros deste aventureiro brasileiro – e autografados com direito à dedicatória.

Um tesouro do qual não abria mão.

Fica fácil imaginar o sonho desse adolescente: velejar mundo afora, conhecer lugares.

Via-se aportando na Cidade do Cabo, ponto de encontro de navegadores de todo o mundo.

Via-se cruzando com os grandes navios na imensidão dos mares. Algo que, com certeza, teria de ter bastante cuidado, pois ser atropelado por um deles era algo inimaginável.

Ouvira histórias de navios chegando aos portos com pedaços rasgados de velas presos à âncora. O que teria acontecido não se sabia, mas era certo de que alguém havia sofrido um sério acidente por não estar atento.

Os livros de Klink foram consumidos ao extremo. Sabia-os de cor e salteado. E foi além.

Adquirira mapas de navegação, livros sobre marés, ondas, correntes marítimas, clima, nuvens e tudo o mais que precisaria conhecer para arriscar-se em sua primeira grande aventura.

Jovem, tinha tempo de sobra e durante as férias não fazia outra coisa a não ser estudar rotas, o povo de cada lugar em que pudesse ter o veleiro atracado, leis e costumes locais.

Preparava-se com afinco. Quando chegasse a hora, ninguém o deteria.

Play Station, Wii e afins, por mais difícil que se possa imaginar, não passavam nem perto do sentido de diversão para aquele garoto de 13 anos. Bem diferente de toda a turma.

No Ipad que levava sempre consigo não havia jogos. Havia e-books sobre expedições e navegações, mapas e rotas. Ele vivia conectado como qualquer garoto de sua idade, só que com um outro mundo.

Chegou um momento, nas férias do final do ano que ele creu estar preparado. Tinha na cabeça todo o trajeto da primeira aventura, tempo de navegação, o que levar, horário para descansos – nenhum detalhe havia lhe escapado.

Ia sozinho, como o Amyr Klink quando atravessou o Oceano Atlântico a bordo do IAT, um barco a remo ou na invernagem com o Paratii , sempre sozinho.

Tinha para si as palavras do ídolo: “Para não viver em portos, e navegar. Para fazer passar por suas janelas o mundo, e, um dia, voltar". Este era o maior dos sonhos.

Mas, Henrique tinha um grande problema: sendo menor de idade tinha de pedir tudo à mãe, Dona Eliza, e ela não gostava dessa história de ver o filho na água, sozinho.

Como quem tem espírito aventureiro sabe que o sangue está contaminado de forma crônica e esse espírito sempre fala mais alto, Henrique deu um jeito.

O grande galpão do avô foi o lugar perfeito para que tudo fosse preparado.

Não tinha os recursos e nem a chance de obter patrocínios como Amyr, mas tinha a mesma garra.

Sozinho, às vezes tendo a ajuda do avô, seu cúmplice na façanha, ia aprontando tudo. Aos poucos o barco foi recebendo alguma comida, água potável, GPS, bússola e todo tipo de equipamento, inclusive para reparos de emergência.

Finalmente chegou o grande dia. Henrique saiu escondido da mãe e com a ajuda de seu único cúmplice, o avô, lançou-se às águas, em direção à aventura.

Com o veleiro desatracado do píer, levantou vela e partiu. Poucos metros de navegação, por um descuido, a mochila com o GPS, a bússola e outros equipamentos de orientação, caiu na água. Perdidos!

Voltar? Desistir? Nem pensar.

Se voltasse no primeiro revés, jamais sairia de novo.

E lá foi ele. Coragem tinha de sobra. Apenas estava corroborando, mas só um pouco, com a fala de alguns amigos: faltava-lhe um pouco de bom senso.

O espírito aventureiro falou mesmo mais alto e ele sabia que, uma vez lançado às águas, velejaria ao sabor do vento, rumo ao desconhecido. Talvez uma aventura que nem mesmo o mestre Klink ousaria viver.

Navegando, afastava-se cada vez mais da terra. Pena que não iria muito longe naquele pequeno lago na chácara do avô.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Contos Twitteranos [18]


Contos Twitteranos

Contos que, como no Twitter, devem conter
um máximo de 140 toques.
O mais legal é fazer com que fiquem
com exatos 140 toques.

341) Ônibus leito (140 toques)
Comprou passagem para o ônibus leito. Viagem longa, dormiria a noite toda. Na hora bateu o medo: e se roncasse? Ficou acordado o tempo todo.

342) Carnaval em Salvador (140 toques)
Lua de mel. Foram para o carnaval na Bahia. Ao saírem do hotel, um grupo arrebatou-lhe a esposa. Só a viu de novo na manhã seguinte, bêbada.

343) Homem grande (140 toques)
Com mais de 2,10 m, era um homem grande. Gabava-se disso e zombava de todos. Um dia zombou de um baixinho e se deu mal. Era um grande homem.

344) Amizade (140 toques)
Ia à praia com os amigos. Na sexta, quebra a perna. Teve de cancelar o passeio, ia ficar sozinho em casa. Não! Os amigos cancelaram a praia.

345) Morador de rua (140 toques)
Morador de rua, vivia embaixo de um viaduto. Ganhou na mega sena. Milionário, poderia fazer o que quisesse. Construiu um viaduto só pra ele.

346) A festa (140 toques)
Foi curtir a festa. Mulheres bonitas e bebidas à vontade. Tomou todas, até cair. Dia seguinte, o amigo pergunta: - Pegou qual? - Bebi todas!

347) Amigos - O melhor programa (140 toques)
Há mais de 20 anos não se viam. Marcaram uma noitada com meninas e bebidas, os velhos tempos. Não saíram. Bem melhor foi pôr o papo em dia.

348) Traição não! (140 toques)
Disse que trabalharia até mais tarde. Já com a garota, arrependeu-se. Desfez-se dela e foi para casa. Não deveria ter ido: flagrou a esposa!

349) Amor (140 toques)
O coração batia mais forte. A amizade fora fortalecida e o amor veio, ficou e dominou. Só faltava ser recíproco. Era! Juntos, foram felizes.

350) Conservadorismo (140 toques)
Era tão conservador que ainda consultava as páginas amarelas. Datilografava e enviava cartas. Foi pedir a mão da moça aos sogros. Recusaram.

351) Macho pra caramba (140 toques)
Machão, não acatava ordens de ninguém. Se tentassem, partia para a ignorância. A exceção era em casa: -Benzinho, posso lavar a louça depois?

352) Quem ama, perdoa (140 toques)
Sem querer, deixou sogra e cão presos na garagem. Ao lembrar-se, correu para livrá-los e abriu a porta desculpando-se. Só o cão ficou feliz.

353) Pescadores (140 toques)
Molinetes importados e varas de última geração. Todos preparados para o maior peixe e vencer o concurso. Ganhou o caipira e a vara de bambu.

354) Sonho da borracha (140 toques)
Sempre correndo atrás, não tinha condições de alcançar o da frente. Não via a hora de fazerem o rodízio e ele passar a ser o pneu dianteiro.

355) Bullying 3 (140 toques)
Sofria bullying desde que entrou na escola. Os colegas maiores não perdoavam. Sem problema ser saci, mas por que foi nascer com duas pernas?

356) Viagem (140 toques)
Queria chegar logo em casa. Como faltavam só alguns quilômetros não parou para dormir. Uma semana depois ainda estava no hospital, quebrado.

357) A história de Linda (140 toques)
A história de Linda era linda. Mas ela existia ou era só fruto da imaginação daquele namorado? Fato: a linda história de Linda era história.

358) Sonho de carreteiro (140 toques)
Tinha só 14 anos mas dirigia carretas país afora. Até viagens internacionais. O sonho era um dia ter habilitação e parar com os simuladores.

359) 24 horas (140 toques)
Dia claro nas 24 horas. Lá não anoitecia. Pessoas vinham, ficavam e partiam - algumas com choro outras com sorriso. Assim era a vida na UTI.

360) Caráter (140 toques)
A escola mudou-a de forma brutal. Uma nova pessoa nasceu mais esperta e inteligente, mas, apesar de não ser mais a mesma ela, era ela mesmo.

terça-feira, 30 de abril de 2013

Manifestação Espiritual

Aparição

Ilustração feita pelo Luiz Rafael da Caricômicos,

um parceiro indicado por este Blog.

Eles mantinham um Centro Espírita, um desses de mesa branca que só procuravam fazer o bem.

Viviam pelo certo e buscavam passar isso às filhas, incutindo nelas o desejo de fazer o certo não por haver leis divinas ou humanas que assim mandassem, mas simplesmente por ser o certo a fazer.

Odete, a mãe, dividia sua vida entre os afazeres domésticos e os atendimentos no Cento Espírita, local onde, com boa afluência de pessoas ávidas por um contato com entes queridos que já haviam partido, psicografava algumas cartas, bilhetes ou, às vezes, dizeres ininteligíveis.

Ela, até por esse contato com o plano espiritual sempre dizia que quando partisse faria de tudo para manifestar-se em algum momento. Assim poderia dar notícias e apaziguar a dor de suas amadas filhas e marido.

As filhas, pela criação, ainda eram virgens. Ambas, apesar dos namoros antigos, guardavam-se para o grande dia, para a primeira noite. A mais velha, já noiva, estava de casamento marcado.

Diziam todos que era uma família tradicional, ultraconservadora. Eram felizes em seu modo de ser, sempre preocupados em atender as pessoas e fazer o bem.

Eles tinham o “Dia da Família”. Toda quarta-feira, das 20 às 22 horas a televisão era desligada, e, ao som de algumas músicas suaves, acomodavam-se na sala de estar apenas para conversar entre eles.

Não era uma reunião, era apenas jogar conversa fora. Um papo entre amigos, o que os aproximava ainda mais. Às vezes o namorado e o noivo também participavam e, diga-se de passagem, curtiam muito aqueles momentos.

A vida foi passando e os dias acontecendo de forma natural até que a mãe caiu doente. Ninguém sabia o que ela tinha.

Foi uma via sacra por hospitais, médicos, ambulatórios e salas de emergência quando as crises aumentavam e ela definhando cada vez mais sem que alguém descobrisse a causa.

Uma manhã ela chamou o marido e as filhas e afirmou que estava pronta para partir.

Sentia que já havia vivido o suficiente para cumprir sua missão aqui na Terra e que todo aquele sofrimento era tão somente uma preparação para que ela, espiritualmente, compreendesse que a passagem era iminente e se aprontasse para ir.

Então, em vez de sofrerem, todos deveriam agradecer já que entendia a importância daquela preparação para evitar um desatino na hora da passagem do plano material para o espiritual.

Todos choravam à sua volta e ela, firme em seu propósito, lembrou que tudo deveria seguir seu rumo normalmente. A filha se casaria na data marcada e, tão logo reunisse condições para tal, manifestar-se-ia de alguma forma para dar notícias.

E assim foi. Em uma bonita tarde de sol ela se deitou para descansar e... descansou.

Em seu velório, feito no Centro Espírita, acorreram muito mais pessoas do que eles poderiam imaginar em seus mais promissores pensamentos.

Foi aí que notaram como ela era querida.

O pai chamou as filhas, abraçou-as dizendo:

- Hoje tenho certeza de que quando sua mãe nasceu, todos sorriam e só ela chorava e agora, todos choram e só ela sorri. Ela fez a vida valer a pena.

Em um cemitério lotado de pessoas e flores, muitas flores, o corpo dela foi guardado no túmulo da família, junto com os pais e um irmão mais velho.

Passado algum tempo, a vida se normalizara. Claro que dor e saudade faziam-se presentes no dia a dia da família, mas, lembrando das palavra da mãe, todos procuravam viver da melhor forma.

Palavras da mãe... e a manifestação prometida? Será que ela conseguiria aparecer, conversar conosco? Perguntavam-se.

- Talvez em uma de nossas quartas-feiras, disse, bem lembrando, a caçula.

Os dias passavam e nada acontecia. Toda quarta-feira era esperada com grande ansiedade e passava com um grande nó na garganta, um misto de desapontamento e dor.

Mas, como a vida seguia seu curso, o grande dia chegou. Casamento.

A cerimônia transcorreu perfeitamente, a recepção foi maravilhosa. Tudo acontecia de forma tão simples e perfeita que dava a impressão de que a mãe estava ali, tomando conta de tudo, como sempre.

Tudo acabado, a noiva, agora Sra. Oliveira, estava no banheiro do quarto do hotel arrumando-se sem parar de pensar no momento em que, finalmente, se entregaria ao noivo, que dizer, marido.

Seus devaneios pararam quando notou um frio que lhe fez arrepiar todos os pelos do corpo. Seria ansiedade pelo grande momento de, pela primeira vez, fazer amor em sua plenitute, algo há muito esperado?

Mas, sentindo uma presenta atrás de si, voltou-se, viu e não se conteve:

- Mamãe! Você conseguiu manifestar-se, posso vê-la perfeitamente!

- É mesmo filha?

- Sim mamãe, mas, poxa, tinha de ser justo agora, em minha noite de núpcias. Bem hora do enfim sós?

sábado, 27 de abril de 2013

Contos Twitteranos [17]

Contos Twitteranos

Contos que, como no Twitter, devem conter
um máximo de 140 toques.
O mais legal é fazer com que fiquem
com exatos 140 toques.

321) Vida após... (140 toques)
Na barriga da mamãe não tinha certeza se haveria vida após o parto. Nascido, a incerteza era a vida após a morte. Morreu. Agora só ele sabe.

322) Violência (140 toques)
Perseguição e tiros entre amigos de infância. Embora quase irmãos não havia trégua e a batalha era violenta. Só parou ao acabar o paintball.

323) Compras de Natal (140 toques)
Dizendo-se autossuficiente, foi comprar os presentes de Natal sozinho. Após três horas, de mãos vazias, liga para casa: - Benzinho? Socorro!

324) Amor sincero (140 toques)
Não importava como ele chegava a casa. Bêbado; sóbrio; cedo ou tarde, era sempre recebido pelo abanar da cauda do cãozinho. Amizade sincera.

325) Telemarketing (140 toques)
Era telemarketing ligando do dia todo pedindo algo. Quando um advogado ligou, nem quis saber, desligou na cara. Pena, era sobre uma herança.

326) Gratidão (140 toques)
Era grato por tudo o que ocorria, bom ou não. O mundo era colorido em volta dele. Não era sofredor, apenas sabia que ser feliz era o melhor.

327) No deserto (140 toques)
Perdido há três dias naquele deserto, achou várias pepitas de ouro com cerca de 200 gramas cada. Trocaria todas por um simples copo de água.

328) Jogos de azar (140 toques)
Entrou num cassino sentindo-se o Donald Trump. Jogou tudo crendo que ia ganhar. Saiu de bolsos vazios sentindo-se o mais idiota dos idiotas.

329) Mãe Dinah (140 toques)
Todos os dias ele brincava dizendo que ia falecer naquele dia. Certa manhã sentiram sua falta no emprego. Havia acertado a própria profecia.

330) Balada errada (140 toques)
Saiu da balada com aquele garotão que a conquistara. Foram ao motel. Lá ele colocou um DVD da Ana Carolina e fez xixi sentada. Queria sumir!

331) Caipirês (140 toques)
O sotaque dos primos do interior era motivo de zoação. Ele adorava perturbá-los. Até que foi para o interior e a zoação virou-se contra ele.

332) O valente (140 toques)
Subiu na montanha russa mais radical, gabando-se para as meninas que estavam com medo. No final não conseguia sair: havia borrado as calças.

333) Mega QI (140 toques)
Dono de um super QI, tinha problemas para conversar com as pessoas. Como era exigente, o contato era difícil. Acabou louco, falando sozinho.

334) O brigão (140 toques)
Não tinha paciência. Brigava com todos e bem fácil saía no braço. Argumento para ele era no tapa. Até que apanhou feio de um cara bem menor.

335) Paciência de Jó (140 toques)
Era muito calmo. Sobrava paciência por todos os lados. Vivia tranquilo, sem se exaltar com nada. Ao menos até ter de cuidar dos 2 sobrinhos.

336) Como reatar (140 toques)
Eles queriam reatar. Marcaram um encontro para conversar, mas os olhos dele não se desgrudavam da morena sentada à mesa ao lado. Impossível.

337) Paixonite (140 toques)
Embora criança ainda, todo ano era paixão por uma mulher diferente e sem poder declarar-se. Até quando iria aquela paixão pelas professoras?

338) Um contra 50 (140 toques)
Sozinho contra 50. Não tinha opção a não ser enfrentar e passar por aquilo. Procurou manter a calma e começou a responder as provas do ENEM.

339) Reinado (140 toques)
Passou um final de semana de Rei. O corpo até tomou os contornos do trono. Domingo à noite, com dor e cansado, pediu: -Mãe! Cadê o hipoglós?

340) Sisudez (140 toques)
Durante o dia era um advogado dos mais sérios. À noite lecionava Direito Penal. Mas, nas baladas dos sábados era Clero, a famosa Drag Queen.